A HISTÓRIA QUE EU SEI (III)

O homem civilizado
Jorge Pacheco e Chaves, o “doutor Jorge”, assumiu a Prefeitura de Piracicaba no dia 17 de agosto de 1943, quando, dados os rumos da Guerra Mundial, a efervescência político- ideológica, em Piracicaba, era das mais intensas. No palco da guerra, a Itália se havia rendido logo após a renúncia forçada de Benito Mussolini. A antipatia pelos descendentes de italianos, alemães e japoneses era crescente e preconceituosa. Mesmo assim, porém, a chamada “colônia italiana” de Piracicaba era a mais próspera.

A guerra e os esforços de industrialização do país geravam fortunas, aumentando outras. Desde o ano anterior, a nova moeda brasileira era o cruzeiro, substituindo os “réis”, “mil-réis”, “conto de réis”, para desagrado da maioria da população que permaneceu longo tempo negociando com a nomenclatura anterior da moeda. Os Estados Unidos, completando os empréstimos com que buscavam o apoio de Getúlio Vargas, liberaram mais 45 milhões de dólares para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda.

A cidade de São Paulo se transformava no maior parque industrial da América Latina, ultrapassando as 50 mil fábricas cadastradas e beirando 1, 5 milhão de habitantes. No governo de São Paulo, estava Fernando Costa, formado agrônomo pela Escola Agrícola de Piracicaba, com parentes também na cidade. Stefan Zweig, que havia escrito o livro “O País do Futuro”, entoando loas ao Brasil, tinha-se suicidado, no final do ano anterior, em Petrópolis, onde morava.

Ler “Seleções do Reader’s Digest” – que cultivava o estilo de vida norte-americano – tornara-se como que uma obrigação cultural. Alvarenga e Ranchinho eram os grandes sucessos das emissoras de rádio, ao lado de Chico Alves, Linda e Dircinha Batista, iniciando-se, também, a rivalidade – estimulada pelas emissoras – entre Emilinha Borba e Marlene, em busca do cetro de “Rainha do Rádio”.

Era, na realidade, o rádio, o grande veículo de comunicação. Em Piracicaba, a PRD-6 – atual Difusora, fundada em 1933 – tinha João Sampaio Góes como proprietário mas a grande atração era o prof. Nélio Ferraz de Arruda, seu diretor artístico, que viria a ser prefeito de Piracicaba muitos anos depois. ”Nhô Juquinha” (Altino de Oliveira), “Cobrinha” (Angelo Cobra) e a dupla liderada por Miguel Coimbra, “Miguelzinho e Canhoto”, eram as figuras queridas e populares do rádio piracicabano.

E, nas esquinas e bancos de jardins, conversava-se sobre as virtudes tidas como incomparáveis do centro-avante Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, o “Homem de Borracha”, ao lado das grandes vitórias de Chico Landi, o grande automobilista brasileiro. No Rio de Janeiro, os cassinos estavam no auge e promoviam grandes festas e eventos, ao som da orquestra de Lecuona, que tocava conga e rumba. Nos clubes, nos salões, o país parecia uma festa permanente, aparecendo – sempre registradas pela revista “O Cruzeiro” – as personalidades mais representativas das elites brasileira: Jorginho Guinle, os Seabra, os Lage, a primeira dama Darcy Vargas e sua filha Alzira, a poetisa Adalgisa Néry. Em Petrópolis, construía-se o que viria a ser um dos mais requintados e imponentes hotéis e centro de diversões brasileiros, o “Quitandinha”.

Eram os chamados tempos “Modernistas”, onde nas artes destacavam- se Portinari, Bruno Giorgi, e, nas letras, Oswald e Mário de Andrade, Clarice Lispector, surgindo Drummond de Andrade, transformando-se Jorge Amado, “escritor comunista”, em mito. Os americanos estimulavam Walt Disney a fazer a política da “boa vizinhança”. E, assim, estava criado o “Zé Carioca”, que apareceria ao lado do Pato Donald, pela primeira vez, justamente em 1943, no filme “Saludos, Amigos”, assistido pela elite de Piracicaba no Cine Broadway e pelo povo no Cine São José.

