A HISTÓRIA QUE EU SEI (XXXVI)

D. Aníger, Igreja renovada
A renúncia de D. Ernesto de Paula ao seu episcopado na Diocese de Piracicaba nunca foi inteiramente explicada. As razões alegadas foram que D. Ernesto deixava a Diocese por motivos de saúde. Em seu livro de memórias, no entanto, o primeiro Bispo da Diocese – ainda que nada referindo à renúncia deixa claro que, já em São Paulo, onde se domiciliara desde Janeiro de 1960, ressentia-se da falta de atividades, angustiando-se por se sentir inútil. O fato é que, com sua renúncia, D. Ernesto de Paula deixava vago um cargo eclesiástico que exercia grande influência na vida da comunidade e também nos meios políticos. Substituindo-o, o Papa João XXIII designava o Padre Aníger Francisco Maria Melilo, que era vigário em Iracemápolis e que fora coadjutor de Monsenhor Rosa na antiga Matriz de Santo Antônio, como Bispo de Piracicaba.

A Igreja Católica, impulsionada pelo Papa João XXIII que assumira o trono pontifício em Novembro de 1958, ingressara no que viria a ser conhecido como a “Primavera da Igreja”. Logo no início de seu pontificado em Janeiro de 1959. João XXIII proclamara a convocação de um concílio ecumênico, promovendo a mobilização dos bispos do mundo todo. Já se sentiam as mudanças que haveriam de ocorrer na Igreja Católica. E, por isso mesmo, quando se anunciou que o bispo designado para substituir D. Ernesto de Paula era então Padre Aníger Melilo, as reações, em Piracicaba, foram de surpresa e de insatisfação. O Padre Melilo havia deixado, em sua passagem pela Matriz de Santo Antônio, lembranças de arraigado conservadorismo, de distância às questões sociais e de atuação marcadamente moralista. Todos se enganaram: ao assumir o episcopado, o Bispo D. Aníger Melilo retomava a Piracicaba com idéias ousadas, com o espírito aberto, tomado de grande preocupação em tomo de formar novas lideranças laicas e de cercar-se de leigos. Ao mesmo tempo, D.Aníger Melilo renovava o clero, trazendo novos e jovens padres para a Diocese.

Salgot Castillon, então na Prefeitura de Piracicaba, foi um dos primeiros a manter contato com D. Aníger Melilo, mesmo antes de sua ordenação episcopal. Ocorria que o Padre Melilo havia sido “prefeito” de Salgot Castillon no Seminário em que este estudara, o Diocesano de Campinas. O Prefeito e o Bispo de Piracicaba tinham, além de afinidades religiosas entre si, também amizade pessoal. D. Aníger, desde o início mostrou a sua preocupação com a política piracicabana, querendo-a como realmente um “bem comum”, a arte de alcançá-lo. Os padres que chegavam começavam a participar mais ativamente da questão social piracicabana, envolvendo-se com a juventude, o operariado, os sindicatos.

A primeira refrega aconteceu com o Grupo Dedini, quando o padre Benedito Gil começou a imiscuir-se entre os operários, estimulando protestos contra a ausência de um refeitório para os mesmos. A polêmica chegou aos jornais, com Lázaro Pinto

Sampaio defendendo o empresariado e justificando a situação dos operários nas empresas Dedini.

Alguns anos depois, mais exatamente em 1967, D. Aníger Melilo via, no ainda incipiente Movimento de Cursilhos de Cristandade, um instrumento para o que ele mais almejava: “a evangelização dos ambientes”. D. Aníger instalou o Movimento dos Cursilhos em Piracicaba e, a partir daí, passou a renovar as lideranças laicas. Seus alvos prioritários foram a imprensa, rádio, o campo das comunicações sociais, e a política. Dessa iniciativa de D. Aníger Melilo, nascia uma outra geração de políticos, os “cursilhistas”, que entravam nos partidos ou que, já estando neles, eram motivados a participar daquele movimento. Buscava-se uma “política calcada em princípios cristãos”. Novas lideranças surgiram e muitas delas ingressaram na política. Os “políticos cursilhistas” foram responsáveis pela definição de acontecimentos políticos que haveriam, como se verá, de ser decisivos na vida de Piracicaba.

A partir de D. Aníger Melilo, a Igreja Católica de Piracicaba passava a agir, na política e nos partidos, através dos leigos, como houvera ocorrido, ainda que através de outros métodos e em circunstâncias diversas, com a “Ação Católica”, no pós-guerra.

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