A HISTÓRIA QUE EU SEI (LVI)

As dificuldades de Luciano Guidotti, em sua segunda administração, foram muitas. Eram outros os tempos. Suas amizades anteriores – Carvalho Pinto, Jânio Quadros – que lhe rendiam grandes dividendos no Governo de São Paulo, estavam em baixa. O líder paulista, no panorama nacional, era de 1964 a 1967, Adhemar de Barros. E Adhemar falava pela voz de Domingos Aldrovandi e de Luiz Guidotti. E este, Luiz Guidotti, opunha-se ao próprio irmão, Luciano. Dessa forma, restava, para Luciano, apenas o apoio de Laudo Natel. Mas Laudo Natel era, pelo menos até ali, apenas o vice-governador.

Por outro lado, Piracicaba estava em crise. O Grupo Dedini começava a ter dificuldades. E a queda do COMURBA paralisava a construção civil, justamente numa época em que Piracicaba se destacava pela construção de edifícios verticais, uma iniciativa que Luciano Guidotti estimulara, construindo, ele próprio, diversos edifícios na cidade. A construção civil, em resumo, paralisava-se. As famílias piracicabanas recusavam-se a adquirir apartamentos, os empreiteiros não tinham mercado para ousar construí-los. O COMURBA transformava-se num fantasma de paralisação da própria economia piracicabana. E, também, num escândalo político: os Coury – especialmente Raul e Alberto – eram administradores da edificação. E Salgot Castillon era o engenheiro-responsável pela obra. Logo, em termos e em nível político, era Salgot Castillon o responsável pela queda do COMURBA, segundo os adversários.

Assim, além dos traumas sociais, individuais e familiares que a queda do COMURBA ocasionou, havia os econômicos e políticos. Discutiu-se muito mais sobre as causas da queda do que sobre os efeitos. As vítimas não eram mais tão importantes, importantes eram os responsáveis. O COMURBA – muito mais do que uma questão comunitária e de solidariedade – acabou transformando-se em questão política. Os “guidotistas” passaram a afirmar que Salgot Castillon, por ser o engenheiro-responsável da obra, era culpado. Os “salgosistas” defendiam-se e defendiam-se tanto que um dos porta-vozes da UDN, o advogado e jornalista Jacob Diehl Neto, chegou a escrever que a causa da queda do edifício teriam sido as rochas vulcânicas de Piracicaba que se movimentaram… Na realidade, nunca se deu uma explicação, à opinião pública, que justificasse a queda do COMURBA. Os processos demoraram muito tempo para julgamento e, assim, a memória do povo esfumaçou-se.

O fantasma do COMURBA, no entanto, pairou sobre a cidade durante anos. A derrubada dos escombros daquele edifício passou a ser como que uma paranóia da população. Dizia-se que, para jogar ao chão o que restara do monumental edifício, apenas o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), do Governo de São Paulo, seria capaz. Mas Luciano Guidotti, prefeito, e Adhemar de Barros, governador, incompatibilizavam-se. E os desentendimentos eram tantos que, quando o Governador Adhemar de Barros veio visitar o local da tragédia, Luciano Guidotti recusou-se a cumprimentá-lo. Ficaram os dois – Adhemar e Luciano – no mesmo local, mas não se encontraram.

A paranóia durou alguns anos, até o início a década de 70. Então, usando marretas, martelos, pessoal da Prefeitura, Lázaro (“Lazinho”) Capellari, que já tinha sido prefeito de São Pedro e que passara a ser secretário de Cassio Paschoal Padovani, após a morte de Luciano Guidotti – botou no chão os escombros do COMURBA, uma solução caipira mas eficiente… O golpe, porém, no desenvolvimento da construção civil já tinha sido irrecuperável.

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