A HISTÓRIA QUE EU SEI (115)

A primeira reação veio do vice-prefeito José Borghesi que, informado pelo caseiro da chácara sobre o que houvera ocorrido, imediatamente decidiu afastar-se da administração e romper com o Prefeito João Hernnann Neto. O escândalo da chácara foi, ainda por uns dias, abafado. Mas a notícia pública dos acontecimentos na rua Madre Cecília, naquela mesma época desencadeou outras revelações e já no dia 26 de Dezembro, logo após o Natal, os acontecimentos haviam-se tornado públicos, criando uma crise insustêntável junto ao Secretariado Municipal, prenúncio do fim da primeira fase – conturbada mas ainda profícua – da administração de João Hernnann Neto.

O vice-prefeito José Aparecido Borghesi – que era, também, chefe do gabinete do Prefeito – convocou alguns secretários e, em reunião no SEMAE, anunciou que ia demitir-se, historiando os acontecimentos que motivaram a sua decisão. Estavam presentes à reunião no SEMAE: Ricardo Bortolai, presidente da autarquia; Newman Ribeiro Simões, Secretário da Administração, e Antonio José Lázaro Aprilante, Secretário do Planejamento. Algum tempo depois, iriam para reunião João Basílio e Alceu Marozzi Righetto, das Finanças e da Ação Cultural, respectivamente. Deliberaram, diante da insatisfação geral, que teriam uma nova reunião à noite, quando compareceram, então, todos os secretários. A reunião do Secretariado se alongou até o início da madrugada e a decisão de todos era definitiva: abandonariam os cargos, considerando não haver mais qualquer possibilidade de administrarem a cidade diante da indignação que se avolumava por causa dos acontecimentos propriamente ditos. Foi, porém, o próprio Prefeito João Hernnann Neto quem apontou outra solução: ele, prefeito, afastar-se-ia e os secretários permaneceriam nos cargos. Admitindo a culpa e a responsabilidaade – além de alegar problemas pessoais, familiares, financeiros e empresariais – João Hernnann Neto acabou concordando em que deveria afastar-se do cargo, assinando seu pedido de afastamento por 182 dias, de forma que se permitisse ao vice-prefeito José Borghesi e ao seu secretariado tentar recuperar a imagem da administração.

Enviado o pedido à Câmara Municipal, eis que acontece a grande surpresa que, mais tarde, se revelaria ter sido total falta de habilidade política da ARENA, que era majoritária no Legislativo: os vereadores arenistas recusaram, surpreendentemente, o pedido de licença do Prefeito, alegando que, ao invés de licenciar-se, os fatos teriam que ser apurados e, então, cassado o mandato do prefeito João Hernnann Neto. Foi na sessão extraordinária da Câmara, no dia 30 de Dezembro de 1978.

A inabilidade dos vereadores da ARENA permitiu a sobrevida do Prefeito João Hemnann Neto, embora as suas dificuldades tivessem aumentado, pois o seu secretariado mantinha-se inflexível: nenhum deles permaneceria no cargo. Foi, então, que o próprio João Hemnann Neto fez uma outra proposta: ficaria afastado por 30 dias, passando a administração para o vice-prefeito José Borghesi e, de 15 em 15 dias, apareceria na Prefeitura para despachar, alegando tratamento e operação dos meniscos. Ao mesmo tempo, o prefeito João Hemnann Neto montava um esquema de novo entendimento com os vereadores, propondo uma “lista” de serviços públicos que passariam a ser feitos mediante pedido e solicitação dos mesmos. No dia 4 de Janeiro, porém, tudo o que o prefeito João Herrmann Neto havia proposto ao seu secretariado não tinha mais valor, tomando ele decisões como se nada houvesse acontecido. Naquele dia, todos os secretários se demitiram, com exceção do padre José Maria Teixeira, da Educação; de Francisco Núncio Cerignoni, da Promoção Social e Florivaldo Coelho Prates, das Finanças.

No dia 12 de Fevereiro de 1979, o vereador Antonio Fernandes Faganello apresentava, à Câmara Municipal, um requerimento em que propunha a constituição de uma Comissão Especial para apurar os fatos. A Comissão foi aprovada, (processo 54/ 79) ouviu testemunhas e participantes dos acontecimentos. Tudo era confirmado: o escândalo de Cosmópolis, os escândalos na rua Madre Cecília e na chácara do empresário, os atos arbitrários do Prefeito. Os depoimentos vazaram para a imprensa local, publicados pelo “O Diário” (“O Mar de Lama”) e “Jornal de Piracicaba” (“Páginas Negras da História de Piracicaba”).

O relatório final da Comissão de Sindicância – composta pelos vereadores Antonio Femandes Faganello (MDB), Antonio Messias Galdino (ARENA) e Braz Rosilho (MDB) – concluía que o Prefeito João Hemnann Neto “agira de fonua indecorosa, indigna e desrespeitosa para com o cargo que ocupa”. O processo legislativo para declarar o seu impedimento foi formado logo em seguida. No entanto, em meio ao processo, surgiu um fato novo: João Herrmann Neto era denunciado por ter-se afastado do cargo, por prazo maior do que o permitido pela legislação, sem autorização da Câmara. Foi, então, pedida, na Câmara Municipal, a cassação do seu mandato. João Hemnann Neto estava no Espírito Santo. Desta feita, a Câmara Municipal cassou-lhe o mandato, tendo o vice-prefeito, José Aparecido Borghesi, imediatamente assumido o cargo. Ficou apenas 24 horas, pois, ingressando com mandado de segurança na Justiça, João Hemnann Neto conseguia a liminar, retomava do Espírito Santo e reassumia as funções. Quando, finalmente, os vereadores votaram pela cassação de seu mandato concluindo o processo iniciado com a Comissão de Sindicância sobre os escândalos anteriores, a maioria decidira a favor de seu afastamento, mas não se chegava aos dois terços necessários e, ainda outra vez, João Herrmann livrava a própria pele. De todas as lutas políticas e jurídicas do Prefeito Herrmann Neto, um nome se destacou e passou a impor respeito: o do advogado Carlos Mihichi Bueno, que se tomou conhecido como “Caxixo”.

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