O sonho de Manoel Gomes Tróia (23)

O Hospital UNIMED

Em 1997, Paulo Tadeu Falanghe e sua diretoria passaram a dar prioridade ao Hospital UNIMED-Piracicaba. A taxa de ocupação girava, até então, em torno de 30 a 45%. E o hospital não conseguira, ainda, libertar-se da fama do anterior Hospital Piracicaba, quando, entre o jocoso e o lastimável, dizia-se: “quando alguém desaparece ou está para morrer, procure no Hospital Piracicaba”. Por isso, desde as administrações de Manoel Gomes Tróia até a de Eudes de Freitas Aquino, havia sérias resistências à internação naquela casa de saúde.

A partir do ano 2000 – e com as mudanças e os investimentos da diretoria de Falanghe – a média de ocupação passou a de ser 80%, “chegando a 100 e até mesmo a 110% em alguns períodos do ano”, conforme declarações do médico Luís Kanhiti, diretor administrativo do Hospital da UNIMED desde 2000.1

Desde 1999, a UNIMED já passara a contar com o trabalho de Arthur Carlos Bertocco, transferido de seu trabalho administrativo na sede da Rosário, para atuar como gerente administrativo do Hospital, justamente para que a gerência hospitalar ganhasse em termos de qualidade e buscasse otimizar os resultados da unidade, melhorando suas taxas de ocupação. A equipe também seria reforçada, a partir de 2000, com a participação do médico Ariovaldo Antonio Vendramin, que atuaria como assessor clínico hospitalar, por indicação da diretoria, também na busca de redefinir o perfil do Hospital UNIMED. E o ginecologista e obstetra Alberto de Petta Netto, eleito diretor clínico a partir de 1998, também preocupado com a estrutura física e humana do Hospital, deu prioridade à reorganização de seu departamento, buscando integrá-lo com a Comissão de Ética.

Kanhiti destaca que, no período, os investimentos mais pesados foram em infra-estrutura, “onde ninguém vê”. Todo o sistema hidráulico e elétrico foi trocado, pois a fiação já corria risco de incêndio e, à medida em que aumentava o atendimento, mais o sistema ficava sobrecarregado. A vontade de “fazer a coisa certa” foi tamanha que se adquiriu um gerador de grande porte que, em caso de falta de energia, manteria o funcionamento do hospital em todos os setores. Na maioria dos hospitais de grande porte, para se avaliar aquela aquisição, apenas as áreas essenciais funcionam, quando necessário, apenas com o gerador. Assim foi que, quando o País mergulhou na grave crise energética, o Hospital UNIMED-Piracicaba já era auto-suficiente. As divisões dos espaços internos foram inteiramente readequadas para atender às exigências da Vigilância Sanitária, responsável pelas cobranças às normas determinadas pelo Ministério da Saúde.

O “não visto” aparecendo

Com a infra-estrutura praticamente pronta, o foco passou a ser a “humanização do atendimento aos clientes e também a tecnologia”. No dizer de Kanhiti, “o que antes não era visto começou, agora, a aparecer”. Por humanização, a diretoria da UNIMED-Piracicaba entendia a tentativa de evitar, o máximo possível, ou minimizar, o constrangimento, a ansiedade e o medo de a pessoa permanecer num hospital. “Vários trabalhos mostram que isso não apenas repercute bem nos pacientes, como melhora a qualidade de vida, diminuindo o tempo de internação. A recuperação é mais rápida quando se consegue aliviar essa tensão, o estresse no hospital”, completa Kanhiti.

Entre as mudanças do Hospital, alterações na comida servida: distância da dieta sem sabor. Providências, aparentemente simples – mas cuja ausência era sentida na qualidade do atendimento – foram adotadas, como a contratação de uma “hoteleira” para reorganizar o atendimento. Trata-se de uma tendência internacional, permitindo que hospitais passem a prestar serviços com nível de hotelaria.

Alguns exemplos do que o hospital passou a oferecer a partir da atividade da “hoteleira”: treinamento de copeiras, de pessoal de enfermagem, de camareiras; todo o enxoval do paciente passou a ser embalado em plástico; contratação de um chefe de cozinha para mudar o aspecto da comida e mudar a má fama de “comida de hospital”. O próprio Luís Kanhiti admite: “A dieta de hospital é feita com comida sem sal, sem açúcar, é terrível. Para minimizar essas restrições, o chefe de cozinha muda a aparência e o sabor dos alimentos que os pacientes vão receber.”

Maternidade e Pediatria

Foi criada, no Hospital UNIMED-Piracicaba, a UPI, quase que um contraponto à UTI. É a “Unidade de Palhaçada Intensiva” em que funcionários, vestidos de palhaços, descontraem o ambiente, divertindo crianças e idosos, justamente os que se mostram, via de regra, mais carentes. Mas, por extensão, esse clima festivo e de descontração se espalha por todos os ambientes.

