A HISTÓRIA QUE EU SEI (VI)

Em direção à democracia
Não se fale, no período de 1945 a 1947, em administração pública, mas em ebulição política, em reorganização jurídica, em construção partidária. Prefeito nomeado, sucedendo a Jorge Pacheco e Chaves, o “getulista” Bento Luiz Gonzaga Franco, o “dr. Bentinho”, chegava ao Executivo piracicabano. Adversário político de seu primo e líder político Luiz Dias Gonzaga, o “dr. Bentinho” era próximo a Samuel de Castro Neves. Na realidade, todos os três eram da velha linhagem do PRP da República Velha, mas separados e em campos opostos por divergências pessoais e locais. No fundo, tratava-se de conservadores, com estilos definidos de fazer política e de entender a administração pública. Mais ainda: pouco entendiam de administração pública, pois o verdadeiro administrador da cidade – na condução das finanças e dos negócios do cotidiano do Executivo – era um funcionário municipal, Frederico Ferraz Orsi, contador competente, profundo conhecedor da máquina administrativo-financeira, um orientador financeiro do próprio empresariado piracicabano, a quem prestava auxílio e fornecia informações.

No dia 15 de abril de 1945, quando o “dr. Bentinho” chegou à Prefeitura, o mundo e o Brasil eram outros. Os brasileiros, pela Força Expedicionária, haviam tomado Montese, na Itália, em duros e graves combates. E conquistariam, em seguida e no mesmo mês, Zocca, Marano, Vignola, Alessandria. Havia euforia no país, certeza indiscutível do final da guerra. No dia 30 de abril, Adolf Hítler e Eva Braun suicidam-se em Berlim. Em 2 de maio, as tropas russas do Marechal Zhukov conquistam Berlim. Dia 8 de maio é o Dia da Vitória na Europa e cessam todas as hostilidades da II Guerra Mundial. O cemitério de Pistóia, na Itália, abrigava os túmulos de 465 brasileiros que haviam tombado na guerra.

As eleições brasileiras já ganhavam as ruas, com as candidaturas de Eduardo Gomes e Eurico Gaspar Dutra e, alguns meses depois, do comunista Yedo Fiuza. Getúlio Vargas manobrava, dizendo pretender presidir as eleições e, ao mesmo tempo, estimulando o movimento “queremista” (“Queremos Getúlio; a Constituinte com Getúlio”) que fora deflagrado exatamente por sua maior vítima, o líder comunista Luiz Carlos Prestes. O Brasil dançava ao ritmo de fox-trots, boogie-woogies, o swing. Ari Barroso e Paulo Gracindo, então nomes famosos da radiofonia, voltavam dos Estados Unidos encantados e maravilhados com aquele país. E, pela primeira vez, Oscarito e Grande Otelo aparecem juntos no cinema – no filme “Não adianta chorar”, de Watson Macedo – formando uma dupla imbatível na chanchada brasileira. No dia 2 de Setembro – após ter sido alvejado pela bomba atômica em Hiroshima e Nagazáki – o Japão formaliza a sua rendição aos aliados.

Estavam criados novos partidos, com destaque para os de inspiração getulista, o PSD (Partido Social Democrático) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), ambos apoiando Eurico Gaspar Dutra, e a UDN (União Democrática Nacional), apoiando o Brigadeiro Eduardo Gomes. Em São Paulo, Adhemar de Barros cria o PRP (Partido Republicano Progressista) que se transformaria no PSP (Partido Social Progressista) algum tempo depois; um outro PRP (Partido de Representação Popular) é criado por Plínio Salgado; os comunistas de Luiz Carlos Prestes criam o PCB (Partido Comunista Brasileiro). E, na cidade de Campinas, nascia, em 7 de março de 1946, João Herrmann Neto.

Em Piracicaba, a situação não era muito clara. Os “ademaristas” se organizavam, tendo Ricardo Ferraz de Arruda Pinto – que fora prefeito nomeado por Adhemar de Barros de 1938 a 1940, antecedendo José Vizioli – como um de seus líderes, juntamente com Geraldo Pinto Toledo (nomeado Prefeito em 1947) e Geraldo Carvalhaes Bastos. A UDN tinha como líder Luiz Dias Gonzaga e como presidente mais em caráter de honra – Jorge Pacheco e Chaves. Os Irmãos Gallina, Antonio Cera Sobrinho, João Vendemiatti, o prof. Demóstenes Santos Corrêa, Lino Vitti fundavam o PRP de Plínio Salgado. Samuel de Castro Neves era o líder do PTB, juntamente com o fiscal do Imposto de Consumo Valentim Amaral, mais o contador Cássio Paschoal Padovani e o ferroviário, que viria a ser diversas vezes prefeito da vizinha cidade de São Pedro, Lázaro (Lazinho) Capellari. No PSD, ficavam o “dr. Bentinho”, José Vizioli, Belmudes de Toledo, Jorge Coury. Reestruturavam-se, assim, girando em órbita de lideranças pessoais, os grupos político-partidários de Piracicaba: os “gonzaguistas”, os “samuelistas”, os “ademaristas”, os “integralistas”. Os “socialistas” eram uma minoria. As legendas, apenas o instrumento legal para que os grupos se atomizassem.

