A HISTÓRIA QUE EU SEI (XLVI)

O RETORNO DO “GUIDOTISMO” E O GOLPE MILITAR
A candidatura de Luciano Guidotti, em 1963, era tida como uma conseqüência natural de sua administração anterior e do prestígio político que passou a adquirir. A sua base de apoio – que fora, antes, um fenômeno de polarização das forças piracicabanas – estava fragmentada. O poder revelara uma faceta personalista de Luciano Guidotti que não agradara à classe política. Em 1963, a sua base principal passou a ser a dos “laudistas” – agrupados no Partido Renovador (PR) – que eram formados por políticos ainda inexperientes na vida pública, mas também apoiados por conservadores já tarimbados como Lázaro Pinto Sampaio. Luciano Guidotti, no início da campanha política, teimava em não ter o apoio dos “ademaristas”, mas a experiência negativa de Alberto Coury, sendo hostil ao governador de São Paulo, lhe mostrava que seria difícil administrar sem ter boas relações com o governo paulista. Por outro lado, era um velho amigo de Luciano quem estava no comando da política “ademarista” em Piracicaba, o deputado Domingos José Aldrovandi que, com Luiz Ouidotti e Nélio Ferraz de Arruda, formavam a base de domínio e de sustentação locais do “ademarismo”. O PSP passou a apoiar Luciano Guidotti, lançando a candidatura de Nélio Ferraz de Arruda para vice prefeito.

O “salgosismo” definitivamente implantado dentro da UDN não tinha outro nome de projeção senão o do próprio Salgot Castillon. Assim, este acabou apoiando a candidatura de Bento Dias Gonzaga, muito mais por exclusão e por oposição ao “guidotismo”, do que por simpatia ou afinidade com o herdeiro do velho “gonzaguismo” Bento Dias Gonzaga, na realidade, vira diminuído o seu prestígio político após duas legislaturas como deputado. No ano anterior, 1962, deixara de concorrer à Assembléia Legislativa. Mesmo assim, procurava manter a sua popularidade, criar a sua base eleitoral. Nesse sentido, havia sido presidente do E.C.XV de Novembro, em 1960 e 1961, tendo procurado uma incursão como empresário na área de comunicações, ao adquirir a Revista Mirante. A sua popularidade estava em baixa e, numa bolsa de apostas, apenas os muito otimistas ou desconhecedores das tendências da opinião pública poderiam acreditar numa vitória de Bento Dias Gonzaga contra Luciano Guidotti. Mesmo assim, o deputado Salgot Castillon e a UDN saíram às ruas em seu apoio, na tentativa, que se revelou inútil, de transferência de prestígio eleitoral.

O golpe mortal na candidatura de Bento Dias Gonzaga foi dado pela “Folha de Piracicaba”. Naqueles anos, o meretrício era também um local de encontro. E, em Piracicaba, surgira uma competente exploradora do lenocínio, Ivone Mansur, a “Ruth”, que tinha trânsito fácil e até mesmo influência junto a algumas áreas políticas e policiais. O Jardim Brasil – já transformado em “Ripolândia”, por vingança de João Guidotti contra Romeu ltalo Rípoli – era, por assim dizer, um ponto de encontro de jornalistas, políticos, de boêmios. Durante a campanha política, Bento Dias Gonzaga compareceu ao local com alguns amigos e políticos. Foi, então, que ocorreu uma grande briga, com a notícia espalhando-se rapidamente, na mesma hora: “Bento estava sendo preso na zona”. A notícia foi prestada, à “Folha”, por um militar, o Cabo Trevizan. Imediatamente, repórteres e fotógrafos foram ao local, encontraram os políticos e, até o final da campanha eleitoral, a “Folha” ficou publicando fotos e insinuações de que, no momento oportuno, revelaria tudo o que ocorrera, incluindo fotografias comprometedoras. Mas elas não existiam. Havia sido apenas uma briga na qual Bento Gonzaga se envolvera. Que se transformou em fato político de tais proporções que a candidatura de Bento Dias Gonzaga começou a naufragar.

* CONTINUA

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