A HISTÓRIA QUE EU SEI (XXV)

Confronto de lideranças
Luciano Guidotti não pôde queixar-se da atuação dos vereadores, a maioria em apoio à sua administração até o último ano de seu mandato, quando houve rompimentos. Mas, na Câmara Municipal, começava a travar-se um confronto de lideranças que, a partir da legislatura de 1956/1959, iria, novamente, dividir a política piracicabana. Nela começaram a confrontar-se Salgot Castillon e Domingos José Aldrovandi, que já haviam tido posicionamentos diferentes na legislatura anterior quando da renúncia do vice-prefeito “Ditoca”. Salgot Castillon ia-se tomando um dos mais expressivos líderes na UDN. Domingos José Aldrovandi, por sua vez, tinha o apoio dos canavieiros, iniciara a carreira da UDN com Luiz Dias Gonzaga, transferiu-se para o PTB apoiando Samuel de Castro Neves e Luciano Guidotti. Tanto Salgot Castillon como Domingos José Aldrovandi eram, na época, “janistas”, o que os levava a despertar as antipatias do “gonzaguismo-ademarismo”. Por outro lado, o deputado Bento Dias Gonzaga transferindo-se, também, para as hostes “janistas” – buscava exercer sua influência na política piracicabana. Em meio ao mandato, Domingos Jose Aldrovandi deixou o PTB, transferindo-se para o PDC (Partido Democrata Cristão), pelo qual Jânio Quadros havia chegado à Prefeitura de São Paulo.

A Presidência da Câmara Municipal ficara, no primeiro biênio (1956/1957), com Lázaro Pinto Sampaio, político habilidoso de quem se falava poder vir a ser o sucessor de Luciano Guidotti. E, durante algum tempo, Luciano até mesmo chegou a pensar na hipótese. Ocorria, porém, que Domingos José Aldrovandi tinha diferenças pessoais com Lázaro Pinto Sampaio, originárias nas Oficinas Dedini: Aldrovandi fora contador de Mário Dedini, sendo substituído por Lázaro Pinto Sampaio, de onde as diferenças pessoais. Na política, Domingos José Aldrovandi manteve, em relação a Lázaro, o comportamento hostil e, enfrentando-o na Presidência da Câmara, Aldrovandi foi ganhando espaços juntos aos vereadores e ao próprio Luciano Guidotti, de quem se tomou próximo e homem de confiança. Por sua vez, Salgot Castillon ia tendo uma atuação exuberante na Câmara Municipal, tomando-se, por temperamento e maneira de fazer política, cada vez mais querido das populações mais pobres e necessitadas. Salgot Castillon começara a inaugurar o “udenismo populista”, a UDN sendo apoiada pelas classes menos favorecidas, o que era uma incongruência se fosse, o fenômeno, analisado pela ótica nacional, onde a UDN era o partido das elites. Salgot Castillon ia preenchendo, cada vez mais, o espaço que fora deixado vazio pelo “populista” Samuel Neves e também pelo “conservador” Luiz Dias Gonzaga. Ao mesmo tempo, angariava simpatia das elites e das massas. E Domingos José Aldrovandi, não tendo simpatia popular, aproximava-se cada vez mais do estilo rude, agressivo, passional de Luciano Guidotti.

As novas lideranças políticas começavam a firmar-se na Câmara Municipal. Nunca se chegou a ter um “aldrovandismo”, pois a influência de Aldrovandi foi exercida mais setorizadamente, entre os canavieiros. No entanto, já se criava o “salgosismo” que, algum tempo depois, iria entrar em oposição ao “guidotismo” que nascia com Luciano Guidotti. Assim, daquelas duas lideranças, que passavam a confrontar-se na Câmara Municipal, começavam a surgir outras sementes de personalismo político. E um outro aspecto: Salgot era estreitamente ligado à Igreja; Aldrovandi, líder metodista.

Na Câmara Municipal, surgiram os primeiros sinais de desagrado que se avolumaram quando Luciano Guidotti começou a usar de seus próprios métodos para neutralizar a oposição e obter apoio dos que se manifestavam contrários a aspectos de sua administração. Salgot Castillon, por exemplo, passou a fazer críticas severas quanto ao fato de Luciano Guidotti ter transferido aos vereadores Arthur Domingues da Moua (PSP), Oscar Manoel Schiavon (PSP) e Orlando Cámio (PSP) serviços de construção de sarjetas e calçamentos. A repercussão era negativa, pois se tratava de vereadores prestando serviços à Prefeitura. E, naquela época, o regimento interno da Câmara Municipal proibia que vereadores até mesmo fizessem simples elogios ao Prefeito quando no uso da tribuna camarária, tentativa de se superar uma prática bajulatória que era comum no tempo de Luiz Dias Gonzaga. As críticas de Salgot Castillon em relação a tais e outras situações começaram a causar mal estar em Luciano Guidotti que percebia o crescimento popular e a ascendência política do vereador.

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