A História que Eu Sei (XXIII)

A “revolução” de Luciano
A administração de Luciano Guidotti foi, reconhecidamente, transformadora. Com ele, acontecia a primeira grande “revolução” urbana de Piracicaba. Um dos grandes desafios era a cobertura do riacho Itapeva, que corre sob a Avenida Armando de Salles Oliveira. Luiz Dias Gonzaga houvera construído o primeiro trecho da cobertura, com continuação na administração de Samuel Neves do trecho compreendido entre as ruas Moraes Barros e Prudente de Moraes. Luciano Guidotti completou todo o restante, levando as obras de cobertura do ribeirão até a Ponte Nova, nas proximidades do Clube de Campo.

A Avenida Armando de Salles Oliveira tomou-se alvo de muitas críticas, especialmente de engenheiros, entre os quais se incluía Salgot Casti1lon. Nas administrações anteriores – de Gonzaga e de Samuel – os trechos cobertos tinham sido precedidos da retificação do córrego, com a Construtora Holland fazendo a pavimentação. Luciano Guidotti, porém, que foi sempre um homem com pressa de realizar obras, determinou que se cobrisse o córrego mesmo sem retificá-lo. E aprontou a grande avenida, que se transformava num dos principais corredores de Piracicaba. Foi Luciano Guidotti, também, que concluiu a Avenida Independência, que rasgou a Avenida Saldanha Marinho, modernizando a cidade. Completou a remodelação e ampliação do Mercado Municipal, construiu o viaduto da rua Governador e a Fonte Luminosa que, na época, se tomou orgulho da cidade, num tempo em que os prefeitos tinham, quase que como ponto de honra, construir fontes luminosas. A cidade era rasgada de alto abaixo, havia grande entusiamo e orgulho populares. Luciano comandava pessoalmente as obras, chegando a riscar o chão com o pé para indicar por onde as máquinas haveriam de passar. No “Diário de Piracicaba”, o colunista social Mauro Vianna, com o pseudônimo de Marco Aurélio, passou a chamar Piracicaba, nos anos de 1958 e 1959, de “Cidade das Avenidas”, tais as mudanças urbanas porque a cidade passava.

O estilo de Luciano Guidotti era centralizador, personalista. Não dava satisfações à classe política, administrava sem os partidos políticos, aconselhando-se com poucas pessoas. Entre elas estavam os vereadores Oscar Manoel Schiavon, Mário e Antonio Stolf, que tinham sido próximos do antigo prefeito José Vizioli. Foi o estilo de José Vizioli – independente e personalista – que Luciano Guidotti adotou, imprimindo a força de sua personalidade voluntariosa e ativa. Era um empresário na Prefeitura, com todos os cacoetes de, na administração municipal, impor as regras da administração privada. Eficiência, menor custo, mais produtividade – essa a marca de Luciano Guidotti em sua passagem pela Prefeitura, repetindo, de certa forma e num outro tempo, o espírito de “organização” de José Vizioli. E, por outro lado, Luciano Guidotti se cercava do apoio de outros “comendadores” – Antonio Romano, Humberto D’ Abronzo, Uno Morganti, entre outros – que atuavam com desembaraço em diversas áreas de atividades junto à comunidade, onde a Prefeitura poderia contribuir e colaborar.

A época era propícia. No governo federal, Juscelino Kubitschek desenvolvia o seu programa de metas e o Estado de São Paulo era favorecido com o advento da indústria automobilística, que passava a forrar os cofres do governo estadual com generosas somas de dinheiro dos impostos. No governo paulista, primeiro Jânio Quadros e, depois, Carvalho Pinto, procediam ao saneamento das finanças públicas e impunham maior moralidade ao uso dos recursos da máquina administrativa. Por iniciativa do então deputado Bento Dias Gonzaga, Piracicaba conseguia a sua ligação rodoviária até a Via Anhanguera, na altura de Americana, realizando uma velha aspiração do município, que tinha um simples e difícil acesso por terra àquela rodovia.

As Oficinas Dedini cresciam e, no esforço de industrialização do país, Mário e Leopoldo Dedini eram procurados e visitados por grandes personalidades da economia e da política nacionais, que buscavam a participação daquele grupo industrial para o atendimento das necessidades básicas da indústria. No setor de telefonia, um grupo de 25 piracicabanos – liderados por Lemaire Garcia dos Santos, Eduardo Fernandes Filho, Carlos (“Tal”) Dias Corrêa Filho, Primo Falzoni e outros – criava a CIPA TEL, a empresa piracicabana de telefonia, substituindo a CPT (Companhia Paulista de Telecomunicações), cujos serviços eram precários e deficientes Instalavam-se, assim, em Piracicaba os primeiros telefones automáticos. Piracicaba contava cerca de 115 mil habitantes. E, no biênio 1957/1958, por duas vezes o Município de Piracicaba era declarado, pelo IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal), o “mais progressista do Brasil” Tratava-se, sim, de uma profunda revolução urbana. E o homem que promovia e comandava aquela revolução se chamava Luciano Guidotti.

No entanto, Luciano Guidotti descuidou da zona rural. Por mais que, na Câmara Municipal, vereadores ligados ao meio rural o pressionassem – entre eles Salgot Castillon, Domingos Aldrovandi, Romeu Italo Rípoli – Luciano era pouco sensível àquela realidade. E tanto isso foi fato que – ausentando-se ele do município para uma viagem à Argentina – Lázaro Pinto Sampaio assumiu a Prefeitura e sua primeira providência foi determinar a abertura e a construção de algumas estradas na zona rural.

Tão logo retomou da viagem, Luciano Guidotti interrompeu as obras …

Por que Lázaro Pinto Sampaio assumiu a Prefeitura? Porque, mais uma vez, Piracicaba via acontecer a crise do vice-prefeito, a “síndrome do vice-prefeito”: Alberto Volet Sachs havia renunciado ao cargo, depois de ser sido íntimo colaborador de Luciano Guidotti …

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