A HISTÓRIA QUE EU SEI (102)

Administração atribulada
A partir dos entendimentos com a Caterpillar e após retomar dos Estados Unidos, o prefeito Adilson Benedicto Maluf passou por grande transformação no seu relacionamento com a cidade e, em especial, com a Câmara dos Vereadores. Se, antes, mostrara uma personalidade autoritária, a partir daquele período tomou-se autoridade quase que imperial, mesmo tendo minoria na Câmara Municipal eram 12 vereadores da Arena e 9 do MDB. No Governo de São Paulo, em 1975, estava Laudo Natel, o que representava força e prestígio para os “laudistas”, os últimos remanescentes do “guidotismo”. O Prefeito Adilson Maluf, no entanto, mesmo sendo do MDB, buscava infiltrar-se no governo estadual, criando grandes problemas: de um lado, com o MOB local – sob a liderança de João Pacheco e Chaves, e presidência de Francisco Antonio Coelho – e, de outro, com a ARENA, que se irritava com a falta de senso partidário do prefeito de Piracicaba. Além disso, Adilson Maluf permitia o surgimento de muitas suspeitas e comentários em relação à lisura de sua administração, pois ele criava situações nebulosas como, por exemplo, quando da construção da Avenida 31 de Março. (O próprio nome da Avenida causara mal estar: era um prefeito do MOB que fazia, de uma obra pública, homenagem ao dia oficial da eclosão do golpe militar, 31 de Março de 1964). Acusava-se Adilson Maluf de, com aquela avenida, ter-se beneficiado a si próprio, como também a amigos, que teriam terrenos ao longo da obra. Por outro lado, sendo proprietário de uma construtora, os adversários levantavam suspeitas sobre o comportamento ético do prefeito.

Prepotentemente, Adilson Benedicto Maluf acabou declarando, numa entrevista ao radialista Nadir Roberto, da Rádio Difusora, os números e valores de seus bens e propriedades. Em dois anos, declarava ele, o seu patrimônio saltava de Cr$ 351.288, 55 para Cr$ 12.077.738,07, com diversas e confessadas transações imobiliárias. O vereador José Alearde Corrêa entrava, então, com um requerimento visando a apurar “possível enriquecimento ilícito do Prefeito”, aprovado pela Câmara Municipal no dia 13 de Outubro de 1975. Formava-se a comissão sindicante, com os vereadores José Alcarde Corrêa (ARENA), Luiz Antonio Rolim (MOB) e Jairo Ribeiro de Mattos (ARENA). Ao mesmo tempo, o vereador Rubens Leite do Canto Braga (ARENA) apresentava um outro requerimento – também aprovado pela Câmara Municipal – o de nº 277/75, propondo apuração de irregularidades em relação aos terrenos onde se instalaria a White Martins. A comissão foi formada pelos vereadores Rubens Leite do Canto Braga, Antonio Mendes de Barros Filho (ARENA), sendo relator o vereador Frederico Alberto Blauw (MDB).

Era a primeira vez, na história política de Piracicaba, que a Câmara Municipal listava comissões de inquérito para apurar “crimes de responsabilidade” ou desmandos administrativos de um Prefeito Municipal. A cidade assistia, estarrecida, aos acontecimentos, todos eles repercutindo na imprensa e criando, para o Prefeito Adilson Benedicto Maluf, dificuldades cada vez maiores para administrar a cidade e levar à frente a sua confusa e difusa proposta administrativa. Em dado momento de toda aquela movimentação política, o Prefeito Adilson Maluf convidou-me a uma reunião em seu apartamento – então no Edifício Miori – à qual me fiz acompanhar do radialista Francisco Caldeira, então diretor da rádio “Voz Agrícola” de Piracicaba. Naquela noite, Adilson Maluf me propunha para ser eu, como jornalista, o portador de sua carta-renúncia ao cargo, maneira de dar fim às crises e às comissões de sindicância que movimentavam o Legislativo, a imprensa e a cidade. Não aceitei a proposta.

Na Câmara Municipal, estava a chamada “bancada cursilhista”, pessoas que haviam participado do Movimento de Cursilhos de Cristandade e que defendiam, em bloco, uma “ética cristã na política”. Eram eles: Antonio Mendes de Barros Filho, Antonio Messias Galdino, Benedito Fernandes Faganello, Eulógio Vieira Sobrinho, Jairo Ribeiro de Mattos, Waldir Martins Ferreira, Luiz Antonio Rolim, Milton Camargo, Newton da Silva, tanto na ARENA quanto no MDB. Na Presidência da Câmara, em 1975, estava o vereador arenista Antonio Messias Galdino, o primeiro representante da raça negra a ser eleito para o alto cargo.

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