A HISTÓRIA QUE EU SEI (XXVII)

A vinda de Juscelino
Juscelino Kubitschek foi o primeiro presidente da República a visitar Piracicaba quando no exercício do cargo. Juscelino era muito habilidoso como político e fascinante como pessoa. Tivera grandes dificuldades com os estudantes que, através da UNE, tentaram desafiá-lo. Mas acabou cativando-os de forma que, com pouco tempo de governo, era como que um ídolo entre a juventude. Talvez por isso, os formandos da E.S.A. “Luiz de Queiroz”, em 1957, o escolheram para paraninfo, numa solenidade onde manifestariam a grande notoriedade que o Centro Acadêmico Luiz de Queiroz tinha à época. A própria sede do CALQ, obtivera, para sua construção, verbas federais. João Pacheco e Chaves, então deputado à Câmara Federal, fora o interlocutor dos estudantes para o convite a Juscelino, que o aceitou.

No dia 13 de Março de 1958, seria solenidade de formatura, com a presença também do Governador Jânio Quadros e sendo celebrante da missa de formatura o Cardeal D. Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta, Arcebispo de São Paulo.

No dia da vinda de Juscelino Kubitschek, o deputado Pacheco e Chaves entrou em pânico. Nada havia sido organizado para a chegada do Presidente, o povo não tinha sido mobilizado, a recepção se restringiria às solenidades de formatura. Ora, Juscelino era, antes de mais nada, um político. E, por isso, gostava de manifestações populares, estimulava-as.

Pacheco e Chaves percebeu que a visita seria um fracasso, especialmente porque o Governador Jânio Quadros estaria presente e, naquelas alturas, era Jânio urna figura de grande apelo popular, além de adversário e crítico de Juscelino. Foi, então, que Pacheco e Chaves, pouco antes do almoço naquele dia 13, foi, literalmente, pedir socorro ao Bispo D. Ernesto de Paula, na esperança de que, através de um apelo do Bispo, o povo acorresse às ruas. D. Ernesto não sabia como mobilizar os seus fiéis em tempo tão exíquo e sem instrumentos de mobilização a não ser a rádio-emissora. Nasceu-lhe, daí uma idéia oportunista: “E se o Presidente Juscelino, naquele mesmo dia, inaugurasse as torres da Catedral?” João Pacheco e Chaves concordou de imediato. D. Ernesto passou a informar o povo, pela rádio, que Juscelino iria inaugurar as torres, a massa de fiéis e de populares acorreu à Praça da Catedral, lotou a igreja e assim se inauguraram as torres com a presença de Juscelino, Jânio e do Cardeal Motta.

Juscelino foi recepcionado pelo casal João e Ruth Pacheco e Chaves na Chácara Nazareth, onde pernoitou. Ocorreu um episódio constrangedor: o Governador Jânio Quadros ofereceu-se, também, para pernoitar na Chácara Nazareth, mas o seu emissário recebeu de Dona Ruth uma resposta peremptória: “Jânio, não!” O máximo que Jânio Quadros conseguiu foi trocar de roupa na Chácara Nazareth. Dona Ruth nunca se esqueceu: “O homem era tido como pobre, amigo dos pobres. Quando eu abri a malinha dele para retirar as roupas com que ele iria à solenidade, todas as roupas, até as de baixo, eram de procedência inglesa …” E naquela dia, na Chácara Nazareth, por pouco Jânio Quadros não foi fotografado de cuecas.

Um fotógrafo dos “Diários Associados” subiu a uma cadeira e, pela abertura da porta do banheiro onde Jânio se trocava, tentou fotografá-lo. Dona Ruth conta: “Eu não gostava do Jânio, mas era demais que ele fosse fotografado de cuecas dentro de minha casa …”

A UDN, em oposição a Juscelino também em Piracicaba, não compareceu à recepção ao Presidente da República. A UDN já namorava Jânio Quadros. O fato é que as torres da Catedral foram inauguradas com a presença do Presidente Juscelino e do Governador Jânio Quadros por uma manobra habilidosa e de participação política do Bispo D. Ernesto de Paula.

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