PRUDENTE DE MORAES: vida, paixão e morte (2)

O solitário de Piracicaba

Não há referência a Prudente de Moraes que não diga de seu espírito solitário, de recolhimento, semelhante a de um asceta. Para alguns, um homem triste. Muitos dos que o conheceram deixaram registrada uma referência carinhosa e significativa: “O Solitário de Piracicaba”.

Tratava-se de uma postura de homem e de cidadão, que marcaria toda sua vida pessoal e política, despertando reverências. Foi um dos “varões de Plutarco” do Brasil, desde o final do Império.

José do Patrocínio o chamou de “Santo Varão da República”. O historiador Hélio Silva chama-o de “o mais puro dos republicanos”, enfatizando a sua figura humana: “ereto, austero, seu perfil parece talhado a buril, lembrando, até fisionomicamente, Abraham Lincoln.”

Foi um homem metódico, organizado, atento aos mínimos detalhes das coisas. O historiador Cândido Motta filho descreveu-o como “figura sóbria, de poucos sorrisos e muitos compromissos”. Essa austeridade e prudência – adequadas a seu próprio nome – levaram os adversários, ligados a Floriano Peixoto, a chamá-lo pejorativamente de “Prudente Demorado”. Nada, porém, foi mais equivocada do que essa maledicência dos adversários. Ainda Hélio Silva, estudioso de toda a história republicana, enfatiza:

– “Ele (Prudente de Moraes) era solidário e ativo. Por isso, desde logo se impõe pela firmeza de sua doutrina e prudência de seu conselho. Assim será a vida inteira: solidário, mas solitário. Homem de decisão, não precipitado, mas que, pela rapidez com que se realiza, dá a falsa idéia de que seja um voluntarioso. Não. É, na verdade, um homem de vontade.”

A casa e a família

Jovem e solteiro, advogado já brilhante, Prudente de Moraes parece ter pressentido que aquela casa da rua Santo Antônio iria participar de sua história póstuma, como que testemunha. Era ainda uma casa em construção, herança de sua mãe, dona Catarina Maria de Moraes, quando Prudente a comprou de seus irmãos Manoel, Fernando José, Joaquim e do cunhado Antônio Mecias Franco. Era a casa de número 10.

Naquela casa, Prudente de Moraes advogou, constituiu família, viu surgirem-lhe os nove filhos, naquela casa recebeu personalidades, fez política e morreu. E – onde está, hoje, o museu com seu nome – foi lá, também, que ele consolidou os princípios liberais que o tornariam um dos líderes da instalação da República e seu primeiro presidente civil. Foi, também, naquela casa que Prudente de Moraes se deixou tomar pela tristeza que o acompanhou pelo resto da vida, com a morte de dois de seus filhos: Teresa e Maria Jovita, falecidas, respectivamente, aos onze e um ano de idade.

Diante da família, a dignidade de Prudente de Moraes se manteve até em momentos difíceis, de retorno ao passado. Num tempo em que quase todos escondiam sua vida pessoal, ele assumia todas as responsabilidades familiares e de homem. Assim foi quando, já doente e ao elaborar seu testamento, nele fez constar, também como herdeiro, o filho José, que tivera na juventude, ainda solteiro, com “moça solteira”.

Gastão Pereira da Silva, um de seus biógrafos, dá-nos traços dessa amargura que acompanhava Prudente de Moraes: “Era um temperamento fechado, voltado para dentro. Suas impressões morriam com ele. Sentia a dor dos desenganos como uma forte queimadura na alma.”

Doença e depressão

Essa austeridade, com laivos de uma tristeza permanente, sempre instigou os que estudaram a vida e a obra de Prudente de Moraes. Recentemente, um cientista brasileiro – E. Alexsandro da Silva, da UERJ – levantou questão importante ao analisar a calculose cevical de que Prudente de Moraes sofria, obrigando-o – em pleno exercício da Presidência – a se submeter a uma “litotomia”, então considerada perigosa e arriscada intervenção cirúrgica. Até o final do Século XIX e princípios do XX, o diagnóstico de cálculo vesical era quase que uma previsão de morte. Um cálculo na bexiga poderia ser fatal, pois, à “litotomia”, uma cirurgia de altíssimo risco, poucos sobreviviam. A urologia estava ainda em seus primórdios. Aquela cirurgia, segundo o autor, contava com 6 mortes em 8 operados, uma taxa assustadora de mortalidade de 75%.