Na Pediatria há videoteca e uma sala de recreação com brinquedos, jogos, material para desenho. O objetivo é, também, estimular e gerar integração entre as crianças presentes. Na época da entrevista com Luís Kanhiti, um garoto de nove anos foi abordado pela entrevistadora. Tímido, o menino pouco falava, mas dizia de sua alegria em poder desenhar, prestar atenção nos animais que ilustram o papel de parede no corredor. A mãe do garoto já conhecia o hospital antes da reforma. É dela o depoimento: “Melhorou muito, uma mudança e tanto. Anos atrás, você não tinha para onde ir, a não ser do quarto para o corredor… Essas novidades ajudam bastante na recuperação. Só o fato de sair do quarto e vir para a sala de recreação brincar – onde tem lápis, papel, vídeo, brinquedos, um monte de coisas – ajuda bastante a distrair e a passar o tempo.Ajuda também o acompanhante, que se distrai mais, também. Há algum tempo, estive aqui com meu outro filho, então com três anos, para uma cirurgia e ele não queria ir mais embora. Tive que tirá-lo do quarto chorando”.2

Na Maternidade, criaram-se alojamentos comuns para mãe e filho. Passou-se a filmar o parto e a fotografá-lo, presenteando-se os pais com a foto e o vídeo. Numa sala “vip” a família pode acompanhar o parto por vídeo, em tempo real, um lugar aconchegante onde ficam disponíveis café, chá, bolachas. Ao mesmo tempo, a “web site” da UNIMED-Piracicaba disponibiliza imagens de fotos e do vídeo do parto, para que familiares, à distância, possam acessar e deixar mensagens, caracterizando-se, assim, o programa Bebê Net.

A criação do Programa Qualitas3 passou a fortalecer os cursos de preparação para gestantes, com orientação de médicos e enfermeiras, sem custos extras. As gestantes têm oportunidade de conhecer, com antecedência, o quarto, a sala “vip”, outras dependências do hospital. As enfermeiras dão orientação sobre a higiene do bebê e chegam a visitar as gestantes em suas casas. Não se trata de trabalho pioneiro do Hospital UNIMED-Piracicaba, mas é um atendimento ao nível de hospitais de grandes centros, como São Paulo.

Decoração e arte

A artista plástica Nilcéa Benvenutti de Camargo, também formada em decoração, lembra-se da experiência que teve, antes de 1997, quando precisou internar filhos no Hospital UNIMED-Piracicaba. Ela ficava “inconformada de ver o ambiente todo cinza e branco, meu filho como que procurando, com o olhar, coisas na parede. Era tudo muito triste”, conta.4 Quando a diretoria de Paulo Tadeu Falanghe assumiu, naquele ano, Nilcéa foi contratada para, juntamente com Paulo Belatto e Gilberto Dias, arquitetos, mudar o ambiente do hospital. “O ambiente é marcante para as pessoas, até o cheiro do lugar a gente costuma lembrar. Portanto, num hospital com cara de hotel, o paciente vai se sentir mais confiante, não sendo tratado apenas como um doente, mas vendo que as pessoas estão acreditando em sua recuperação”, explica.

O arquiteto Gilberto Dias passou pela mesma experiência, quando precisou ser internado: o ambiente cinza, branco, “flores de plástico que retêm poeira…” Em conversa com a diretoria da UNIMED-Piracicaba, também revelou suas idéias de “humanização na área hospitalar”, coincidentes com as da diretoria. “Um ambiente onde tudo é muito branco, luz fria, acaba deixando a pessoa mais pálida. Um elemento de cor estimula a pessoa a ter um processo curativo mais rápido”.5

Na Pediatria, as cores saíram do branco e do cinza das paredes para o verde clarinho. “Foi um sucesso. Eu não conhecia nenhum hospital em Piracicaba que fosse colorido”, diz Nilcéa. Na Maternidade, a cor passou a ser rosa, “referência ao lado maternal”, explica a decoradora. E, na UTI, a cor da sala passou a ser verde, com música ambiente muito suave. Para José Márcio Zveiter de Moraes, médico responsável pela UTI, é lamentável que não se tenha uma visão do antes e do depois, tais os benefícios que as alterações trouxeram. Embora reconheça que o Hospital UNIMED-Piracicaba, por ser adaptado e não planejado, não possa ser reconhecido como um hospital-modelo, orgulha-se das mudanças e dos efeitos sobre pacientes e médicos: “A evolução foi muito significativa. Hoje, a UTI está caminhando para uma situação em que cada indivíduo será tratado isoladamente, dentro de um box”.6

Humanizando, mais e mais

A humanização e a tecnologia permitiram que o Hospital UNIMED-Piracicaba servisse como treinamento para toda a região. Nele, criou-se, também, o programa “Jogue Certo”, iniciativa dos funcionários que são chamados de “colaboradores” pela direção do hospital. Os próprios funcionários separam o lixo reciclável que é entregue a empresa “Reciclar 2000”, formada por catadores de papel que passam por avaliação médico clínica no hospital. Todo o retorno financeiro do lixo é da Reciclar 2000.

