O sonho de Manoel Gomes Tróia (3)

A idéia da cooperativa

O sonho de uma cooperativa de médicos resulta da própria idéia do cooperativismo, grupos de pessoas unindo-se, voluntariamente, em torno de interesses e necessidades comuns, econômicos, culturais, sociais, etc. O cooperativismo nasce como reação à ação agressiva da empresa capitalista, numa forma de solidarismo explícito. O liberalismo econômico do século XIX estimula reações e sistemas de defesa social e econômica. Sindicatos de trabalhadores e grupos de pessoas ligam-se às cooperativas. O marco delas é a Sociedade de Rochdale, de trabalhadores num centro próximo a Manchester, Inglaterra, em 1844. A partir dali, estão semeadas as idéias que iriam desencadear um movimento mundial de cooperativismo e que continuam sendo base de sua estrutura: solidariedade, democracia, economia, liberdade, eqüidade, altruísmo e progresso social.1

As idéias de Manoel Gomes Tróia ecoam entre jovens médicos, mas alguma reação se manifesta junto aos mais conservadores. O surgimento, em 1967, da Clínica Amalfi – dos irmãos Matheus e Alarico Amalfi – encontra resistência por parte dos mais antigos, vinculados à Santa Casa de Misericórdia. Mas há uma nova geração despontando. E Manoel Gomes Tróia consegue, apesar do cepticismo de muitos, unir a classe em torno de idéias, de projetos que começam a ser ordenados a partir da Associação Paulista de Medicina, Regional de Piracicaba.

Levado à Presidência em 1966, Tróia assume em 1967, formando uma diretoria combativa, mesclada de médicos experientes e de jovens: Alcides Aldrovandi, Athaualpa de Mello Ferracciú, Luiz Gonzaga de Campos Toledo, Plínio Alves de Moraes, Legardeth Consolmagno, Sérgio Caruso, José Eduardo Mello Ayres, José Leny Jardim, Tito Gomes de Moraes, Eurotides Vendemiatti e Cláudio Mahn. Era o encontro, podia-se dizer, de representantes da “velha e da jovem guarda” piracicabana.

A grande bandeira de Manoel Gomes Tróia é desfraldada: a luta contra a política do INPS, que vinha substituir, por decisão dos militares, os institutos de previdência anteriores. O enfrentamento é agressivo. Entre desconfiada e admirada diante da ousadia do novo Presidente, a classe médica vê Manoel Gomes Tróia estabelecer a posição que, segundo ele, deveria ser adotada pelos profissionais da Medicina: “contra o estatismo asfixiante do INPS e contra o capitalismo selvagem da medicina de grupo”, mercantilista em seu entender.

Aquela década, a de 1960, assistia a mudanças abruptas. O surgimento da medicina de grupo foi uma delas. As primeiras iniciativas surgiram na região metropolitana de São Paulo – mais especificamente no chamado ABC paulista – com o desenvolvimento da indústria automobilística e do setor de autopeças. Os serviços públicos de saúde eram precários e a medicina liberal, muito cara. Alguns médicos se organizaram para atender a demanda crescente, passando a oferecer serviços em sistema de pré-pagamento àquela população de trabalhadores. O embrião desse sistema havia sido formado em 1956, quando um grupo de médicos desempregados uniu-se para dar assistência a funcionários de empresas em expansão.2 Em Piracicaba, naqueles anos, já funcionavam dois núcleos de Medicina de Grupo, a SAMEP (Sociedade de Assistência Médica de Piracicaba) e a SERVMED (Serviços Médicos). Contra ambas, Tróia dirigia a sua luta, sem poupar também o INPS: “o médico está no meio, sendo esmagado, os consultórios esvaziando-se.” E propunha a busca de um sistema em que “médicos e usuários fossem beneficiados”.

Piracicaba assiste ao embate, ainda preocupada com a sua própria realidade: o INPS, insuficiente e sem estrutura para atender uma população com grandes carências na área de saúde, e o surgimento de empresas para as quais predominavam interesses comerciais de medicina de grupo. Tróia insiste:

– “A socialização da Medicina é irreversível. A melhor alternativa contra INPS e medicina de grupo é o cooperativismo.”

Na realidade, médicos combatiam o mercantilismo na medicina de grupo mas não sabiam o que oferecer como alternativa, pois a idéia cooperativista ainda não se objetivara em proposta concreta e definida. É a luta em comum contra o INPS que acaba estabelecendo fortes vínculos entre Manoel Gomes Tróia e os sindicatos, ambos com uma visão solidarista de sociedade. Entre os funcionários municipais, a situação é ainda mais grave.

– “Quase 90% dos funcionários, os mais humildes, eram atendidos na Santa Casa como indigentes. Os 10% restantes, os efetivos, tinham respaldo da Caixa Beneficente e iam ao Centro de Saúde ou a médicos particulares.” – recorda- se Tróia, radiografando a época.3

E a situação se agravara quando o convênio da Caixa Beneficente dos servidores municipais com a Clínica Amalfi foi interrompido em virtude da reação contrária da Santa Casa, através do provedor Francisco Munhoz. Piracicaba continuava uma cidade com graves problemas na área da saúde. Não fosse a generosidade e o solidarismo de médicos como os doutores Lula, Samuel de Castro Neves, Antônio Cera Sobrinho, à época, os mais necessitados não teriam com quem se socorrer.

