A HISTÓRIA QUE EU SEI (LXXI)

As primeiras ameaças
Logo após a diplomação de Salgot Castíllon como Prefeito, iniciavam-se os boatos de que ele não chegaria a tomar posse, o que deveria ocorrer no dia 1º de Fevereiro de 1969. Havia o fmal de Dezembro de 1969, o mês de Janeiro inteiro para que o resultado das eleições fosse respeitado, mas os “guidotistas” e o MDB de Francisco Antonio Coelho se articulavam, com idas e vindas ao 5º-G-CAN, de Campinas, onde o Coronel Cerqueira Lima manifestava grande antipatia contra o “salgosismo” e, em especial, contra o então deputado Francisco Salgot Castillon. Foi, então, que aconteceu o chamado golpe dentro do golpe, também conhecido, por outros, como a “revolução dentro da revolução”, a assinatura do Ato Institucional nº 5 (o Al-5) pela General Costa e Silva. Tratava-se de uma violência institucional inominável, pouco esperada até mesmo pelos mais experientes políticos brasileiros que, embora soubessem de que haveria medidas do governo militar diante das reações de insatisfação popular, não podiam prever que fossem elas tão violentas. Cassavam-se mais mandatos de políticos, fechava-se o Congresso Nacional, instaurava-se a censura à imprensa, rasgava-se, na verdade, a Constituição que estava vigindo desde 1967. A alegação dos militares era simplista e até mesmo simplória, de onde o estupor de tamanha violência: o Congresso Nacional não dera licença para processar o deputado Márcio Moreira Alves que havia pedido o boicote das comemorações das solenidades do Dia da Independência, em 7 de Setembro. Era o dia 13 de Dezembro de 1968, quando tudo mudou. Para pior. Um final de ano triste e de perplexidades, embora o empresariado brasileiro comemorasse um crescimento bruto de 11,2 % e um crescimento industrial de 13,3%. A dívida externa estava na ordem de 3, 8 bilhões de dólares. E Caetano Veloso e Gilberto Gil eram presos na Boate Sucata, no Rio de Janeiro.

Em Piracicaba, o jornal “O Diário” – onde estávamos, ainda uma geração tomada de idealismo e de uma coragem por assim dizer suicida, talvez até mesmo por ignorar a extensão dos acontecimento no país – seria o primeiro jornal brasileiro a protestar, de maneira concreta, contra o AI-5: todas as colunas de “O Diário” saíram com espaços em branco, antecipando, em muitos meses, o que viria a ser feito, depois, pelos jornais “O Estado de São Paulo” e “Jornal da Tarde” com os versos de Camões e as receitas culinárias nos espaços das matérias censuradas O G-CAN de Campinas recolheu os jornalistas, exigindo a censura prévia Recusamo-nos a fazê-la e a situação se complicou pois, para enfrentar os militares, havíamos proposto que, se era para haver censura, ela fosse definitivamente implantada, para o que indicamos o Delegado Joseph Cella, como censor. O Delegado recusou-se a fazê-Io e, então, as pressões continuaram aumentando, mais e mais. Havia um outro motivo: o Coronel Cerque ira Lima era “guidotista” convicto, devia favores a Luciano Guidotti, não suportava os que, como nós, haviam apoiado Salgot Castillon naquelas eleições. A facciosidade do Cel. Cerqueira Lima – , que, depois da instalação da Junta Militar, em 1969, se tomou general com atuação na Amazônia – era tamanha que, em sua sala no quartel, como eu mesmo constatei, havia uma fotografia de Luciano Guidotti… E tinha mais: Luciano Guidotti mandara pavimentar com asfalto toda a entrada do 5º G-Can, em Campinas.

Com a implantação do AI-5, os “guidotistas” saudavam, ostensivamente, o que tinham como certo: a posse de Salgot Castillon, cujo mandato de deputado não houvera sido cassado, seria impedida. O Tenente Alfredo Mansur, que respondia pelo Exército em Piracicaba, também não tinha dúvidas e afirmava para quem quisesse ouvi-ló: “Salgot Castillon não será empossado.”

1 comentário

  1. Dirceu Tarantini em 04/04/2014 às 11:51

    reagatar esses acontecimentos é muito importantepara que não vivenciou esta época,como se conduzia a politica,nota-se hoje que nada mudou,os que estão no poder continuam fazendo valer a sua condição de mandatarios e prevalece as suas conveniencias politicas,veja as manobras do pt em relação as cpi da petrobras, os projetos de censuras a imprensa,que não vingou e o descaso com a justiça no caso dos mensaleiros; como disia conceição da costa neves,deputa paulista na decada de 50,(muda-se as moscas mas o monte continua o mesmo)

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