As sobras de alimentos – e Luís Kanhiti insiste em que não se confundam “sobras” com “restos” – são, muito antes do Programa Fome Zero, aproveitadas para fazer um sopão, que é entregue a entidades beneficentes que atendem crianças. Um bazar beneficente, por iniciativa da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), é realizado com doação de roupas, sapatos, brinquedos, com o dinheiro arrecadado sendo enviado a entidades assistenciais, especialmente às que assistem crianças que recebem maus tratos.

Com a Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), o hospital, desde o ano 2000, tem convênios nas áreas de Nutrição, Psicologia, Farmácia e Direito. Numa parceria, o hospital oferece campo de estágio para alunos da graduação e pós-graduação e a Universidade cede bolsas de estudo para funcionários. Uma psicóloga, contratada pelo hospital, com mais doze estagiários, elaboram programas de atendimento a clientes e também a funcionários. Diz Kanhiti: “o foco principal é o funcionário. Para ele poder humanizar o atendimento ao cliente, precisa estar humanizando-se, também.”

A Pastoral da Saúde, uma vez por semana, presta atendimento aos internados, dentro da exigência do Hospital que é a de respeito a todos os credos religiosos.

 Tecnologia

No final de 2002, muitos dos equipamentos adquiridos pelo Hospital UNIMED-Piracicaba já precisavam ser renovados, segundo o próprio Luís Kanhiti. A velocidade da tecnologia exige investimentos cada vez mais pesados, dada a rapidez das inovações. Mas, desde o ano 2000, adquiriram-se quatro respiradores e desfibriladores de última geração, monitores, aparelhos de hemodiálise e de ultra-som.

Paulo Tadeu Falanghe e Luís Kanhiti, ao lado da diretoria, lamentam-se, ainda, de não terem conseguido construir o hospital que a Cooperativa idealiza. Mas admitem que, com toda a adaptação feita, o caminho foi aberto. A busca de, cada vez mais, ter certificados de qualidade serve de bússola. A imagem de Kanhiti é significativa: “Como todo avião que precisa ter um painel para indicar onde está e para onde vai, o hospital também precisa saber onde está e para onde vai.”

A farmácia do Hospital UNIMED passou, também, a ser uma das grandes preocupações da diretoria presidida por Paulo Tadeu Falanghe. Transformá-la em uma farmácia modelo seria, a partir de 1998, uma das metas saudavelmente obsessiva. Em agosto daquele ano, Falanghe e Ariovaldo Antônio Vendramini, assessor clínico do hospital, contrataram a farmacêutica Miriam de Oliveira Elias como assistente técnica, avaliando os trabalhos que aquela profissional fizera na Santa Casa de Misericórdia e por sua especialidade como professora da Unimep. A proposta e os objetivos expostos para a farmacêutica foram diretos e claros, segundo a própria profissional: “avaliar a área farmacêutica e propor o que havia de melhor para a área, uma vez que estavam priorizando os projetos demudanças de todo o Hospital. Relataram-me que as mudanças seriam baseadas na qualidade da estrutura física da farmácia e de todo o hospital, na qualidade de

atendimento e terapêutica ao paciente, otimização de custos com medicamentos e materiais médico- hospitalares, um hospital humanitário, enfim”.7

O diagnóstico que a farmacêutica apresentou à diretoria foi, no mínimo, desanimador, diante das realidades encontradas na farmácia do hospital, conforme ela própria ainda confirma:

“Havia apenas uma farmácia para os setores de internação, e que também repassava os medicamentos para o centro-cirúrgico, com uma série de inadequações, como: espaço físico inapropriado para a rotina de separação dos materiais médico-hospitalares e medicamentos, e espaço mal distribuído para a circulação de pessoal. O piso e a pintura eram inadequados, havia falta de aparelhos para controle de estoque (computadores e controle de código de barras) e falta de um sistema adequado de distribuição do medicamentos aos setores de enfermagem,

atualmente exigido pelo Conselho Regional de Farmácia (CRF)”.8

Segundo a visão profissional de Míriam, havia deficiências de higiene na preparação dos medicamentos líquidos aos pacientes e também dos medicamentos que precisavam ser fracionados. Os psicotrópicos, para os quais se exige controle especial, ainda que ficassem em local mais isolado que os demais, não estavam em armário trancado, conforme exigência da Vigilância Sanitária. Por outro lado, havia deficiências, também, no atendimento ao centro cirúrgico, que necessitava de uma “farmácia satélite”, específica do setor.

