A HISTÓRIA QUE EU SEI (XCII)

O infarto e a crise
Desde que assumiu a Prefeitura, Cássio Paschoal Padovani impôs um ritmo acelerado de trabalho. Tenso, temperamental e, além de tudo, despreocupado com cuidados em relação à sua saúde, Cássio Padovani foi cometendo excessos sobre excessos. No final de 1970, já se queixava de problemas com a saúde, não alterando, todavia, o seu estilo de vida e o ritmo de trabalho que se impusera. A cidade comentava, entusiasmada, toda aquela profusão de obras, de atividades, do desempenho geral da máquina administrativa. Na Câmara Municipal, a oposição reagia fustigando a administração. Na Presidência do Legislativo, estava Rubens Braga, cujo relacionamento com Cássio Paschoal Padovani era desarmônico. Os vereadores da ARENA, porém, não estavam, pela maioria deles, satisfeitos com a maneira ríspida com que o Prefeito os tratava, um estilo personalista e objetivo de Cássio Padovani.

No dia 11 de Fevereiro de 1971, Cássio Padovani sofreu o primeiro infarto. Sentiu-se mal, demorou-se a se hospitalizar, teimando em ir até a Santa Casa de Misericórdia dirigindo ele próprio o automóvel. Piracicaba não tinha vice-prefeito, o que significava, novamente e em caso de ausência do titular, o Presidente da Câmara assumir a Chefia do Executivo. A teimosia de Cássio Padovani, no entanto, era sem limites e, mesmo infartado, decidiu que continuaria despachando de sua própria casa, negando-se a admitir a vacância do cargo. Na Prefeitura, quem respondia pelo expediente era o Secretário Lázaro Capellari e o oficial de gabinete Haldumont de Nobre Ferraz. A situação chegou a tal ponto e eram tantos os comentários entre a população e nos meios políticos que o Coronel Rubens Resstel, do 5º G-CAN, de Campinas, quis informar-se sobre as condições de governabilidade do município, onde as tensões aumentavam a partir da polêmica entre a Associação dos Engenheiros e o Secretário Lázaro Capellari. Os atritos iam-se tomando cada vez maiores, mesmo com a enfermidade do Prefeito Padovani.

Cássio Paschoal Padovani obteve, finalmente, alta, fornecida por seus médicos com a recomendação, porém, de que deveria diminuir o ritmo e evitar emoções mais fortes, o que era praticamente impossível dado o temperamento do Prefeito. Assim, ao longo de 1971, Cássio Padovani foi conduzindo a administração municipal, já freado, porém, em suas atividades. A situação se complicou nos meses de Novembro e Dezembro, quando o problema cardíaco se agravou. Houve insistência de amigos para que Cássio se afastasse do cargo para tratar da saúde, internar-se. Haveria, porém, para o próximo ano legislativo, a alteração na mesa diretora da Câmara Municipal. João Guidotti e alguns companheiros, incluindo vereadores, já haviam retomado à ARENA, aumentando os problemas políticos do Prefeito. Foi, então, que, convencendo-se de que deveria afastar-se devido à gravidade de seus problemas cardíacos, Cássio Paschoal Padovani impôs uma condição: somente se afastaria se pudesse ter, na Presidência da Câmara, um homem de sua confiança, no caso o vereador Guerino Trevizan. A imposição de Cássio causou mal-estar entre os vereadores, mas Domingos José Aldrovandi, diante da gravidade da situação, convenceu a maioria a atender o apelo de Cássio, mesmo porque Guerino Trevizan era homem respeitado por todos eles, admirado e com sua popularidade cada vez mais alta.

O grupo “guidotista”, sob o comando do próprio João Guidotti, já sabia que Cássio Padovani não tinha mais condições de saúde para continuar na Prefeitura e, assim, passou a articular-se para eleger o Presidente da Câmara de sua confiança, aquele que iria assumir a Prefeitura em caso de vacância do cargo de prefeito. A primeira tentativa de João Guidotti foi junto a Gustavo Jacques Dias Alvim que, no entanto, recusou a proposta, comprometido que estava com a candidatura de Guerino Trevizan. Tinha havido uma votação interna entre os vereadores da ARENA, sendo candidatos o próprio Gustavo Alvim, Guerino Trevizan e o vereador Milton Camargo. A maioria decidiu-se por Guerino Trevizan, inclusive com voto de Gustavo Alvim a favor deste. Formalizou-se, então, um documento de apoio àquela candidatura, o que satisfazia Cássio Padovani e lhe dava tranqüilidade para deixar o cargo e tratar da saúde. João Guidotti, porém, não desistiu, continuou aliciando os vereadores e, finalmente, conseguiu que Jaime Pereira, João Fidélis e também José Alcarde Corrêa rompessem o compromisso e votassem num obscuro vereador, Homero Paes de Athayde, que era dócil e atencioso em relação aos planos do “guidotismo”. Manobrando ARENA e MDB, já com a certeza de falar em nome de Laudo Natel, João Guidotti conseguia dar o primeiro grande passo para asfaltar a sua candidatura a Prefeito, num episódio que causou grandes indignações em Piracicaba, dadas a preocupações gerais que existiam em relação à saúde do Prefeito Cássio Padovani.

Com Homero Paes de Athayde na Presidência da Câmara, Cássio Paschoal Padovani recusou-se a deixar a Prefeitura para cuidar de sua saúde e fazer os exames e tratamentos que lhe haviam sido recomendados. Em sua última entrevista, no final de Fevereiro, falou, repetindo o que havia dito a seu médico, dr. Ben-Hur Carvalhes de Paiva: “Morro, mas não deixo o cargo. Prometi realizar algo e acredito que posso alcançar o meu objetivo nestes poucos meses que me restam.”

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