A HISTÓRIA QUE EU SEI (XXXIX)

A disputa
Terminadas as eleições, Salgot Castillon retomou à Prefeitura, cargo que lhe pertencia até a posse como deputado estadual. E Manoel Rodrigues Lourenço voltou à Presidência da Câmara. Nos próximos meses, teria que ocorrer a eleição indireta para Prefeito. E, então, começaram as articulações. Apoiado por Luciano Guidotti e Domingos José Aldrovandi, Manoel Rodrigues Lourenço lançou-se candidato com boas chances de vitória dentro da Câmara Municipal, pois, tomando-se deputado e pertencente à bancada “ademarista”, a influência política de Aldrovandi aumentava da noite para o dia.

Salgot Castillon, em nome da UDN, decidiu convidar o empresário Luiz Guidotti, irmão de Luciano, para ser o candidato às eleições indiretas. O plano era simples: se Luiz Guidotti aceitasse e fosse eleito, uma futura e próxima candidatura de Luciano Guidotti estaria impedida, por proibição legal face aos laços de parentesco. Luiz Guidotti tomou-se acessível ao convite. Foi, então, que os vereadores Geraldo Carvalhaes Bastos (PSP), Jaime Cunha Caldeira e Silvio de Cillos, sindicalistas e socialistas do PSB, resolveram convidar o também empresário Alberto Coury para candidato. Aconteceu numa festa no Bairro Godinhos. Alberto Coury entusiasmou-se, acabou aceitando. Mais uma vez, os “socialistas” piracicabanos lançavam e apoiavam um candidato da UDN. Mais ainda: os “socialistas” lançavam o Comendador Humberto D’Abronzo como candidato a vice-prefeito de Alberto Coury.

Traições e renúncia
Pela composição das bancadas “guidotista” e “salgosista” na Câmara Municipal, Alberto Coury derrotaria Manoel Rodrigues Lourenço por apenas um voto. O vereador Geraldo Carvalhaes Basto, um competente e eficientíssimo articulador político, liderava a bancada “salgosista”. Enquanto isso, os “guidotistas” buscavam tirar a diferença de um voto, procurando cooptar algum vereador da bancada adversária. O alvo dos “guidotistas” era o vereador Jorge Antonio Angeli, sobre quem faziam pressões. Se este mudasse seu voto, Lourenço estaria com a eleição garantida. Ao mesmo tempo, pela imprensa local, os “guidotistas” insistiam em fazer denúncias contra Salgot Castillon, acusando-o de uso da máquina administrativa, de má condução do negócios do município. Jorge Antonio Angeli acabou cedendo, concordou em mudar o voto e bandeou para as hostes”guidotistas”.

Mas havia a vivacidade política de Geraldo Carvalhaes Bastos, líder do “salgosismo”. Geraldo Bastos era habilidoso, político capaz de usar de todos os recursos possíveis, grande conhecedor do regimento interno da Câmara Municipal. Certa vez, por exemplo, quando presidia a Câmara Municipal, Geraldo Bastos conseguiu que a bancada da situação ganhasse uma votação com a simples inversão de uma frase. Ocorria que, como a praxe de longa data vinha determinando, os vereadores que “ficavam sentados” aprovavam, os que “ficavam em pé” rejeitavam as matérias. Geraldo inverteu: “sentados rejeitam, em pé aprovam”. Condicionados pelo hábito, os vereadores votaram a maneira usual. E Geraldo Bastos fez a bancada situacionista ganhar uma certa votação, causando brigas e confusões.

Foi Geraldo Bastos quem articulou o esquema que deu a vitória a Alberto Coury. Diante da mudança de posição de Jorge Antonio Angeli, Geraldo Bastos foi atrás do voto de um adversário. Ea Gito Moisés, o homem. E Geraldo Bastos – com dinheiro obtido com o empresário Octamiro Garcia do Nascimento – simplesmente “comprou” o voto de Gito Moisés por “600 contos”. Gito e Angeli traíram suas bancadas, mas a maioria de um único voto permaneceu em favor de Alberto Coury e Humberto D’Abronzo que venceram as eleições, sendo empossados prefeito e vice-prefeito de Piracicaba, no dia 13 de novembro de 1962.

A traição de Jorge Antonio Angeli teve uma consequência ainda mais grave. Salgot Castillon, antes mesmo da votação da Câmara para eleger o próximo prefeito, renunciou ao mandato de mais alguns meses que tinha pela frente.

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