Com o apoio da administradora do hospital, enfermeira Maria Aparecida Maluf, e com “carta branca” do presidente Paulo Tadeu Falanghe, foi elaborado e aprovado um projeto amplo na área farmacêutica. Relata Míriam: “Com o apoio do dr. Paulo, distribui as tarefas por setores, fazendo uma estimativa para o futuro, pensando também na parte científica, para mostrar o trabalho com uma visão mais técnica e também propagar as melhorias de implantação, com um contexto ético e profissional. Realmente, senti que, nos anos de 1999 e 2000, as mudanças ocorreram, principalmente as mudanças físicas. O investimento com maquinaria foi grande para a área farmacêutica, realizando-se muito. Ressalto que, na implantação da farmácia satélite do centro cirúrgico, a funcionária Vanda Ricobello (que atua na Santa Casa há mais de 30 anos), requisitada e contratada como funcionária da UNIMED, foi de grande valia.”9

Na mesma época, fez-se a implantação da Unifarmácia, de rotinas para obtenção do “Selo da ISO para a Qualidade Hospitalar”, estabeleceu-se um convênio com a Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) para que a parte prática do curso de Enfermagem fosse desenvolvida no Hospital. No ano de 2001, a equipe formada por Míriam Elias Cavallini, Maria Aparecida Maluf e Vanda Ricobello dissolveu-se.

Atendimento em números

O presidente Paulo Tadeu Falanghe orgulha-se de participar da certificação de Qualidade Hospitalar (CQH), concedido pela Associação Paulista de Medicina e Conselho Regional de Medicina ao Hospital UNIMED-Piracicaba: “O processo assegurou ser o hospital da Cooperativa o de menor índice de infecção hospitalar da cidade, entre os primeiros do Estado”.

Para concessão do certificado, a APM trabalha com indicadores como taxa de ocupação hospitalar, tempo médio de permanência do paciente, taxa de cesarianas, taxa de cirurgias suspensas, taxa de mortalidade institucional, taxa de mortalidade operatória, relação enfermeiros/leito, relação pessoal/leito, taxa de acidentes de trabalho, taxa de rotatividade, taxa de infecção hospitalar.

Analisados entre 1999 e 2001, alguns dos índices do Hospital da UNIMED se destacam: o percentual de cirurgias suspensas é zero; a taxa de mortalidade institucional (número de mortos/número de internações ao mês) variou, nos três anos, entre 1,48% e 1,78% enquanto houve hospitais do Estado com índi ce de 14% ao mês; a taxa de mortalidade operatória (número de pacientes que morrem nas primeiras 24 horas ou nos primeiros dias do pós-operatório) foi de apenas 0,02% em 2000, chegando a ser zerada em 2001. O item infecção hospitalar também mereceu destaque na análise do médico Luiz Kanhiti, que reafirmou ser ele um dos maiores orgulhos do hospital. Elas foram, entre 1999 e 2001, de 0,57; 0,75 e 0,48%.

Notas:

1 Luíz Kanhiti é médico hematologista, especializado em Administração e Saúde, delegado suplente na diretoria executiva da UNIMED. Entrevista dada a Patrícia Fuzeti Elias, 6/12/2002.

2 Depoimento de Ana Paes Volpato a Patrícia Fuzeti Elias, 6/12/2002.

3 Maiores detalhes sobre o programa podem ser consultados no próximo capítulo.10 Informações cedidas a Patrícia Elias, pela secretaria do Hospital UNIMED, 20/12/2002. Os dados eferentes a 2002 e 2003 foram disponibilizados posteriormente pela diretoria da UNIMED.

4 Entrevista de Nilcéa Benvenutti de Camargo a Patrícia Fuzeti Elias, 6/12/2002.

5 Entrevista de Gilberto Dias a Patrícia Fuzeti Elias, 6/12/2002. Gilberto Dias é, também, docenteem curso de design de interiores e presta serviços para as unidades da UNIMED-Piracicabadesde 1998.

6 Entrevista de José Márcio Zveiter de Moraes a Patrícia Fuzeti Elias, 6/12/2002.

7 Entrevista de Miriam Elias Cavallini ao autor, 18/08/2003. Quando contratada pela UNIMED,usava o nome então de solteira, Miriam Oliveira Elias.

8 Idem.

9 Parte dessa experiência no hospital da UNIMED serviu de subsídio para o livro de Miriam EliasCavallini, em co-autoria com Marcelo Polacow Bisson, “Farmácia Hospitalar: um enfoque emsistemas de saúde”, Editora Manole, 2002.

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