Foi diante dessa situação que Manoel Gomes Tróia procurou o dr. Lula com um plano para convencer o prefeito Luciano Guidotti que, por sua vez, via-se pressionado pelas reivindicações dos funcionários. Tratava-se da criação de um instituto de previdência para os servidores municipais.

– “Contei uma mentirinha para adoçar o Luciano”, relata Tróia, lembrando-se que inventara, para o Prefeito, ter sido procurado por médicos de Ribeirão Preto que elogiavam o interesse de Piracicaba pela criação de um instituto de previdência.

Luciano nem sabia daquilo, mas se entusiasmou e, acolhendo a idéia, convida os dois médicos, Tróia e Lula, para organizar e criar o IPASP. Pela portaria 184, de 6 de novembro de 1967, nascia o Instituto de Previdência dos Funcionários Municipais de Piracicaba. E, logo em seguida, se tornaria a primeira entidade a fazer convênio com a APM-Piracicaba para um contrato de atendimento médico hospitalar. Estando na Presidência, Manoel Gomes Tróia impunha a idéia pela qual lutava: a liberdade de opção, de livre escolha do médico.

Estava desenhada a grande luta: APM, sindicatos e funcionários municipais contestando o INPS e as empresas de medicina de grupo.

Semente da UNIMED

Como presidente da APM-Piracicaba, Manoel Gomes Tróia reúne sua diretoria para realizar, em Águas de São Pedro, o XVII Congresso da Associação Paulista de Medicina, de 5 a 8 de outubro de 1967. O acontecimento se revestiu de tal importância que, além da classe médica, conseguiu mobilizar toda Piracicaba. Sendo, também, o segundo congresso estadual dos médicos, a sua realização contou com a participação da Prefeitura Municipal, quando o Prefeito Luciano Guidotti liberou verba de cinco milhões de cruzeiros para o evento. (Na foto, mesa diretora do Congresso, com Manoel Tróia entre o secretário da Saúde de SP,prof.Walter Leser, e Luciano Guidotti.) A idéia, no entanto, era promover um congresso que fosse além de debates habituais. E Tróia propôs um painel que, então, causou estranheza à direção paulista da APM: “Condições sócio-econômicas, trabalho do médico, planos securitários na saúde.”

O objetivo era absorver, em mais detalhes, a experiência que se iniciara na cidade de Santos (SP). Na Baixada Santista, a grande luta em favor do cooperativismo estava sendo estimulada pelo médico Oswaldo Paulino, da Refinaria Arthur Bernardes. A mercantilização da medicina preocupava a classe médica santista de tal forma que o Prof. Alípio Correa Neto – então, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo – manteve contatos com o médico Edmundo Castilho a fim de discutir a nova experiência que se desenvolvia nos Estados Unidos: o cooperativismo médico. Entrementes, a Cosipa e a Petrobrás – tentando suprir as carências insuperáveis da assistência médica – tentaram implantar serviços médicos próprios, emitindo uma espécie de cheque que seria preenchido pelo médico escolhido pelo funcionário, para reembolso a posteriori. Não se obedecia, porém, a nenhuma tabela de honorários e havia burlas que levaram ao desmonte da experiência, substituída pela Fundação Cosipa, que celebrou convênio com uma empresa de medicina de grupo, significando a perda de cerca de 30 mil usuários aos médicos da região. A grita foi geral, o médico Oswaldo Paulino liderou a movimentação dentro da refinaria, a Cosipa desistiu do convênio e estavam abertasas portas para o surgimento da cooperativa dos médicos. 4

A experiência de Santos mostrava resultados altamente positivos tanto para os médicos – que passaram a receber por produção e não por salário – como para os usuários. No Congresso, o médico Pedro Kassab discorreu sobre “Sistema securitário para cobertura da assistência médica”, estando presentes, entre outros, também Oswaldo Paulino e o presidente Domingos Italo Levocci. O debate empolgou os participantes. A partir daquele congresso, os médicos de Santos sentiram-se ainda mais fortalecidos e, no dia 18 de dezembro de 1967, criaram a cooperativa médica pioneira do Brasil, a União dos Médicos – UNIMED-Santos, cujo primeiro presidente foi José Luiz Camargo Barbosa. Aquela iniciativa e a idéia da cooperativa se transformaram em ideal e obsessão de Manoel Gomes Tróia: criar a UNIMED-Piracicaba.

Foi um sonho que não o abandonou. E se tornou comum ouvir, entre médicos:

– “O Tróia é um visionário, um louco. Mas tem idéias.” (CONTINUA)

1 DUARTE, Cristina Maria Rabelais. Assistência médica suplementar no Brasil: história e características da cooperativa de trabalho médico UNIMED, in NEGRI, Barjas & outros. Brasil, Radiografia da Saúde. Campinas: Editora UNICAMP/Instituto de Economia, 2001.

2 SILVA, Alberto & outros. Liderança e motivação dentro da cooperativa médica (Trabalho apresentado para conclusão de curso de especialização em Gestão Empresarial.Site UNIMED, 2001.

3 Entrevista de Manoel Gomes Tróia ao autor, 16/09/2002.

4 SILVA, Alberto & outros, op.cit.

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