A HISTÓRIA QUE EU SEI (LVIII)

Os novos partidos
Antes da extinção dos partidos, cinco vertentes mobilizavam os homens públicos e a classe política: o “ademarismo”, o “janismo”, o “carvalhismo”, o “juscelinismo”, o “lacerdismo”. Os adeptos de Carvalho Pinto, Jânio Quadros e Carlos Lacerda como que não conseguiam estabelecer a linha divisória da influência de seus líderes ou na preferência por eles. E apareciam os “laudistas”. Tratava-se, na realidade, de uma grande salada ideológica e partidária. E a classe política, com o advento dos militares, sabia que, teria que se acomodar para lutar por sua sobrevivência. Lembro-me, por exemplo, de uma explicação pessoal que me foi dada pelo ex-governador e senador Carvalho Pinto, quando lhe cobramos o fato de ter-se ele, decidido a ingressar na ARENA, convocando os seus admiradores, amigos e correligionários para fazer o mesmo. Carvalho Pinto explicava-se: “Os militares não haverão de entregar o poder. É preciso lutar contra eles dentro do governo.” A posição de Carvalho Pinto não era agradável aos militares, pois ele houvera sido, ainda que por pouco tempo, Ministro da Fazenda do governo de João Goulart.

Quando o AI-2 extinguiu os antigos partidos políticos, criando, artificialmente, a ARENA e o MDB, os velhos partidos estavam desgasta dos e, por sua vez, a instalação do bipartidarismo também pouco significava. Na realidade, tanto ARENA quanto MDB eram concessões do governo militar para aparentar a sua máscara democrática no Exterior. Criados pelo governo, os dois partidos tinham, apenas, a razão de mascarar as instituições e de abrigar os políticos, sem qualquer caráter inicial de situacionismo ou oposicionismo. Eram espaços onde os políticos se haveriam de acomodar, conforme a realidade dos Estados e dos municípios. Em Piracicaba, essa acomodação não se fez pacificamente, pois os conflitos políticos municipais eram intensos e as divergências entre as lideranças, muito grandes. Domingos José Aldrovandi, Luiz Guidotti, Nélio Ferraz de Arruda acomodaram-se, de imediato, na ARENA, partido que, em São Paulo, Adhemar de Barros escolhera para ser um de seus fundadores. O “guidotismo”, através de João Guidotti, abrigou-se também na ARENA. Salgot Castillon, não querendo conviver, no mesmo partido, com Aldrovandi e o “guidotismo”, fez sondagens para fundar o MDB em Piracicaba, mas Francisco Antonio Coelho, juntamente com João Pacheco e Chaves, já haviam se adiantado e organizavam o MDB e, com eles, a maioria do grupo “Iaudista” na Câmara Municipal. Entre ficar subordinado a Coelho e Pacheco e Chaves, e conviver com Aldrovandi e João Guidotti, Francisco Salgot Castillon optou pela última alternativa, ingressou na ARENA, fez a maioria do Diretório e tornou-se presidente do Partido em Piracicaba.

ARENA e MDB eram verdadeiras colchas de retalhos ideológicas. Nos dois partidos, passaram a conviver todas as tendências políticas, todos os conflitos locais, todas as afinidades e também todas as divergências. A ARENA era majoritária, com um grande número de adesões e de filiações. O MDB nascia pequeno, com dificuldades e, na verdade, se tornava muito mais o espaço político de Francisco Antonio Coelho, em Piracicaba, do que um partido organizado, mesmo porque João Pacheco e Chaves mantinha os seus vínculos com o MDB de São Paulo, pouco fazendo pelo partido em nível municipal. Por outro lado, os “guidotistas” estavam nos dois partidos, com representantes seus tanto na ARENA quanto no MDB, o que possibilitava, ao Prefeito Luciano Guidotti, maior facilidade de trânsito e de manobra junto ao que mais lhe interessava, ou seja, o apoio na Câmara Municipal.

As relações entre os políticos eram difíceis. Na ARENA, conviviam três lideranças conflitantes e adversárias entre si: Domingos José Aldrovandi, Salgot Castillon, João Guidotti, numa composição que haveria, em futuro muito próximo, de criar e gerar graves problemas políticos. E, no MDB, para se avaliar a situação, Francisco Coelho e Pacheco e Chaves nem sequer se conheciam quando fundaram o mesmo partido político, muito embora viessem a se tomar, depois, amigos íntimos. Eram peculiaridades locais que permitiam prever a impossibilidade de coexistência e até mesmo de um mínimo de coerência ideológica, como se fizesse parte, mesmo, dos destinos de Piracicaba ser uma cidade e um município politicamente atrelados sempre a pessoas, a lideranças individuais, sem compromisso partidário ou ideológico. Tanto assim que, na ARENA, começava a haver oposição e mal-estar entre muitos de seus membros em relação ao governo militar, ao passo que o MDB nascia como um partido governista, ligado ao “guidotismo” e a Laudo Natel, um situacionismo bem definido tanto em nível municipal como no estadual. E, logo em seguida, quando da cassação de Adhemar de Barros e a posse de Laudo Natel como governador de São Paulo, seria o MDB que, em Piracicaba, teria o controle da política estadual.

A colcha de retalhos era tanta que os líderes sindicalistas – como Jaime Cunha Caldeira, Celso de Camargo Sampaio, Newton da Silva e outros – acabaram inscrevendo-se na ARENA, ligados à liderança de Salgot Castillon. Enfim, uma colcha de retalhos, um simples espaço de acomodação partidária, eis o retrato mais fiel da ARENA e do MDB quando se instalaram em Piracicaba. E as peculiaridades seriam tantas que, na temporada de cassações de mandatos eletivos, o MDB se fez caçador, a caça estava na ARENA.

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