A HISTÓRIA QUE EU SEI (XX)

O fim do “gonzaguismo”
A década de 50 pode ser vista como os “anos do rompimento”. Em sua primeira metade – de 1950 a 1955 – os sinais já eram evidentes e iniciavam-se alguns choques nos hábitos e costumes das pessoas. Tratava-se, na verdade, do surgimento de uma geração de jovens e adolescentes que começavam a encontrar o seu espaço, nascida que fora, no mundo todo, sob regimes totalitários: Hitler e Mussolini, na Alemanha e Itália; Perón, na Argentina; Getúlio, no Brasil – apenas para citar-se alguns. Os Estados Unidos livravam-se da “caça às bruxas”, deflagrada pelo Senador McCarthy, que tanto inibira artistas e intelectuais. Havia, por assim dizer, fome de mudanças, um apego ao valor das liberdades individuais. Tratava-se, no entanto, de uma geração de certa forma alienada, sem bandeiras ou maiores preocupações idealísticas. De qualquer forma, uma “juventude rebelde”, a dos “rebeldes sem causa” Em 1953, o filme “O Selvagem”, onde Marlon Brando despontava como modelo da juventude, mostrava tais conflitos. E isso se repetiria com James Dean, em “Juventude Transviada”, e com os mesmos Marlon

Brando e James Dean em “Sementes da Violência”, ambos de 1955. Com “Sementes da Violência”, o “rock’n ro11″alcançava a preferência da juventude, espalhando-se pelo mundo, na música “Rock Around The Clock”, com Billy Halley e seus Cometas.

Marilyn Monroe se tomava a mulher mais desejada do mundo, com a sua foto para um calendário, em que posara nua em 1953, sendo disputado por todas as pessoas. No Brasil, a Rádio Mayrink Veiga, a Nacional, a Tupi disputavam a audiência pela preferência nacional. Ouvia-se Tito Madi cantando “Chove Lá Fora”, surgia Silvinha Teles com uma música esquisita, mas que encantou a todos, “Amendoim Torradinho”.

Num salão aristocrático de São Paulo, Maysa Matarazzo aprontava-se para se tomar cantora de sucesso. Os conjuntos vocais eram a sensação da época: “Quitandinhas Serenader’s”, “Os Cariocas”, os “Garotos da Lua”, onde João Gilberto era vocalista.

Dick Famey imperava absoluto, com a voz aveludada de Lúcio Alves também causando “frisson”. As rádios tocavam “Mona Lisa”, com Nat King Cole; e viriam “Be My Love”, com Mário Lanza, “Vaya Com Dios”, Rosemary Clooner, Eddy Fischer.E Nora Ney, lamuriando-se: “Ninguém me ama, ninguém me quer. “, contrapondo-se ao vozeirão de Billy Eckistine.

Era um tempo propício a mudanças, com uma juventude pronta para acolher o novo. Em Piracicaba, Luciano Guidotti – com sua simplicidade, com suas origens humildes – representava bem esse desafio a tudo o que era antiquadamente constituído.

Mas não foi apenas aos jovens que a candidatura de Luciano empolgou. Foi a uma cidade. Exemplo disso foi a participação de Dona Branca de Azevedo, mulher que era um mito piracicabano, líder feminista, condutora de pessoas. Diretora da Creche Anita Costa e, depois presidente da LBA, Dona Branca de Azevedo houvera sido uma das mais fortes lideranças quando da Revolução de 32, convocando os piracicabanos a participar do “front”, chamando de covardes os que se negavam a ir. Dona Branca, com sua autoridade moral, ia às ruas – e subiu em palanques – para defender a candidatura de Luciano Guidotti.

Candidatavam-se a vereador Lázaro Pinto Sampaio, Salgot Castillon, Domingos José Aldrovandi, João Basílio, todos elegendo-se, entre outros. E uma novidade: a candidatura de uma mulher, a primeira mulher a ser vereadora em Piracicaba, Maria Benedita Penezzi.

