A HISTÓRIA QUE EU SEI (II)

O organizador

José Vizioli tomou posse em 13 de fevereiro de 1941 e se afastou em 23 de julho de 1943. Em agosto, Getúlio declarava estado de guerra. Sem exercer liderança política, Vizioli tomou-se – talvez, até mesmo sem o querer – o responsável pela primeira mudança política de Piracicaba no século 20, o estranho invadindo um ninho consolidado. Nesse sentido, José Vizioli pode ser visto como o homem que abriu caminho para outras transformações ocorridas em Piracicaba nestes últimos 50 anos: a eleição de Luciano Guidotti, em 1955; a de João Hermmann Neto, em 1976; a de José Machado, em 1988. Foram candidaturas que, cada qual em seu momento, romperam e sepultaram estruturas personalistas até então consolidadas: Luciano Guidotti rompeu com o “coronelismo” estruturado em Luiz Dias Gonzaga e Samuel de Castro Neves; João Herrmann Neto, rompeu com o “udenismo populista”, personificado em Salgot Castillon; o PT e José Machado romperam com o “infantilismo de transição” que, por condições criadas pela ditadura militar a partir de 1964, permitiu o surgimento de Adilson Maluf e do próprio João Herrmann Neto.

Tudo leva a crer, no entanto, que José Vizioli não teve consciência da importância de ter sido o rompedor de uma estrutura aristocrática. Pois ele não quis ou não teve forças para exercer influência política, por temperamento e vocação ou por impotência.

Tornou-se apenas um organizador, homem da administração municipal, que não se deu conta de que, chegando à Prefeitura de um município dominado por conservadores, se tornava o agente de uma revolução política, de um fato novo profundamente perturbador.

E os tempos eram propícios, pois, a partir da industrialização do país e, em São Paulo, do “populismo” gerado por Adhemar de Barros, as mudanças eram como que explosivas.

Adhemar de Barros conseguia ser a síntese dessa nova classe emergente, a dos industriais e empresários descendentes de estrangeiros, que passavam a ocupar os espaços das tradicionais famílias “quatrocentonas”. O “populismo ademarista” ecoava justamente naqueles que, já tendo o poder econômico financeiro, eram discriminados por uma sociedade ruralista, como vinha sendo a sociedade brasileira. E isso explica que, em Piracicaba, José Vizioli tivesse obtido, espontaneamente, o apoio de homens poderosos com Mário Dedini e Pedro Morganti.

Foi José Vizioli quem construiu o “Campo de Aviação” conseguindo que Pedro Morganti cedesse, ao município, os 12 alqueires onde está localizado o Aeroporto de Piracicaba. E, quando criou o primeiro Parque Infantil de Piracicaba – no antigo “Jardim da Ponte”, próximo ao Hotel Beira Rio – foi Mário Dedini quem apoiou, financeiramente, a Prefeitura. E, para construir o hangar do “Campo de Aviação”, José Vizioli fez uma permuta com a “Empresa Electrica”, que era estrangeira: ele a havia multado, por considerar que eram deficientes os serviços prestados à população, mas cancelou a multa pelo compromisso – assumido e realizado – de a Empresa Eléctrica construir o hangar. E assim aconteceu. Organizador, José Vizioli fez a terraplenagem do Engenho Central, disciplinou a venda dos “boxes” do Mercado Municipal, criou o tratamento de esgoto na Rua do Porto, organizou o cadastro da Prefeitura, criou o sistema de numeração das residências e edifícios por metragem da frente.

A maior crise, talvez, de sua administração foi quando determinou que se cortassem árvores da praça principal.

Os opositores rebelaram-se, orquestrados, especialmente, por Luiz Dias Gonzaga e por um professor altamente influente da Escola Normal, o prof. Antonello (Antonio de Morais Sampaio). A oposição conseguiu até com que o jornal “O Estado de São Paulo” enviasse repórteres a Piracicaba, para apurar o corte das árvores. Mas José Vizioli conseguiu provar – com um parecer de um respeitado professor da Escola Agrícola, prof. Saccá – que as árvores estavam doentes.

Duro, de poucos amigos, tido como pretensioso – o fato de conhecer e falar o Inglês incomodava a Piracicaba da época – José Vizioli criou inimizades. Tomou-se por assim dizer clássico o bilhete que ele mandou ao Juiz de Direito Pinheiro Machado, que insistia para que fosse cortada uma árvore que, crescendo à frente de sua casa, fazia sombra. O Juiz Pinheiro Machado insistia no corte da árvore, José Vizioli resistia. Então, Vizioli enviou sua decisão ao Juiz: “Seja mais Pinheiro e menos Machado.”

Finalmente, para se avaliar a preocupação organizadora de José Vizioli, há que se registrar uma providência que adotou e que se transformou numa tradição: a coleta de esmolas, à porta dos Cemitérios, no “Dia de Finados”. Aconteceu que pessoas pobres, incluindo as de outras cidades da vizinhança de Piracicaba, começaram a ocupar as ruas incomodando e constrangendo a população. José Vizioli organizou um sistema de coleta de esmolas: as instituições de caridade, no “Dia de Finados”, ficariam à porta do Cemitério da Saudade – então, o único do município – e coletariam os donativos da população para distribuí-los aos necessitados.

José Vizioli deixou a Prefeitura no dia 23 de julho de 1943. Sua atividade política, ao depois, limitou-se à organização do PSD (Partido Social Democrático) em Piracicaba, ao qual se agregaram os seus mais próximos colaboradores e que, alguns anos depois, apoiariam a candidatura de Luciano Guidotti e participariam de seu governo.

Sucedendo a José Vizioli, foi nomeado, tomando posse no dia 17 de agosto de 1943, Jorge Pacheco e Chaves, o “doutor Jorge”. Uma curiosidade: no dia de sua posse, Jorge Pacheco e Chaves estava com cachumba …

*CONTINUA

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