A HISTÓRIA QUE EU SEI (XLVII)

O naufrágio
O naufrágio verdadeiro, porém, foi Bento Dias Gonzaga quem o deu à sua própria candidatura, de maneira até hoje inexplicável. Pois, faltando apenas quatro dias para as eleições, aconteceu um episódio que levou, a Bento Gonzaga e à UDN, a possibilidade de reverter a situação eleitoral: a greve dos ferroviários da Sorocabana. Tratava-se de uma greve de pouca repercussão, pois os ferroviários eram poucos em Piracicaba e não formavam uma categoria que tivesse peso político. Mas resolveram – atendendo a convocação em todo o Estado – entrar em greve e impedir a saída do trem. A polícia foi chamada, o impasse estava criado, o delegado era CrIando Rozante. E, então, os ferroviários convocaram – como era quase praxe entre os trabalhadores – o único político em que depositavam confiança na cidade, o deputado Salgot Castillon, principal cabo-eleitoral, também, da campanha de Bento Gonzaga. Durante toda a manhã, as partes parlamentaram e, por volta das 11 horas, chegou-se a um acordo que honrava a todos: o trem partiria, deixando a estação, mas acabaria parando nas imediações da Avenida Independência. Estavam feitos os entendimentos quando, inesperadamente e quase ao mesmo momento, chegaram ao local Luciano Guidotti, acompanhado do também deputado Domingos José Aldrovandi, e Bento Dias Gonzaga. Frente a frente, os dois candidatos. Salgot estava sentado junto aos trilhos, parlamentando com os ferroviários, os policiais aguardando as negociações. A chegada daqueles outros políticos tumultuou tudo. Ofenderam-se uns aos outros, saíram socos e tapas, a polícia jogou bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio. Salgot Castillon e alguns ferroviários ficaram feridos. A Polícia deu ordem de prisão e levou, para a cadeia, Salgot Castillon e Bento Gonzaga. Havia uma multidão acompanhando a confusão, incluindo os operários da MAUSA, que estavam em hora de almoço. A repercussão foi intensa: “Salgot e Bento foram presos; Luciano e Aldrovandi mandaram prendê-los!” – era a versão que começou a correr na cidade. Nunca se soube quem tirou fotografias do episódio, creditadas a um fotógrafo amador. Mas o jornalista piracicabano Luiz Thomazi – que era editor da edição interiorana do jornal “Última Hora” – publicou com destaque o acontecimento, com fotos que mostravam Salgot deitado nos trilhos. Ficou a versão de que Salgot se deitara nos trilhos, impedindo a passagem do trem.

No dia seguinte, haveria os comícios de encerramento da campanha: o de Luciano Guidotti, na Praça da Catedral; o de Bento Gonzaga, no Largo do Mercado. Aconteceram o inesperado e o imprevisto: havia uma multidão ululante de operários e de pessoas simples no comício final de Bento Gonzaga; no comício de Luciano Guidotti, a presença do povo ficava aquém da expectativa. As prisões e a greve da Sorocabana começavam a surtir resultados positivos para Bento. Mas este, inexplicavelmente, desistiu da campanha nos últimos três dias, afastou-se, desapareceu. As suas poucas aparições eram negativas e deprimentes: ora embriagado, ora desinteressado, “esfriando” o entusiasmo e a solidariedade que o episódio da Sorocabana havia desencadeado. Até hoje, já correligionários de Bento Gonzaga que afirmam, categoricamente, que ele ficou com medo de vencer aquelas eleições. É uma análise. Na realidade, ninguém sabe o que aconteceu com Bento Dias Gonzaga no final da campanha.

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