Segundo o autor, “sabia-se que os pacientes, que sobreviviam, tinham o estilo de vida alterado, ficavam deprimidos devido às seqüelas da cirurgia”. E Prudente de Moraes sofria dessa enfermidade crônica, conforme ele próprio testemunhou em cartas: “…meu organismo, já depauperado pelos sofrimentos ocasionados durante alguns anos pelo cálculo na bexiga…” (Amaral AB: “Prudente de Moraes: uma vida marcada”, São Paulo, IHGP, 1971).

Na Presidência da República, as crises continuaram, agravando- se. Em carta, ele o revelou a uma de suas filhas, em 1895: “… eu vou me agüentando: há quinze dias, voltou-me o incômodo da bexiga, mas, felizmente, durou pouco…” E, no mesmo ano, ao amigo Antônio Teixeira Mendes, luso-brasileiro que se vinculou, em Piracicaba, aos ideais republicanos dos Moraes Barros e Luiz de Queiroz: “Cheguei aos 54 anos, mas tão cansado e abatido como se tivesse chegado aos 64: envelheci 10 anos por antecipação, resultado da enfermidade e do enorme peso que suporto há longos 11 meses.” Em 1896, confidenciava ao filho Antônio: “Continuo a sofrer mais ou menos dos meus incômodos, tendo dias em que impedem-me completamente de trabalhar…” E no mesmo ano, abria o coração ao grande amigo e companheiro Bernardino de Campos: “O meu maior desejo é ver-me livre deste inferno e ocupar-me, durante o resto de minha vida, de minha saúde arruinada.”

Não suportando mais, Prudente de Moraes aceitou ser operado no dia 29 de outubro de 1896. A cirurgia aconteceu às 9h30 daquela manhã, na residência de Verão do Presidente, no Morro do Inglês, atual Ladeira do Ascurra, Cosme Velho, no Rio de Janeiro.

O martírio da cirurgia

O relato é de E. Alexsandro da Silva: “Prudente de Moraes foi operado pelo dr. Barão de Pedro Afonso Franco, acompanhado do dr. Oscar de Bulhões e auxiliados pelos drs. Toledo Dosworth e Paulino Wernek. Assistiram à operação os drs. Barata Ribeiro, Rodrigues Lima e Cesário Motta. (Barata Ribeiro clinicara em Piracicaba e era médico particular de Prudente de Moraes.) Foi realizada uma talha hipogástrica, sendo retirado um cálculo de cerca de 3,5 cm de diâmetro. A intervenção durou aproximadamente uma hora. A incisão foi suturada por planos e foram colocados um dreno hipogástrico e sonda vesical via uretral de demora. Realizava-se lavagem vesical com solução bórica. No quinto dia do pós-operatório, foi fechada a sonda de demora e se esvaziava a bexiga a cada 2 ou 3 horas. No sexto dia de pós operatório, se realizou a retirada do dreno hipogástrico. Entretanto, ao oitavo dia depois da cirurgia, apresentou extravasamento de urina para o espaço perivesical, sendo reinstalado um dreno hipogástrico.(…) decidiu-se realizar no mesmo dia, às l6h, a sifonagem da bexiga (tipo de drenagem vesical)”.

Prudente de Moraes conheceu o martírio. Foi quando se licenciou da Presidência da República, instalando-se nova crise na política brasileira. A solidão e a tristeza de Prudente de Moraes tinham motivos físicos e espirituais de existirem.

