Os primeiros construtores de Piracicaba – (1)

As primeiras edificações a se destacarem, sobreviveram durante décadas. Hoje, poucos dos casarões que caracterizaram um tempo, em Piracicaba, ainda se encontram em pé. E poucos conhecem a história de seus arquitetos, os que elaboraram sua beleza, que viabilizaram projetos de infra-estrutura, os que definiram as tendências da cidade quando, de simples vila,O arquiteto Marcelo Cachini Piracicaba começou a se caracterizar como espaço de crescimento e progresso. Nomes como os irmãos Rebouças, mais conhecidos por sua luta contra abolição, ou de Antonio Francisco de Paula Souza que foi, inclusive, ministro do Exterior, assim como profissionais que assinaram projetos de residências como da família Alvares Penteado em São Paulo, ou do Colégio Culto a Ciência, em Campinas, estão entre aqueles que atuaram em Piracicaba ao final do século XIX e início do século XX.

Trabalho de fôlego, o também arquiteto Marcelo Cachioni, que vem se especializando na recuperação arquitetônica de prédios históricos – foi o autor do projeto de restauração do primeiro prédio do Colégio Piracicabano que, a partir de 2003 passou a acolher o Centro Cultural Martha Watts – apresentou, em sua dissertação de mestrado, justamente um apanhado dos principais artífices da beleza de um tempo. Os textos abaixo se baseiam na extensa pesquisa de Cachioni e nas escolhas por ele realizadas para apontar os arquitetos mais representativos até as primeiras décadas do século XIX.

Miguel Dutra, o primeiro arquiteto

Até que começassem a se conhecer as construções assinadas por Miguel Benício Archanjo A. Dutra, segundo Cachioni, as obras de maior relevância anteriores não tiveram seus autores identificados, como as três edificações da Igreja Matriz e a Casa da Câmara.

Miguel Dutra, o já conhecido e reconhecido artista daquele período, que Miguel Dutradeu início à geração dos Dutra, nasceu em Itu em 1810, transferiu-se para Piracicaba (então Constituição) em 1844 por motivos políticos e já convidado pela Câmara para se integrar à construção da Matriz de Santo Antonio. No ano seguinte, já atuava como entalhador dos altares e retábulos e, em 1858, foi nomeado diretor de obras da Nova Matriz. Foi também escultor, fabricava móveis, pintava.

Foi Miguel Dutra quem projetou e executou a primeira construção do Teatro Santo Estevão, a antiga Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte ( 1851), a primeira sede da Santa Casa de Misericórdia (1861), a capela do Passo do Senhor do Horto ( 1873), assim como a Igreja de São Benedito (1867), que não viu concluída antes de sua morte.

Guilherme Krug, já reconhecido em Campinas

Em 1879, para que se erguesse o novo edifício da Câmara, foi contratado o arquiteto George Krug. O prédio foi edificado no espaço onde se encontrava o antigo cemitério católico e foi reconhecido como um dos melhores da cidade. Tinha dois pavimentos, era pintado de amarelo; na parte térrea localizavam-se as celas para detentos e, no andar superior, o fórum com o tribunal do júri.

Guilherme (Wilheim) Krug nasceu em Cassel, Alemanha, em 1832 ouFachada e porta ogival da Capela do Senhor do Horto 1834. O avô fora marceneiro e o pai possuíra um fábrica de mosaicos de madeira, confeccionando artesanalmente assoalhos para os castelos daquela região. Formado na Universidade da Pensilvania, nos EUA, pertenceu a uma das primeiras famílias alemãs a se estabelecerem em Campinas, onde respondeu também pelos projetos dos prédios do Colégio Culto a Ciência (1873) e Colégio Internacional (1874). Em São Paulo, desenhou alguns dos primeiros edifício da Escola Mackenzie. A tradição familiar relacionada às artes permaneceu pelas gerações seguintes da família: um de seus filhos foi colaborador, como arquiteto e engenheiro, de Ramos de Azevedo e, entre seus netos, anos depois, estava a pintora Anita Malfatti.

Paula Souza e os irmãos Rebouças garantindo a chegada do trem

Referência no processo de desenvolvimento da cidade, a chegada da ferrovia aconteceu, em Piracicaba, através de um ramal ligando Jundiaí ao município através da Cia. Ituana, em 1877. Para tanto, estiveram diretamente envolvidos o engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza, um dos fundadores da Escola Politécnica de São Paulo, que respondeu pelo traçado do ramal, e os irmãos Rebouças, responsáveis pela construção da ponte sobre o rio Piracicaba e da estação.

Paula Souza era de Itu, nascido em 1843, de tradicional família de André Rebouças (óleo de Tulio Mugnaini, Museu Paulista, SP)políticos. Seu pai foi autor do primeiro projeto de extinção total da escravidão, ainda em 1865. Formado na Suíça e na Alemanha, o engenheiro se caracterizou pela trabalho de renovação da engenharia ferroviária brasileira. Projetou, entre outros estudos, a estrada de ferro que ligava Itu à Piracicaba. Foi ministro do Exterior no governo de Floriano Peixoto e primeiro diretor da Escola Politécnica, onde também foi criador dos cursos práticos do Gabinete de Resistência dos Materiais, embrião do Instituto de Pesquisa Tecnológica.