A maioria daqueles políticos, porém, não tinha força eleitoral, ou seja, eram homens que não tinham votos. Quem os tinha eram Luiz Dias Gonzaga e Samuel de Castro Neves, “o coronel” e “o populista”, que, no entanto, haviam ficado longo tempo no ostracismo, afastados diretamente do poder pois, mesmo que sem mandato, sempre encontraram meios para influir. Samuel de Castro Neves, por exemplo, exercia grande influência sobre o “dr. Bentinho” e, também, sobre o político Eurico Jaime Guerra. Por sua vez, Luiz Dia Gonzaga – que o povo e os adversários chamavam de “Boi” – havia sido Prefeito por três vezes, escolhido pela Câmara Municipal: de 1930 a 1931, por um mês em 1932 e de 1936 a 1938, tendo conseguido, pois, criar toda uma estrutura pessoal de influência e de domínio, aliando essa força política à sua condição de poderoso fazendeiro e pecuarista. Já Samuel de Castro Neves – um farmacêutico generoso, de muito encanto pessoal e dedicado à população mais sofrida – havia sido vereador por diversas legislaturas, desde 1917 quando, pela primeira vez, ocupara uma cadeira na Câmara Municipal.

De um lado, um homem prático, pragmático, com grande ambição de poder: Luiz Dias Gonzaga. De outro, um filantropo – talvez, até mesmo, por suas convicções espíritas – para quem o poder era uma forma de auxiliar os mais necessitados: Samuel de Castro Neves. Ambos, no entanto, estiveram longo tempo sem mandato. Com o advento de Adhemar de Barros, Luiz Dias Gonzaga perdera muito de sua influência junto ao Governo de São Paulo. E Samuel de Castro Neves, afastado de “motu próprio”, amargurado por, ao pretender chegar à Prefeitura em eleição pela Câmara Municipal, ter sido preterido, pelos vereadores, em favor de Coriolano Ferraz do Amaral. Decepcionado, Samuel de Castro Neves procurou realizar um sonho pessoal e foi estudar Medicina no Rio de Janeiro.

As duas únicas vertentes políticas em Piracicaba, portanto, eram, naqueles anos, o “gonzaguismo” e o “samuelismo”. Com o surgimento de Adhemar de Barros, o alinhamento das duas facções era inevitável. Adhemar de Barros tinha sido “revolucionário de 1932”, mas aderira ao “getulismo”, tomando-se Interventor Federal em São Paulo. Luiz Dias Gonzaga também se posicionara contra Getúlio Vargas, sendo o responsável pela construção, em Piracicaba, do monumento em memória dos que tombaram na Revolução Constitucionalista em 1932.

Suas relações com Getúlio Vargas e Adhemar de Barros inexistiam. Daí, o ostracismo a que fora levado, período em que Adhemar de Barros designou, para a Prefeitura de Piracicaba, um antigo companheiro de trincheira, Ricardo Ferraz de Arruda Pinto, prefeito nomeado de 1938 a 1940, responsável pela criação da Biblioteca Municipal. Samuel de Castro Neves, criando o PTB, manteve-se próximo do “getulismo” e do “ademarismo”.

O “dr. Bentinho” viveu, na Prefeitura, esse momento de transição, aguçado pela rotatividade dos Interventores em São Paulo: Sebastião Nogueira de Lima, José Carlos de Macedo Soares, ambos após Fernando Costa. Assim, Bento Luiz Gonzaga Franco, o “dr. Bentinho”, ocupou a Prefeitura em dois períodos: de 15 de abril de 1945 a 18 de março de 1946 e de 31 de julho do mesmo ano até 10 de março de 1947. Atá a posse do primeiro prefeito eleito à luz da Constituição democrática, passam, eventualmente, pela Prefeitura os políticos nomeados: Antonio Martins Belmudes de Toledo (abril a junho de 1946), Frederico Ferraz Orsi e Oswaldo Machado Cardoso, Eurico Jaime Guerra (abril a dezembro de 1947) e Geraldo Pinto de Toledo, alguns dias no mês de dezembro de 1947.

As eleições municipais de 1947 viram, em Piracicaba, a disputa de três candidatos: Luiz Dias Gonzaga, pela coligação UDN-PRP; Lázaro Pinto Sampaio, pela coligação PSP-PTN-PTB, apoiado por Samuel de Castro Neves; o advogado Jorge Coury, pelo PSD e unindo-se a profissionais liberais de diversas áreas.

*CONTINUA

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