A HISTÓRIA QUE EU SEI (LXXIV)

O outro tempo de Salgot
Retomando a Prefeitura Municipal, Salgot Castillon teria muito pouco tempo para realizações administrativas. Seu mandato duraria apenas de 1º de Fevereiro a 16 de Outubro. E o município estava em ótimas condições financeiras, o que vinha ocorrendo desde 1964 quando, a partir do Governo Castello Branco, o fundo de participação dos municípios nas receitas federais passara a ser recolhido mensalmente pela Coletoria Federal. O dinheiro do contribuinte, devido ao município, sequer saía da cidade. Com isso e mais com o temor de sonegação que o movimento militar impusera à população, as receitas municipais eram generosas e fartas, uma das razões do sucesso de Luciano Guidotti que, além disso, havia feito uma anistia de impostos que permitira maiores recolhimentos aos cofres municipais. Essa anistia, aliás, criara grandes discussões na cidade, pois o jornalista Losso Neto e também Salgot Castillon haviam denunciado que Luciano Guidotti fora um dos principais beneficiários da própria anistia por ele mesmo promovida. Luciano processou-os criminalmente mas já na primeira audiência o assunto morreu, pois os advogados de Luciano se haviam retirado do Fórum antes de seu início.

Em sua segunda administração, Salgot Castillon criou as Secretarias Municipais, que não existiam anteriormente. Para a recém-instalada Secretaria da Educação, havíamos sugerido, a pedido de Salgot, o nome de um jovem político que despontava, Gustavo Jacques Dias Alvim, que chegou a aceitar a indicação, dependendo, porém, da autorização de Mário Dedini, de cujas empresas era assessor jurídico. Mário Dedini, porém, não quis abrir mão de seu concurso e, então e por sua vez, indicou o nome de Lázaro Pinto Sampaio – que estava afastado de suas funções anteriores na M. Dedini, para dirigir a Morlet – que se tornou, então, o primeiro Secretário Municipal de Finanças de Piracicaba. Lazaro Pinto Sampaio haveria de revelar-se peça importante para a administração publica, pois conseguia aliar a competência técnica à habilidade e sensibilidade políticas. Para a Secretaria da Educação, Salgot convidou então, o prof. Francisco Godoy, figura de destaque na educação piracicabana e paradigma de integridade pessoal e de bom senso.

Poucas obras Salgot Castillon teve oportunidade de realizar em sua segunda administração, pois o tempo foi pouco e as pressões políticas intensas, a ameaça permanente de ter o seu mandato e os direitos políticos cassados a qualquer momento pelos poderes que o AI-5 concedia aos governantes militares. Mesmo assim reconstruiu o grupo escolar Mello Moraes – que havia ruído pouco antes da morte de Luciano Guidotti – uma escola inteiramente construída pela própria Prefeitura, dando início a outros quatro, incluindo o “Jorge Coury”, que estavam no mesmo projeto de construções municipais. Com a Caixa Econômica Estadual, levantou um empréstimo através do qual seria possível viabilizar cerca de 300 mil metros de ruas asfaltadas.

A principal obra, no entanto, sem dúvida alguma, foi a criação e a instalação do Serviço Municipal de Água e Esgotos (SEMAE), uma iniciativa pioneira entre os municípios paulistas. Para presidir o SEMAE, Salgot Castillon convidou o engenheiro químico Paulo Geraldo Serra, um dos mais antigos funcionários da Prefeitura e profissional de reconhecida competência. Já havia preocupação crescente, em Piracicaba, quanto ao abastecimento e o tratamento de água, pois começava a tomar vulto, no governo de Abreu Sodré, o projeto que pretendia abastecer a cidade de São Paulo e toda aquela região metropolitana, o “Projeto Cantareira”. Houve tempo, ainda, para se concluir o primeiro núcleo habitacional de Piracicaba, o Jardim Esplanada, que fora iniciado na administração de Luciano Guidotti, e, também, o lançamento do Jardim Primavera, concluído por Cássio Paschoal Padovani.

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