O sonho de Manoel Gomes Tróia (24)

“Visão moderna de cooperativa”

Fazendo um retrospecto das administrações da UNIMED em seus 33 anos de existência, o advogado Antônio Orlando Ometto falou, a respeito da administração da diretoria presidida por Paulo Tadeu Falanghe: “Jovem e dinâmico, ele imprimiu uma visão moderna de cooperativa”.

Mas ao apresentar o relatório do Conselho de Administração 1997/98, o presidente Paulo Tadeu Falanghe não ocultou as dificuldades crescentes, dizendo aos cooperados: “Enfrentamos, como cooperativa, uma concorrência predatória e desleal”, referindo-se, também, a “pressões políticas, cartas e telefonemas anônimos ameaçatórios”. E descrevia o quadro a ser enfrentado: necessidade de baixar custos, aumento da inadimplência, ameaça de novas regulamentações dos planos de saúde que poderiam alterar as relações contratuais em vigor. Era, na realidade, o momento de séria transição no mercado de saúde do país.

Os números do relatório eram claros: em 1997, havia 129.274 usuários da UNIMED-Piracicaba, contingente maior do que em 1996, de 127.247. No mesmo ano, o movimento do Hospital UNIMED ampliara-se: atendimentos PSA, 21.449; atendimentos PSI, 7.166; ortopedia, 12.874; internações, 6.137; cirurgias, 3.329; exames de raio X, 15.514; exames de tomografia, 425; de ultrasom, 480. A ocupação média do hospital foi de 51,9%.

O crescimento no número de usuários da Cooperativa, de 1997 para 1998, foi de cerca de 14 mil, ou seja, 10,61%.1 Em uma análise mais ampla sobre os rumos da administração, Paulo Falanghe afirmaria, no ano 2.000: “Um dos principais objetivos do futuro para a UNIMED é a profissionalização crescente da administração da Cooperativa. Mais importante para nós, no entanto, é conseguir uma participação maior do próprio médico cooperado na definição de como deve ser a UNIMED do próximo milênio.”

Em 1999, houve também a implantação do programa “UNIMED Cultura”, através do qual a Cooperativa passou a incentivar peças de teatro, shows, atividades de lazer. Os espetáculos que integravam o projeto passaram a ter até 50% de descontos para os usuários da UNIMED. Destacaram-se, especialmente, as apresentações de Adriana Calcanhoto, Beto Guedes e Pedro Camargo Mariano e peças teatrais como “Trair e coçar é só começar”, “Caixa Dois”, com Juca de Oliveira e “Gato por lebre”, com o piracicabano João Vitti.

O projeto “Qualitas”

Em novembro de 1999, Paulo Falanghe deu início ao projeto Qualitas, programa de medicina preventiva e qualidade de vida. Tinha-se a certeza de que estava superado e esgotado o modelo tradicional de medicina dos últimos 30 anos, baseado no tripé consulta, exames, internação. A tendência mundial era a de estabelecerem-se programas de orientação ao paciente, com educação e controle. Em Piracicaba, o “Qualitas” deveria buscar esse objetivo. E para coordená-lo convocou-se o médico Nelson de Castro Mendes, tendo, à sua disposição, uma equipe de enfermeiros, auxiliares de enfermagem, psicólogos, nutricionistas, professores de educação física.(Qualitas: programa com palestras e incentivo à formação de grupos)

 

Considerações do médico Nelson de Castro Mendes mostram o porquê de o “Qualitas” ter-se tornado parte dessa “visão moderna de cooperativa”. Diz ele:

– “A UNIMED-Piracicaba entendeu que, com a política da ANS-Agência Nacional de Saúde, só sobreviverão aqueles que forem competentes, criativos e organizados. Com o Qualitas, queremos ser inteligentes. Não há dinheiro para tudo e o investimento tem que ser na saúde e não na doença. É uma mudança de foco. Todos ganharão com isso no longo prazo: a população, sendo mais saudável e feliz, adoecendo menos; a Cooperativa, economizando mais e podendo dar melhor remuneração aos cooperados. No começo assusta, mas é o caminho”.2

Castro Mendes dá um exemplo claro de praticidade do sistema, que é gratuito:

“Não adianta só falar que cigarros ou diabetes fazem mal. Não se mudam hábitos apenas com palestras. No Qualitas, a proposta é diferente: criação de grupos, de espaços em que o usuário sinta confiança e seja incentivado a freqüentar. Com isso ele acaba trazendo a família, amigos, num movimento natural. O diferencial Qualitas é que, nele, há a educação, a vigilância, o controle e a cobrança. Se o paciente deixa de comparecer, vamos procurá-lo para saber o que está acontecendo”.

