A HISTÓRIA QUE EU SEI (XLVIII)

O “guidotismo”
Luciano Guidotti pouco participou da campanha política, passando grande parte dela em viagem de turismo pela Europa. Em Piracicaba, Lázaro Pinto Sampaio – que, coincidentemente, era vizinho de Luciano na Avenida Independência – coordenava a campanha com os “laudistas” do PR, uma coordenação mais intelectual do que física. Mas a viagem de Luciano, na realidade, escondia um outro objetivo, o de fazer com que ele não participasse fisicamente da campanha, pois Luciano Guidotti era um homem difícil, temperamental, de explosões inesperadas. Por outro lado, os partidos políticos que o apoiavam não tinham um bom relacionamento entre si mesmos: “laudistas” e “ademaristas” estavam coligados mas não coexistiam pacificamente. Os tempos, em âmbito nacional, estavam complicados, confusos.

Em 1963, o Brasil estava já vivendo o conturbado período de João Goulart, quase que um prenúncio de final de governo. As greves estouravam em todo o país e nem a presença de Carvalho Pinto como Ministro da Fazenda de Jango conseguira acalmar ou tranqüilizar as classes produtoras. Na política nacional, o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) trabalhara, inclusive com farto apoio financeiro, para apoiar candidatos que se opusessem à ascensão das esquerdas no país. O exemplo de Cuba, que implantara o regime comunista e que passara a existir na orbita da União Soviética, levara os Estados Unidos a uma posição de endurecimento, passando o mundo a viver sob inspiração da Geopolítica, das esferas de influência. Os primeiros golpes militares na América Latina já tinham acontecido: em Honduras, Equador, Guatemala, República Dominicana. O assassinato de John Kennedy aumentava as tensões mundiais e, ao mesmo tempo, as pressões sobre a América Latina. No Brasil, o PTB mobilizava as massas populares com o apoio desconfiado do seu irmão siamês, o PSD. Havia quatro nomes que dividiam a opinião pública voltada para a sucessão de João Gourlart em 1965: Juscelino Kubitscheck, Cartos Lacerda, Carvalho Pinto e Adhemar de Barros. Leonel Brizola também se mobilizava com sua campanha “cunhado não é parente, Brizola pra Presidente”.

Luciano Guidotti venceu as eleições de 1963 tendo como vice-prefeito o “ademarista” Nélio Ferraz de Arruda, um professor piracicabano que havia sido diretor artístico da Rádio Difusora e que tivera grande prestígio como radialista. Os “ademaristas” acreditaram que estariam no poder em Piracicaba, mas o partido de Laudo Natel, o PR, elegia uma bancada de vereadores novos e absolutamente fiéis a Luciano Guidotti, que iriam exercer grande influência na Câmara e sobre a política local. Entre eles, estavam Waldemar Romano, Rubens Leite do Canto Braga, Cícero Usberti, Elias Jorge, Lázaro Pinto Sampaio. Os “ademaristas” do PSP haviam conseguido eleger o filho de Luiz Guidotti e, portanto, sobrinho de Luciano, o jovem José Luiz Guidotti. Era o “guidotismo” de tal forma implantado que, em 1965, quando Luciano Guidotti inaugurou o Estádio Municipal iniciado por Salgot Castillon – o XV de Novembro jogou contra o Palmeiras, estreando o Estádio, com resultado de zero a zero – o E.C.XV de Novembro tinha a sua diretoria formada com as seguintes pessoas: Presidente, José Luiz Guidotti; vice-presidente, Luiz Guidotti; administrador do Estádio Municipal, João Guidotti. Um detalhe: nesse ano, o E.C.xV de Novembro foi rebaixado para a Segunda Divisão de Futebol da Federação Paulista de Futebol (FPF) …

Enquanto isso, o povo ouvia, pela primeira vez em disco, a voz de Nara Leão; a Alpargatas havia lançado o “jeans” Topeka e era o que a juventude usava nas ruas; a Bossa Nova houvera feito sucesso, no ano anterior, no “Carnegie Hall” de Nova Iorque, mas começava a ser contestada no país, com novos estilos ameaçando surgir. Mas “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, estava nascendo como para dizer que a bossa-nova nunca haveria de perder o seu espaço. Em 1963, era a geração “peacenik”, falando de paz, com medo dos projéteis interplanetários que cruzavam os espaços, a geração que estava gerando os “hippies”. Piracicaba, quando Luciano Guidotti assumiu a Prefeitura, em Janeiro de 1964, era uma cidade que deixara de ter a sua economia apenas voltada para a cana-de-açúcar, mas que crescera, que se desenvolvera, que vivia o início de uma migração urbana irresistível, com a indústria metalúrgica e siderúrgica dando-lhe outra fisionomia econômica.

Os metalúrgicos faziam reivindicações, faziam greves. Era uma outra sociedade que Luciano Guidotti, a partir da Prefeitura, teria que administrar em seus conflitos. O golpe militar estava no ar.

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