A HISTÓRIA QUE EU SEI (117)

O papel da UNIMEP
Cultivando as sementes lançadas pelo Reverendo Crysantho César em 1964, Richard Senn implantou a Universidade Metodista em Piracicaba, usando de pragmatismo e de uma inegável capacidade administrativa, cultivando estreita relação com as elites e os poderes públicos piracicabanos. Ao final de 1977, porém, iniciaram-se as contestações ao perfil que Richard Senn delineava para a Universidade Metodista, acusações que enfatizavam a preocupação do Reitor quanto ao desenvolvimento físico da universidade em detrimento da qualidade do ensino, seus métodos tidos como ditatoriais e mercantilistas. Durante o XII Concílio Geral da Igreja Metodista, em 1978, um boletim da ADUNIMEP, associação dos docentes da universidade, detonou a crise, com críticas severas à administração do Reitor. Em Julho, o vice-Reitor, Elias Boaventura, renunciava ao cargo, aumentando as tensões da Universidade. De princípio, Elias Boaventura deixara circular a versão de que afastava-se para atender a convite para o comando do Instituto Benneu, no Rio de Janeiro, chegando a assumí-Io. Mas, em declaração à imprensa – especialmente ao jornal “O Diário”, que passou a ser’ porta-voz da crise na Universidade – revelou que se demitia por discordar da orientação que se vinha dando à UNIMEP. A crise adquiriu contornos definitivos: professores, diretores de centro, alunos, manifestavam-se contra a saída de Elias Boaventura, dificultando ainda mais a posição de Richard Senn que acabou renunciando ao cargo. No entanto, o Conselho Diretor, tentando superar a crise, não aceitou a renúncia nem de Richard Senn nem a de Elias Boaventura. Desentendimentos, greves, pressões, longas reuniões, manifestos, um clima de divergências totais passaram a tumultuar o dia-a-dia da Universidade, que se manteve paralisada até que, finalmente, o Conselho Diretor comunicou – na madrugada do dia IS de Agosto – a deposição do Reitor Richard Senn e a imediata condução ao cargo do vice-Reitor Elias Boaventura que, logo mais, seria indicado para um mandato de quatro anos, tendo como vice-Reitor Almir de Souza Maia.

A partir daí, deu-se a guinada da UNIMEP em direção a uma abertura que viria a influir decisivamente nos destinos políticos de Piracicaba. Elias Boaventura – embora tendo-se declarado um Liberal – passava a manifestar tendências e simpatias socializantes, um “esquerdismo ingênuo”. 60 A UNIMEP abria-se aos problemas da comunidade piracicabana, os seus projetos coincidindo com os que vinham sendo desenvolvidos, na área social e política, pelo Prefeito João Herrmann Neto. Na própria área esportiva, iniciava-se uma nova fase: em 1978, UNIMEP e Prefeitura uniam-se, criando-se a Associação Desportiva (A.D.UNIMEP) com ênfase a diversos esportes, embrião do grande time de basquetebol que, substituindo o E.C.XV de Novembro, veria a chegada da estrela Paula em Piracicaba, em 1980.

Em 1979, quando o Presidente Geisel revogou os decretos que coibiam os atos políticos nas universidades, a UNIMEP assumia papel de destaque junto à intelectualidade nacional e também em apoio aos movimentos populares. A anistia era uma reivindicação maciça da opinião pública. Exilados retomavam ao Brasil, como Leonel Brizola, Miguel Arraes, Fernando Gabeira. Com o Presidente Figueiredo, abriam-se espaços para reivindicações políticas e sociais. Extinguiam-se ARENA e MDB, formando-se novos partidos, como o PMDB, PDS, PDT e PT. Nesse clima e cada vez mais próxima do Prefeito João Herrmann Neto, a UNIMEP, sob a orientação de Elias Boaventura, estimulava e participava de movimentos reivindicatórios. O Reitor Elias Boaventura dera, ao início de seu mandato, a tônica da abertura da UNIMEP aos movimentos populares. A periferia era o alvo. O Projeto Periferia – de educação, servindo-se de um núcleo de pré-escolas – iniciava-se pelo Bairro Matão. Viriam estímulos e apoios ao Movimento Negro, ao Comitê dos Direitos Humanos, ao Movimento pela Anistia, a Movimentos Feministas, além de assistência jurídica às pessoas carentes e o projeto de Pronto Atendimento para a Comunidade. A imprensa nacional acolheu, com espanto, as declarações do Coronel Dickson Grael que, em palestra na UNIMEP, fazia publicamente, pela primeira vez, graves declarações sobre o atentado no Riocentro, episódio que levara o General Golbery do Couto Silva – um dos ideólogos da abertura democrática – a se afastar do governo de João Batista de Figueiredo.

• Continua

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