O modelo adotado

O modelo adotado pelo “Qualitas” foi uma mescla dos modelos cubanos e inglês, baseando-se, também, na experiência prática anterior do médico Castro Mendes durante dez anos, em empresas de Piracicaba e, também, em sua passagem como Secretário Municipal da Saúde, ao início da década de 1990.

Segundo o modelo, o paciente só é apresentado ao programa por um médico cooperado, sendo, então, inserido em um dos dois grandes grupos, com encontros semanais: um, ligado à área nutricionista (obesidade, colesterol, diabetes, ácido úrico, triglicérides); outro, à psicológica (ansiedade, depressão, angústia, estresse). Além disso, há atividades de socialização, terapia ocupacional, grupos de excursão, etc. A cada quatro meses, o paciente é reavaliado.

Um dos objetivos claros, também declarado pelo médico Castro Mendes, é o de “resgatar aquilo que a modernidade acabou tirando da medicina, que é a qualidade do relacionamento humano entre médico e paciente”, ainda que, no programa, o atendimento seja feito por uma equipe de saúde sem médicos, mas com psicólogos, nutricionistas, psicopedagogos, professores de educação física, fonoaudiólogo, terapeutas educacionais.

O modelo do Qualitas foi uma experiência pioneira da UNIMED-Piracicaba, ainda que outros planos de medicina tivessem experiências semelhantes. No ano de 2002, 45 UNIMEDs visitaram o programa de Piracicaba, sendo que, destas, 12 reproduziram o modelo. Em 2001, um workshop de medicina preventiva reuniu, na cidade, representantes de 70 UNIMEDs do Brasil; em 2002, foram 100.

Na empresa e domiciliar

A criação do “Qualitas na Empresa” obteve o mesmo sucesso. Uma equipe multidisciplicinar vai a empresas, dividindo os pacientes em grupos, havendo casos em que até os familiares dos empregados, dependentes do plano, são atendidos. Por outro lado, expandiu-se, também, o conceito da “UNIMED Domiciliar”, que passou para o “Qualitas”. Antes, atendia-se, apenas, a pacientes terminais. Passando à responsabilidade do “Qualitas”, o atendimento se ampliou a pessoas idosas, com dificuldade de locomoção, que são levados a participar dos

grupos e de suas atividades.

Ao final do terceiro ano de funcionamento, haviam sido atendidas 13 mil pessoas na sede do Qualitas em Piracicaba e mais 25 mil pessoas no atendimento a empresas da região. Duas unidades do programa foram montadas: uma em Rio das Pedras e outra, em Tietê. Considerando que, em 2002, havia 140 mil associados, entre particulares e empresas, o programa atingiu cerca de 25% dos usuários. A proposta é de que, em 2005, pelo menos 40% dos usuários sejam atendidos pelo programa.

Todos os esforços valeram a pena. O testemunho de MCMA 3 , enfermeira,38 anos, é comovente e significativo. Por iniciativa própria, procurou a “Qualitas”, em busca de orientação psicológica para os dois filhos, um menino então com 9 anos, a menina, com 4. Acontecera que MC perdera o terceiro filho, com apenas três meses de idade e a tragédia abalara a família. Então, percebeu que ela própria se beneficiava do apoio da “Qualitas”. Após quase dois anos de participação, conta:

– “Os profissionais são excelentes e isso deu uma boa força para lidar com a situação. E acabou ajudando em outras áreas, também em outras situações. (…) As crianças se sentem bem à vontade no convívio com as outras. Depois da morte do irmãozinho, meu filho ficou com medo de perder a mãe e o pai. Agora, ele já está mais confiante, mais seguro. Minha filha tem trabalhado a questão da morte com outras amiguinhas que não participam do grupo. Sempre que surge o assunto de perda ou de morte, ela tem algo a falar. Dentro do que eu esperava, que foi trabalhar a perda, acredito que 90% já tenham sido sanados”.

Em 2002, com o programa “Qualitas”, a UNIMED-Piracicaba recebeu o prêmio de prevenção em saúde “Djalma Chastinet Contreiras”, oferecido pela Fundação UNIMED do Brasil em âmbito nacional.

“UNIMED Cidadã”

Atenta à responsabilidade social das empresas – movimento que cresce no Brasil – a UNIMED-Piracicaba, na gestão de Falanghe, incrementou o seu programa social, existente desde 1.998. A partir de 2001, com a coordenação de Marialcina P. Scarazatti, estabeleceu-se o programa “UNIMED Cidadã”, anteriormente desenvolvido pelo setor de marketing em conjunto com a “UNIMED Cultura”.

