Tempos Republicanos: Piracicaba e os seus desafios

Os republicanos históricos consolidaram um estilo de governo liberal-cientificista que perdurou em toda a 1º República. Os irmãos Morais Barros ascenderam à cúpula da política brasileira, abrindo espaço para o médico sanitarista, Dr. Paulo de Morais Barros, herdeiro político do Senador (e pai, Dr. Manuel) e do Presidente (e tio, Dr. Prudente). Juntos, compuseram a famosa trindade perrepista de Piracicaba, cujos efeitos chegaram até a década de sessenta. Os monarquistas aderiram ao novo regime, apresentando-se como “republicanos conservadores” e mantendo-se sob a liderança do Barão de Rezende, até o falecimento deste em 1909. Depois, aproximaram-se do PRP (Partido Republicano Paulista) ou uniram-se ao PD (Partido Democrático), agitando as eleições nas décadas de vinte e trinta.

Ao findar o séc. XIX, Piracicaba apresentava os seguintes dados estatísticos: 2.252 prédios e 14 mil habitantes urbanos, distribuídos na área central, nos bairros: Alto, dos Alemães, da Boa Morte e do Porto. Graças à iniciativa particular do grande Luíz de Queiróz, funcionavam a Fábrica de Tecidos Santa Francisca (desde de 1896) e a rede elétrica de iluminação (inaugurada em 1893). As grandes Sociedades Beneficentes prosperavam e construíam belas sedes: a Italiana (1887), a Espanhola (1898) e a Igualitária (1893). A Sociedade Síria só surgiu em 1902.

Foi no campo da Educação que a República marcou mais significativamente o seu advento, pois Piracicaba apresentou ao país um conjunto integrado de escolas de 1º e 2º graus do mais alto gabarito: o 1º Grupo Escolar (depois, Barão do Rio Branco) e a Escola Complementar (depois, Escola Sud Menucci), esta, destinada à formação profissionalizante, professores primários; ambas instituídas em 1897. Veio a completar o grupo, a Escola Prática de Agricultura Luiz de Queiróz, funcionando desde 1901, a princípio técnica de grau médio, depois superior. O sucesso do trabalho educacional em Piracicaba projetou-se em todo o país, valendo-lhe o apelido de Ateneu Paulista (jamais Atenas Paulista), por parte o intelectual italiano Roberto Capri, em 1910 (cf. Libro D’ORO, p. 576). A escolarização que se sucedeu, graças à multiplicação da rede, nas áreas urbana e rural, vinha atender as necessidades dos diversos segmentos da sociedade, notadamente, as classes médias emergentes.

Simultaneamente, cuidava-se da infra-estrutura urbana. Entre 1899 e 1901, a cidade se achava convulsionada pela construção da rede de esgotos da qual dependia o saneamento básico, principal arma de defesa contra as apavorantes enfermidades que, periodicamente, atacavam a população: alastrim (bexigas), tifo, maleita.

Em curto prazo, Piracicaba fazia-se culta, limpa, pacífica, bela pitoresca e paisagística. Em 1909 era tida como a 5º cidade paulista em população e a 2º em Educação (número de escolas por habitante), superando Santos e Campinas. Não era apenas o Ateneu, mas “a pérola dos paulistas”, expressão de que os piracicabanos mais se orgulhavam na época. Em 1913, foi inaugurado o Matadouro Modelo e, em 1916, começaram a circular os bondes elétricos, duas novidades que deram grande prestígio à Piracicaba. Em 1917, inaugurou-se a nova sede da Escola Complementar, no Bairro Alto, o suntuoso Palácio da Educação para o Povo e, em 1922, chegaram os trilhos da Cia. Paulista de Estradas de Ferro, agilizando o progresso. Como lazer e utilidade, a sociedade adotava novos hábitos: os transportes motorizados ( hipertexto 10), o cinema e o futebol (o glorioso XV de Novembro). Destacavam-se nas décadas de 20 e 30 o pionerismo do grupo Dedini no crescimento urbano-industrial, no desenvolvimento do mercado de trabalho e no amadurecimento da consciência operária.

O ufanismo piracicabano não tinha limites durante a 1a República e sociedade nutria o maior carinho pela sua cidade. ( hipertexto 11). Entre 1930 e 1946, Piracicaba acompanhou os grandes movimentos da vida política brasileira. Graças a cana, salvou-se dos grandes estremecimentos do “crack” de 1929 e enviou os seus heróicos batalhões de soldados constitucionalistas para a Revolução de 1932. A ditadura de Vargas e o intervencionismo praticado em S. Paulo para rachar as velhas oligarquias nem sempre deu os resultados esperados. Prevalecia a força da 1a República. O grande analista da evolução político-partidária de Piracicaba, Cecílio Elias Neto, concorda que os antigos perrepistas sobreviveram ao Estado Novo, lembrando que os mesmos se reforçaram nos esquemas de ademarismo, do getulismo e do udenismo, salvo algumas exceções, até a década de sessenta, quando os esquemas impostos pela Revolução de 1964 alteraram o quadro. A redemocratização do país, na década de oitenta, abriu espaço para novas propostas ideológicas e outras definições.

Encerrando o séc. XIX com 14 mil habitantes urbanos, Piracicaba conta atualmente com 290 mil (aproximadamente), frente a um total de 302 mil, segundo a estimativa do IBGE em 1991. Estas cifras conferem ao crescimento urbano de Piracicaba um cálculo superior a 2000% nos últimos noventa anos. Este fantástico percentual implicou um processo acelerado de modernização em todo o complexo urbano, num ritmo que nem sempre correspondeu às exigências do próprio crescimento.

As crises econômicas do país acentuaram as dificuldades, geraram problemas sociais gravíssimos frutos do êxodo rural, das migrações internas, do inchaço nas cidades e do enfavelamento nas periferias. As exigências sobre os serviços públicos foram elevadas às máximas conseqüências nos últimos vinte anos quando Piracicaba passou a experimentar um aceleradíssimo processo de urbanização , já enfrentando desafios do séc. XXI.

Inegavelmente, continua bela, pitoresca e paisagística, amada pelos piracicabanos, de origem ou de adoção. Apesar dos percalços impostos à Ecologia, eles ainda se encantam com as maravilhas do seu rio e do Salto. É do consenso orgulharem-se do seu progresso, do seu parque industrial, do seu comércio diversificado, da sua rede de ensino, do seu passado, da sua bela Memória e da sua História.

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