A HISTÓRIA QUE EU SEI (126)

Festa eleitoral
Com o retomo às eleições diretas para Governadores de Estado, 1982 foi um ano de autêntica festa eleitoral, em todos os níveis, com exceção para a escolha do Presidente da República. João Herrmann Neto soubera articular a sua candidatura a deputado federal pelo PMDB, cercando-se de três candidatos à deputação estadual: José Carlos Couto (“Taquara”), um de seus assessores, Gustavo Jacques Dias Alvim e o radialista Ari Pedroso. Pelo PDS, candidatava-se novamente Jairo Mattos a deputado estadual, carregando o rótulo de “malufista” (Paulo Maluf). O PMDB teria, ainda, a candidatura a deputado federal de João Pacheco e Chaves, que se inscrevia, sempre, pelo Diretório de São Paulo.

Em relação à Prefeitura Municipal, a composição de forças não dava margem a que se duvidasse da vitoria do PMDB, ainda que este partido já começasse a revelar fraturas que haveriam de dividí-Io para sempre. Ocorrera que João Herrmann Neto pretendia – ainda sob o sistema de sublegendas que um dos candidatos a prefeito fosse o seu antigo colaborador e ex-secretário Newman Ribeiro Simães. Dentro do PMDB, no entanto, o objetivo de Francisco Antonio Coelho, o presidente, era o de favorecer, ao máximo possível, a candidatura de Pacheco e Chaves, e, por outro lado portanto, prejudicar a de João Herrmann Neto.

A luta pelo poder, dentro do PMDB, foi das mais virulentas, eivada de processos e de apelos à Justiça Eleitoral. Francisco Antonio Coelho alegava que as fichas de inscrição no partido tinham-se perdido, vindo-se, depois, a saber que ele próprio conseguira um Boletim de Ocorrência junto ao Corpo de Bombeiros, para comprovar que houvera inundação em seu escritório e, com isso, as fichas de inscrição tinham sido danificadas. Era a maneira de, apenas com os inscritos pelo seu grupo, manter o controle da maioria dentro do partido.

Assim, Francisco Coelho e Adilson Maluf uniram forças dentro do partido e reservaram, para si mesmos, duas das três sublegendas, saindo ambos candidatos a prefeito, e recusando a vaga a Newman Simões, numa fase conturbada de impugnações e de divergências dentro do partido. A terceira sublegenda. pelo acordo nacional entre o extinto PP e o PMDB, ficou para a candidatura de Antonio Carlos de Mendes Thame, que tinha como candidato a vice-prefeito Francisco Salgot Castillon, que retomava às atividades políticas. Na realidade, tratava-se um erro estratégico, como se provaria depois, pois Salgot CastiIlon – tendo voltado diante do eleitorado como uma vítima da repressão – readquirira grande parte de seu antigo prestígio, e Thame era apenas um novato em política. Salgot Castillon, no entanto, alegou cansaço, o peso da idade, para justificar não ser ele próprio o candidato na cabeça da chapa. Enquanto isso, o PDS se apresentava antecipadamente derrotado: o eleitoralmente mais forte de seus políticos, o deputado Jairo Ribeiro de Mattos, negara-se a candidatar-se à Prefeitura. E o PDS, sem outras alternativas, apresentou-se com três candidatos’ Antonio Osvaldo Storel, que havia sido secretário municipal na primeira administração de Adilson Maluf; o ex prefeito Nélio Ferraz de Arruda, e o arquiteto João Chaddad, que fora Secretário de Obras Urbanas na administração do Prefeito Homero Paes de Athayde. E o PT, recém criado, lançava a candidatura de Renato Maluf, professor da UNIMEP.

A grande competição, em nível municipal, se deu dentro do próprio PMDB, entre as candidaturas de Adilson Benedicto Maluf e de Antonio Carlos Mendes Thame.

Naquele ano, após dezenas de processos baseados na Lei da Imprensa, fui condenado em dois deles a prisão domiciliar. Mesmo assim, assumi, com outros, o comando da campanha de Antonio Carlos de Mendes Thame, que me parecia a mais adequada a Piracicaba naquele momento político, pelo menos por se tratar de um político novo, sem vícios do passado e sem comprometimentos partidários. A candidatura de Antonio Carlos Thame parecia decolar, mas esbarrava em uma dificuldade: não chegava aos bairros, especialmente às áreas periféricas. E, nestas, havia um fenômeno eleitoral naquele momento, a candidatura popularíssima do radialista Ari de Camargo Pedroso, que recebeu quase 50 mil votos, sendo a maioria deles vinculados – pois havia vinculação de votos – ao nome de Adilson Benedicto Maluf.

O crescimento da candidatura de Antonio Carlos Thame fora tamanho que, ao se encerrar a votação, Adilson Maluf reconheceu e admitiu a derrota, tendo procurado, ainda naquela noite, entender-se politicamente com Thame, que se supunha ter sido o eleito. Tratava-se, todavia, apenas de suposição, pois, quando as urnas se abriram para a apuração, não havia margem a dúvidas: a maciça votação em Ari Pedroso carregava a votação para Adilson Maluf, que era favorecido, também, pela influência de Antonio Fernandes Faganello, seu companheiro de chapa, na zona rural.

João Herrmann Neto obteve quase 114 mil votos em todo o Estado, com uma votação consagradora em Piracicaba. João Pacheco e Chaves também se reelegia. O PMDB levava Ari Pedroso à Assembléia Legislativa. Adilson Maluf retomava à Prefeitura. Mas aumentava, definitivamente, o fosso de divergências entre ele e João Herrmann Neto, a tal ponto que Adilson Maluf não deixava por menos, declarando a quem pudesse ou quisesse ouvir: “Vou trazer a paz política para Piracicaba, enterrando a carreira de João Herrmann Neto.” E este replicava: “Com Adilson Maluf, Piracicaba terá a paz dos cemitérios.”

Renato Maluf, candidato do PT, obteria, em 1982, cerca de 5 mil votos. Tratava-se, sem que muitos o percebessem, da primeira e marcante presença do PT na política piracicabana, uma votação expressiva para a polarização e o radicalismo políticos daquele momento. Uma outra conclusão se impunha: a ARENA, pela sua nova face que era o PDS, estava definitivamente sepultada. O “conservadorismo” de Piracicaba desembocara dentro do próprio PMDB, no apoio, em especial, a Antonio Carlos de Mendes Thame e ao próprio Adilson Benedicto Maluf. Os votos dos bairros mais distantes e da população periférica tinham sido dados a João Herrmann Neto, em outra vitória do “populismo”, com um discurso voltado às classes sociais mais necessitadas, o “esquerdismo de João Herrmann Neto”.

O novo governador de São Paulo era André Franco Montoro.

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