Segundo Marialcina – assistente social com pós-graduação em Marketing – “o objetivo da UNIMED Cidadã é formar pessoas capacitadas em valores éticos e humanos, a partir do público interno da UNIMED Piracicaba e de seus cooperados, através da disseminação de conhecimentos e da implantação de projetos sociais como forma de colaborar com a transformação da comunidade”.4

O público-alvo preferencial foram as crianças, na linha preventiva e educativa, além da assistencial. Nesse contexto, a UNIMED-Piracicaba obteve, em 2002, o selo “Empresa Amiga da Criança”, da Fundação Abrinq, além do selo “Empresa que Educa”, concedido pelo Senac, sendo, também, certificada pelo programa brasileiro de indicadores de qualidade em terapia intensiva, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira. No entanto, esse trabalho preferencial

não excluiu outros cuidados, incluindo-se os próprios funcionários, estimulados que foram para o exercício do voluntariado.

Entre as iniciativas do projeto, um deles se tornou como que a “menina dos olhos” da Cooperativa, o “Educando para o Amanhã”, ou “Luz do Amanhã”, que promove aulas de informática, arteterapia, coral para crianças carentes. Em 2002, havia, apenas no Bairro Bosque dos Lenheiros, o atendimento a 56 crianças na faixa etária de 12 a 14 anos.

E outros projetos, entre os já citados, se realizaram também em parceria com terceiros, como o “Projeto Capoeira na Periferia”, com o Rotary Club São Dimas; “Cidadão do Futuro”, idealizado pelo CRAMI (Centro Regional de Registros e Atenção aos Maus Tratos na Infância) e Associação Comercial e Industrial de Piracicaba; o “Formare”, curso profissionalizante para adolescentes,

de iniciativa da Delphi Automotive; “JP no Bairro”, com o “Jornal de Piracicaba”, ouvindo as carências da população; “Pequeno Cidadão”, em parceria com ESALQ, Caterpillar, Banco do Brasil e outros.

Em 2003, a UNIMED também reinaugurou, no Shopping Center Piracicaba, o Fraldário, com nova decoração para o ambiente de troca de roupas, sala de aquecimento, local para preparação de mamadeiras, enfermaria para primeiros socorros, além do quiosque que se constitui em mais um terminal de atendimento à população.

Desempenho

No ano 2000, o número de usuários era, no mês de dezembro, de 144.188, caindo para 135.567, em dezembro de 2001. E, apesar das dificuldades e crises, a prestação da diretoria presidida por Paulo Falanghe mostrou números significativos: ao início da gestão, em abril de 1997, a Cooperativa tinha uma dívida de R$1.626.597,00. E, menos de dois anos depois, em fevereiro de 1999, apresentava um superávit de R$165.054,00.

Ainda em 2002, inaugurou-se uma ala exclusiva para clientes UNIMED no Hospital e Maternidade Beneficente de Charqueada, com quatro leitos para atendimento aos moradores da cidade. Anteriormente, no ano 2000, fizeram-se investimentos numa ala da Santa Casa de São Pedro, inaugurando- se ali um novo tipo de atendimento. Desde 1998, fora incorporado, à

UNIMED-Piracicaba, o atendimento aos usuários do plano de saúde da Santa Casa de Cerquilho.

A criação da figura do ombudsman, cargo ocupado pelo médico Jacob Bergamin Filho, permitiu aperfeiçoar o controle de qualidade. Segundo Osmar Antônio Gaiotto Jr., do Departamento de Controle de Qualidade, entre os anos de 1997 e 2000, houve uma melhora de 80 a 90% no desempenho de todas as áreas — física, equipamentos, recursos humanos. Através de visitas e de auditorias, de pronunciamentos de usuários, constatou-se que, nos postos de atendimento, a melhora chegou de 90 a 95%.

Em 2001, Paulo Falanghe, com o apoio da diretoria, decidiu elaborar, pela primeira vez, um planejamento estratégico, visando a definição de metas para a Cooperativa nos próximos cinco anos. Criou-se, ainda, a Unicred, cooperativa de crédito dos médicos cooperados e demais profissionais na área de saúde. Mas a crise na economia brasileira repercutia, ainda outra vez, em todos os setores. Se caíra o número de usuários, as conseqüências não tardaram a se revelar: o déficit de caixa passara a ser de R$645.760,88, suplantados posteriormente.

Ao final de seu segundo mandato, Paulo Tadeu Falanghe poderia afirmar que a “visão moderna de cooperativa” estava implantada.

Notas

1 “Rumo ao ano 1998”, prestação de contas da Diretoria, pag.21.

2 Entrevista de Nelson de Castro Mendes a Patrícia Fuzetti Elias, 6/12/2002.

3 Entrevista a Patrícia Fuzeti Elias, em 20/12/2002. Preservou-se a identidade da entrevistada.

4 Idem

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