A HISTÓRIA QUE EU SEI (LXXXIX)

A “força cursilhista”
A história não se escreve com hipóteses, com condicionais. Não podem ser levados em conta os “se”, “se isso tivesse acontecido, se tivesse ocorrido aquilo”.. Abro esse parêntese não apenas por eu ter sido protagonista de alguns acontecimentos, mas, também, para uma explicação definitiva a algumas cobranças que, a partir de 1970, me passaram a ser feitas, quando muitos me exigiram uma maior participação na disputa de cargos eleitorais. Não tenho e nunca tive vocação para a disputa por cargos, por candidaturas, muito embora a atividade política tenha sido parte substancial de toda a minha vida. Naquele ano de 1970, a ARENA lançou-me candidato a deputado federal, buscando preencher o vazio político deixado pela cassação de Salgot Castillon. O próprio Salgot e especialmente o Prefeito Cássio Padovani, além de Aldrovandi e a maioria do partido, insistiam em minha candidatura. Mantive-me reticente por algum tempo, relutando diante da proposta quer por motivos pessoais e profissionais, quer, também, pela certeza de não ser esta a minha vocação.

Em Julho de 1970, o Bispo Aníger Melilo me telefonou dizendo querer assistir, em minha casa, ao jogo Brasil x Tchecoslováquia, pela Copa do Mundo do México, a primeira vez em que um campeonato mundial era transmitido diretamente pela televisão. A amizade que tínhamos, Dom Aníger e eu, permitia-lhe tais contatos pessoais, e isso sempre me honrou. Percebi, porém, que D. Aníger tinha mais a dizer-me, não sendo apenas o jogo de futebol o motivo de sua visita. E assim foi: ele queria, na presença de meus familiares, insistir para que eu aceitasse a candidatura a deputado federal, expondo-me, também, motivos nacionais que levavam a Igreja Católica a participar mais efetivamente do processo eleitoral. Tratava-se, assim, de um duplo apelo que me era feito: da ARENA, o partido em que eu estava inscrito, e da Igreja Católica, à qual eu me convertera em 1967.

Em torno de minha candidatura, mostrou-se toda a força do Movimento de Cursilhos e, ao mesmo tempo, o prestígio ainda intato da liderança de Salgot Castillon, que me transferia sua influência, suas amizades, importantes lideranças de bairros, da periferia, da zona rural. Mesmo com os direitos políticos cassados, ele enfrentava a proibição de fazer política e ia, aos bairros, tentando transferir-me os votos de seus eleitores. Até que, em 1970, Salgot foi preso pelos militares. Ocorreria o primeiro aniversário da morte de Carlos Marighella e os militares decidiram prender todos os que fossem suspeitos de subversão. Salgot estava entre eles, em Piracicaba, um homem visado pela repressão. Outro era Hadir Maluf, por sua atuação como estudante alguns anos antes. Os militares levaram Salgol Castillon para o 5º G-C AN, com outros políticos da região. Por volta das 22 horas, ainda outra vez a firmeza e o bom senso do Coronel Rubens Resstel se fizeram presentes. Ao saber que Salgot Castillon estava preso, Rubens Resstel mandou soltá-Io, desculpando-se e tomando uma atitude que se tomaria um gesto de deferência ao ex-prefeito cassado: o coronel telefonou para Cássio Padovani solicitando que ele, pessoalmente, fosse, com a esposa de Salgot, dona Ladice, buscar o ex-prefeito em Campinas, pedindo desculpas a Piracicaba pelo grande equívoco cometido. Nessa noite, Rubens Resstel fez a referência aos poderes ilimitados do ex-ministro Gama e Silva …

Eu não tinha dinheiro nem recursos. Mais ainda: eu não sabia, como nunca soube, pedir votos. Mas havia um exército trabalhando por aquela candidatura, até mesmo em cidades onde eu nunca fora. Em São Pedro, Lázaro Capellari conseguia transferir-me toda a sua influência junto ao eleitorado, dando-me uma votação comovente. A força, porém, estava com os anônimos “cursilhistas”, que cerravam fileiras em tomo de uma candidatura com dedicação e entusiasmo emocionantes. O resultado foi uma votação que me assustou, algo que nunca pude prever ou imaginar. Rubens Leite do Canto Braga, também candidato a deputado, levou um susto e me chamou a atenção quando se abriram as umas de Rio das Pedras e, em uma delas, todos os votos me haviam sido dados, sem abstenções, votos nulos ou brancos. Malandragem de alguém. Nunca se soube.

Na redação de “O Diário”, o Padre José Maria de Almeida, um de nossos redatores, recebeu um telefonema da Rádio Tupi, quando as apurações iam adiantadas. O repórter Saulo Gomes queria saber quem era aquele desconhecido candidato a deputado federal por Piracicaba que já havia ultrapassado os 25 mil votos. Meu conflito interior começou aí, pois eu jamais tivera a ilusão de poder eleger-me. “O que e como fazer, se eu fosse eleito? E meus compromissos profissionais, minha família?” No fundo de mim, estava, na verdade, um sentimento que nunca me abandonou: não sei viver longe de Piracicaba.

No final das apurações – e faltaram poucos votos para me eleger – fui procurado por Lázaro Pinto Sampaio, Secretário de Finanças de Cássio Paschoal Padovani. Ele me disse, cobrando-me: “A partir desta votação, você tem dever de continuar na política; você passa a ser o candidato natural da ARENA para a Prefeitura de Piracicaba, em 1972.” Era uma responsabilidade que me lançavam sobre os ombros.

Fui cobrado, nos últimos anos, por não tê-Ia assumido, com os “se” que surgiram a partir das mudanças que, logo em seguida, aconteceriam na política piracicabana. Hipóteses não valem para a História, da mesma forma como me sinto em paz por não ter feito uma carreira política. Esta, a política, é para vocacionados. Eu não tenho essa vocação.

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