A HISTÓRIA QUE EU SEI (LXXII)

O parto a fórceps
Eram tempos difíceis. Salgot Castillon já estava diplomado, mas havia, realmente, dúvidas se seria ou não empossado. O Estado de Direito havia acabado. O país estava nas mãos dos militares e de grupos que os apoiavam, os “guidotistas” e o MDB em Piracicaba. Salgot Castillon tentou manter a tranqüilidade, mas isso, também, era impossível, pois os comentários e as ameaças iam-se multiplicando. Certa vez, pouco antes do Natal, numa reunião social em São Paulo – da qual participou também João Pacheco e Chaves, então Secretário de Abastecimento em São Paulo – Salgot Castillon ouviu uma advertência do prefeito paulistano, Brigadeiro Faria Lima: “Cuidado com os militares …” E mais não disse. Nem precisava dizer. Instado pela ARENA de Piracicaba, Salgot Castillon foi conversar• com o Governador

Abreu Sodré, de quem era amigo pessoal. Então, a primeira surpresa: Abreu Sodré, diplomaticamente, tirou o corpo, não querendo envolver-se na questão, indicando a interferência de Herbert, Levy, outro amigo de Salgot. Ao saber dos boatos e comentários, o antigo líder udenista – que era conhecido por suas posições radicais de direita, um ultraconservador – Herbert Levy tranqüilizou Salgot: “O Coronel Cerqueira Lima e eu somos como irmãos. Quase todos os sábados, ele está em minha fazenda.

Nada irá acontecer, são picuinhas políticas do Interior”. Mas no dia 2 de Janeiro de 1969, foi Herbert Levy quem telefonou para Salgot Castlllon. “A situação é mais grave e séria do que parecia. Muna-se de todos os documentos possíveis e vá até o 52 G-CAN fazer a sua defesa. Já conversei com o Cerqueira Lima e marquei o encontro.”

Mas Salgot Castillon não sabia do que haveria de defender-se. Havia denúncias, isso era sabido, mas generalizadas. Algumas delas se referiam à auditoria que Luciano Guidotti fizera de sua administração anterior, em que denunciara irregularidades e envolvera Luiz Matiazo, denúncias que caíram por terra na Justiça. Eram episódios antigos, passados, mas poderiam ser relevantes. Salgot Castillon se fez acompanhar de Luiz Matiazo e foram, ambos, ao 5º G-CAN de Campinas, ao encontro do Coronel Cerqueira Lima e de um outro coronel ainda mais truculento e autoritário, Argus Lima. Este seria, em 1970, o Comandante do 6º Exército na Bahia, que ordenou a caça ao guerrilheiro Carlos Lamarca.

O dossiê era enorme: artigos de jornal, documentos, cartas, fotografias. Haviá fotos de Salgot Castillon caído nos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana, fotos de Salgot Castillon como coroinha na missa que, na Catedral, o Padre José Maria de Almeida mandara celebrar pelo estudante Edson Luís, assassinado no Rio. E havia uma carta, datada de 1964, em que o industrial Leopoldo Dedini denunciava Salgot Castillon como subversivo, agitador trabalhista e fomentador de greves. (Nos anos 70, Leopoldo Dedini haveria de se lamentar daquela carta, dizendo tê-la escrito em momento de raiva e de descontrole emocional.) Havia mais: a lista e a análise do anunciado Secretariado Municipal de Salgot Castillon, onde também constava o meu nome, indicado para assumir a Secretaria da Educação. Na realidade, houvera o convite, eu o aceitara e até já estava trabalhando, junto com técnicos e especialistas em Educação, para criarmos uma nova filosofia educacional para o município. Mas, sabendo de que minha indicação poderia ser mais um problema para a posse de Salgot Castillon, eu lhe remetera, através do vice-prefeito eleito Cássio Padovani, outra carta, em que afirmei ser apenas conjecturas a minha indicação. Era preciso driblar os militares. Na realidade, de 13 de Dezembro de 1968 em diante, a arte que mais se desenvolveu no país foi essa: a de driblar militares.

Quando Salgot Castillon deixou o 5º G-CAN, o comentário do Coronel Cerqueira Lima foi, ao mesmo tempo, dúbio e misterioso “Não suporto meias-mentiras…” A quem ele se referia, às mentiras dos “guidotistas” e do MDB, ou às mentiras da ARENA para chegar até o dia da posse e respeitar-se a vontade do eleitorado? Nunca ninguém soube. Havia, porém, uma afirmação sintomática do Coronel Argus Lima. Em Campinas. Orestes Quércia havia sido eleito pelo MDB. Indagado se isso seria um problema para os militares, o Coronel Argus respondeu: “O problema não está no MDB nem em Campinas. Está na ARENA e em Piracicaba”.

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