As eleições municipais coincidiram com as da Presidência da República, em ambiente ainda conturbado pela “memória de Getúlio Vargas” Adhemar de Barros foi candidato à Presidência, apesar de, então, ter a oposição dura e até mesmo cruel do Governador Jânio Quadros, seu adversário implacável. O PRP, onde se abrigavam os antigos “integralistas”, lançava a candidatura de Plínio Salgado, seu líder máximo. Pela UDN, candidatava-se o Marechal Juarez Távora, tido como um dos condestáveis da República, homem a quem se dera o título de “Vice Rei do Nordeste”. E, buscando a herança popular de Getúlio Vargas, surgia Juscelino Kubitschek como candidato a Presidente pela coligação PSD-PTB, tendo João Goulart como postulante à vicepresidência.

Em Piracicaba, as posições se dividiram. Pouco se falava de Juscelino Kubitschek, uma candidatura levada pouco a sério no Estado de São Paulo. O acirramento de ânimos se dava entre as candidaturas de Adhemar de Barros e Juarez Távora, muito embora os “integra listas” tivessem feito muito barulho em defesa de Plínio Salgado. E houve frustrações quando, afinal, o eleito foi Juscelino Kubitschek, o homem que haveria de iniciar um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil.

A coincidência das eleições presidenciais com as municipais causou diversionismos internos em Piracicaba. A UDN e o PSD, por exemplo, que apoiavam Luciano Guidotti em nível municipal, hostilizavam-se quanto à eleição presidencial.

Era uma convivência apenas municipal, que nunca haveria de prosperar ao longo do tempo. Luiz Dias Gonzaga dividia-se entre o apoio a Adhemar de Barros, sua própria candidatura pelo PSP, e a posição – tida como um acerto em família – do filho Bento Dias Gonzaga, já deputado, que se agregara ao “bloco janista”, na Assembléia Legislativa. A imprensa também se dividia, parecia estar com suas opções ideológicas bem definidas: o “Jornal de Piracicaba” – que se tomara um baluarte do “janismo” apoiava a candidatura de Juarez Távora, através da pena de Losso Neto; o “Diário de Piracicaba”, dirigido por Sebastião Ferraz, mostrava as suas simpatias ao mesmo tempo para Adhemar de Barros e o PSD. Paralelamente, porém, os dois jornais manifestavam claro apoio à candidatura de Luciano Guidotti à Prefeitura de Piracicaba. Quanto à Igreja Católica, D. Ernesto de Paula, o Bispo Diocesano, se via diante de dificuldades: era amigo e devia cortesias a Luiz Dias Gonzaga; mas já era amigo e também devia cortesias a Luciano Guidotti, que auxiliava as obras da Igreja. A preferência de D.

Ernesto de Paula, porém, por Luciano Guidotti era inequívoca.

Assim, o velho “coronel”, o líder do antigo PRP, o político mais expressivo de Piracicaba desde os anos 30, começava a ficar isolado, cercado apenas por amigos fiéis, por correligionários leais. Luiz Dias Gonzaga parecia antever o final de sua liderança política, o final de um tempo que, mesmo com o filho Bento Dias Gonzaga ingressando na política, não podia mais ser preservado. Foi derrotado em 1955, a sua última eleição. O novo Prefeito, Luciano Guidotti, fechava, com sua vitória, as páginas da história política de Piracicaba onde, até ali, estavam inscritas a vida, a obra e a atuação de Samuel de Castro Neves e de Luiz Dias Gonzaga. E, antes mesmo de tomar posse, Luciano Guidotti mostrou para o que vinha, revelando-se muito mais político do que julgavam os que viam, nele, apenas um homem simples e trabalhador. O Prefeito João Basílio, ao final de seu mandato em substituição a Samuel de Castro Neves, sentiu na carne o estilo também personalista, decidido, passional de Luciano Guidotti.

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