Um requintado mosaico familiar
Foi nessa efervescência cultural e política que Jorge Pacheco e Chaves tomou posse como prefeito de Piracicaba, em agosto de 1943. Polido, culto, requintado, de maneiras elegantes – “Dr. Punho de Rendas”, foi apelidado pela oposição – viajado – “minhas heranças eu as gasto viajando para a Europa”, costumava dizer – Jorge Pacheco e Chaves, casado com Jane Conceição, era a síntese de uma longa história de famílias poderosas e nobres que se haviam encontrado, somando as suas tradições e o seu passado: os Pacheco e Chaves propriamente ditos, os Conceição, os Prado, os Souza Queiroz, os Campeão, uma história onde se misturam figuras do Império, marqueses, barões, conselheiros e grandes vultos da República.

A genealogia dos Pacheco e Chaves é muito rica. Do ramo de Dona Jane, a história pode começar a ser contada a partir de Francisco Antonio de Souza – irmão do brigadeiro Luiz Antonio de Souza – que se casa com Isabel Ignácia da Conceição. Francisco e Isabel têm dois filhos, Francisco Inácio e Maria Inocência. Esta, Maria Inocência, se casa com Bernardo Campeão e ambos têm a filha Maria de Nazareth Conceição Campeão que se casa com o Conselheiro Costa Pinto, morrendo muito jovem e deixando duas filhas: Maria de Nazareth e Maria Catarina.

Depois de alguns anos de viuvez, o Conselheiro Costa Pinto casa-se, em segundas núpcias, com Maria Isabel de Souza Queiroz – que era viúva do Marquês de Monte Alegre – e que será a responsável pela educação de Maria Nazareth e Maria Catarina. Maria de Nazareth casa-se com o dr. João da Regina Conceição – filho do Barão de Serra Negra, Francisco José da Conceição – e se toma Maria de Nazareth Costa Pinto Conceição, tendo os filhos Edgard e Jane. Por seu lado, Maria Catarina vem a se casar com o Conselheiro Antônio da Silva Prado, cuja irmã Anésia se casa com Elias Antonio Pacheco e Chaves, que foi deputado, chefe de Polícia em São Paulo, vice-governador provincial e deputado pelo Império. Anésia e Elias Pacheco Chaves têm diversos filhos, entre eles Eduardo (Edu) Chaves – que se toma brilhante aviador brasileiro, rompedor de barreiras aéreas – e Jorge. Finalmente, Jorge Pacheco e Chaves se casa com Jane da Rocha Conceição, herdeira do Barão de Serra Negra.

Jorge Pacheco e Chaves e Jane Conceição se conheceram em São Paulo. Moraram e viveram na Avenida Rio Branco, no Palácio dos Campos Elíseos, construído por Elias Pacheco e Chaves – local que viria a tornar-se sede do Governo de São Paulo na Avenida Rio Branco. Além de suas atividades políticas, Elias Pacheco e Chaves fora o fundador de parte do Balneário do Guarujá, juntamente com o seu primo Pacheco Jordão. Além disso, com João Batista da Rocha Conceição, era um dos proprietários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Jorge e Jane passaram a residir em Piracicaba, na Chácara Nazareth, um patrimônio histórico cultural da família. O Conselheiro Antonio Prado tinha presidido o Partido Democrático em São Paulo e Jorge Pacheco e Chaves alinhava-se aos “democráticos”, em oposição aos “perrepistas”, muito embora se unissem os dois partidos quando da Revolução de 1932.

E é em 1932 que Jorge Pacheco e Chaves vem a conhecer e a tornar-se amigo pessoal do secretário particular de Getúlio Vargas e futuro criador da Fundação Getúlio Vargas, Simões Lopes, que viera a Piracicaba com a incumbência de acompanhar Manoel (Maneco) Vargas, filho de Getúlio, em seu ingresso na Escola Agrícola. Em 1943, foi Simões Lopes quem sugeriu o nome de Jorge Pacheco e Chaves para a Prefeitura de Piracicaba, sucedendo a José Vizioli, com o aval do Embaixador Macedo Soares. Em seus diários, publicados muitos anos após sua morte, Getúlio Vargas revelou suas relações íntimas e o amor que devotada a Aimée, mulher de Simões Lopes.

*CONTINUA

 

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