O homem metódico

Em toda a sua vida, Prudente de Moraes foi um homem metódico, de hábitos morigerados. Para tudo tinha horário: para acordar, alimentar-se, dormir. Anotava praticamente tudo de sua vida econômico-financeira, numa caderneta de apontamentos da casa bancária de Pedro Alexandrino de Almeida, um dos primeiros banqueiros de Piracicaba e, também, fundador do Asilo de Velhice e Mendicidade, o Lar dos Velhinhos, transformado em Cidade Geriátrica.

Nesse documento – que ficou em posse de seu filho Antônio por longo tempo – se encontram anotações curiosas e até mesmo exageradas: pequenas despesas, como pagamentos feitos à lavadeira e o rol de roupas, ou o dinheiro que dava a filhos e netos. Era como se tivesse um livrocaixa onde tudo se registrasse: passagem de trem, dinheiro gasto nas viagens, etc.

Famoso, conhecido, respeitado, Prudente de Moraes passeava pela Piracicaba de seu tempo quase sempre só. Quando muito, fazia-se acompanhar, após o jantar, de um de seus filhos menores. Tornou-se familiar, aos piracicabanos, a figura de Prudente de Moraes caminhando solitariamente, ao por do sol, detendo- se diante de paisagens naturais. E sua distração favorita – uma das poucas – era apanhar, ele próprio, as jabuticabas de seu quintal, deixando-as em cestos para dar aos amigos.

Um traço das emoções contidas de Prudente de Moraes está no relato de seu comportamento após a morte de sua filha caçula, Terezinha. Ela tinha um cachorrinho que era seu grande companheiro. Após a morte da menina, Prudente afeiçoou- se de tal forma ao animal que os amigos estranhavam ao vê-lo deixar o cão subir-lhe nas pernas, sujar-lhe a roupa, saltar-lhe ao colo. Prudente justificou- se: “Não é ao cachorrinho que eu acarinho. É à lembrança de minha filha.”

 A vida pessoal no Palácio

Essa sua maneira de ser, Prudente de Moraes levou-a também à Presidência da República e há um registro minucioso – feito pelo jornalista e escritor Ernesto Sena e registrado por Gastão Pereira da Silva – em que se revela a intimidade de Prudente no palácio presidencial. Alguns trechos:

“O sr. Presidente da República acorda-se às sete horas da manhã e, vestindo o seu robe de chambre, tendo à cabeça um boné de seda preta, dirige- se para o seu banheiro, que fica próximo ao dormitório, logo depois da sala de toilette, onde toma um banho morno. Depois do banho, S. Exa. Bebe um copo de leite e, pouco depois, serve-se de café, que deve ser forte, rejeitando-o quando assim não acontece. Em seguida, faz a sua toilette e passa a ler os jornais, dirigindo-se para a sala de visitas, particular, de S. Exma. Esposa, onde conversa algum tempo, sempre com aquele modo frio, seco e pouco expansivo.”

No relato do escritor Ernesto Sena, Prudente de Moraes seguia a mesma rotina, todos os dias: conversava com dona Adelaide das 10h30 às 11h da manhã, almoçava, descia para a sala de despachos do Palácio, estudando documentos, recebendo ministros ou ia à sala de audiências conferenciar com pessoas de confiança. Sempre às terças-feiras, dava audiências públicas, no salão Silva Jardim, das 13 às 14 horas. Tomava um copo de leite às 13h30, uma xícara de café às 14h e permanecia na sala de despachos até às 18h. Concluído o dia de trabalho, ia até a sala íntima de Dona Adelaide e, de lá, para a de jantar. Sentava-se à mesa da cabeceira, dona Adelaide à sua esquerda e à sua esquerda, o filho Prudente. Nunca se servia de vinhos.

Prudente de Moraes, no Palácio do Catete, mantinha o hábito de andar sozinho pelos jardins, após o jantar e de conversas descontraídas com a família e eventuais visitas. Recolhia-se sempre antes da meia-noite, tomava um banho morno à hora de dormir e, em seguida, um copo de leite quente. No quarto, examinava a correspondência que recebera durante o dia e telegramas reservados.

(continua)

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