Quanto à construção da ponte sobre o Rio Piracicaba – fazendo a ligação da região central à Vila Rezende – um dos maiores empecilhos a implantação da ferrovia, seus trabalhos foram conduzidos por Antonio Pereira Rebouças, engenheiro militar, com especialização na França. Foi chefe da comissão de exploração da estrada de Curitiba a Guarapuava, projetou o cais da Alfândega no Rio de Janeiro, e, em 1871, inaugurou as obras da estrada de Mato Grosso, trabalhando ainda, na execução das obras da estrada de ferro entre Campinas e Rio Claro. Quando, pessoalmente, dirigia as obras e medições para a ponte sobre o Rio Piracicaba, contraiu malária, tendo falecido em Campinas, com apenas 34 anos. As obras foram concluídas por seu irmão, André Rebouças.

Já a segunda estação da Cia Ituana foi obra do engenheiro José PereiraPonte sobre o rio Piracicaba (Foto: Acervo Museu da Cia. Paulista) Rebouças, irmão de André e Antonio, que fiscalizou a abertura de uma picada da Estrada de Ferro Ituana para implantação do ramal de Piracicaba para a Vila de São Pedro. Mudou-se, mais tarde, para Piracicaba, onde implantou um escritório de consultoria e respondeu, com Saturnino de Brito, pelo projeto da rede de esgotos da cidade, em 1893. Em 1904 criou o Serviço de Abastecimento de Água de São Paulo.

 

 

 

Orlando Carneiro, criador de teatro, clube e hotel

Com o passar dos anos, a cidade também começou a se preocupar com os equipamentos Teatro S. Estevãode cultura e lazer. A Orlando Carneiro, um engenheiro mecânico eletricista, piracicabano formado na Escola Politécnica em 1919, coube a responsabilidade por vários destes projetos: segundo seu próprio currículo, dirigiu as obras do Teatro São José, do Clube Piracicabano, de cinco pavilhões da Santa Casa de Misericórdia, da reforma do Hotel Central, além de arruamentos e reforma de várias residências particulares.

Engenheiro da Prefeitura de Piracicaba entre 1921 e 1926, atuou também como professor da Escola de Comércio Cristóvão Colombo e da ESALQ. Em São Paulo, entre outras obras, construiu o Pavilhão de Máquinas da Metalúrgica Matarazzo.

O Clube Piracicabano, depois Clube Coronel Barbosa, originou-se no Palacete Barbosa, de propriedade do Coronel José Barbosa Ferraz, construído com recursos do próprio fazendeiro. Seu construtor foi Antonio Borja Medina, que também edificou o antigo Cine Broadway, na década de 1930. Somente depois de concluído o Palacete é que Coronel Barbosa deu início à construção do Teatro São José, em terreno vizinho. Inaugurado em 1927, o Teatro teve a pintura do teto assinada pelo artista paulistano Bruno Sercelli. Suas acomodações foram projetadas para 2 mil pessoas, contando com 1002 cadeiras na platéia, 40 camarotes, 36 frisas, 242 localidade de balcões numerados e 200 de anfiteatro.

Zanotta, Corso e Eckman, arte e beleza também no cemitério

Se arquitetos surgiam na cidade pensando na cultura e no lazer, também espaços como o cemitério da Saudade receberam o toque estético que permaneceria na cidade ao longo século.Carlos Eckman

Ao arquiteto Serafino Corso e ao construtor Carlos Zanotta coube a responsabilidade de assinarem o projeto do portal de entrada, com destaque aos anjos em relevo. O local transformou-se em cemitério público em 1872, tendo anteriormente servido de espaço para que os protestantes enterrassem seus mortos. A instalação do portal foi proposta em 1906 e pode ter sido inspirado no portal do cemitério de Gênova, construção de caráter monumental. O portão foi trazido da Alemanha e a epígrafe foi pintada pelo pintor Joca Adâmoli.

Zanotta era italiano, trabalhou como pedreiro e imigrou para o Brasil ainda jovem. Em Piracicaba, também foi responsável pela instalação do sistema de água encanada, em sociedade com João Frick. Serafino Corso, também italiano, era originário de Gênova. Zanotta foi quem reformou a fachada do Teatro Santo Estevão (1903), construiu a sede da Societá Italiana de Mutuo Sccorso (1905), a sede da Chácara Morato Cemitério, entrada principal(1906), reformou a Chácara Nazareth para a família Conceição.

Ao arquiteto Carlos Eckman coube o projeto do Mausoléu de Prudente de Moraes, edificado no Cemitério da Saudade e inaugurado em 1903, como tributo ao ex-presidente da República. Eckman nasceu na Suécia, em 1866, e trabalhou em vários países europeus. Em São Paulo, suas obras mais conhecidas são a Vila Penteado, da família Álvares Penteado, e as residências de Martinho da Silva Prado e Caio da Silva Prado, assim como da Escola de Comércio.

(continua)

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