USP: Bela História de Sucesso

Conheci a ESALQ há 40 anos quando, pela primeira vez, pisei em Piracicaba para acertar meu ingresso no segundo ano científico da Escola Sud Mennuci. Tempos depois, em 1971, deixava orgulhosamente que me raspassem o cabelo em frente o Pavilhão Central: eu havia passado no primeiro vestibular unificado da ESALQ, realizado por uma tal de Cescem, ou coisa parecida.

Junto comigo se matriculavam na querida Escola vários jovens e, pasmem, muitas moças, muitos da classe média urbana paulista. O exame vestibular, sendo realizado mais abertamente, quebrava a supremacia da oligarquia agrária, interiorana, dentro da ESALQ.

Foi assim que descobri, de verdade, que a ESALQ pertencia a um ente maior, a Universidade de São Paulo, essa maravilha do conhecimento que completa agora 75 anos. Era o início, vamos dizer assim, da “globalização” da USP, que afirmava sua supremacia acadêmica sobre sua filha mais velha de Piracicaba.

Mais tarde, militante político das lutas da juventude contra a ditadura militar, acabei indicado na chapa do Conselho de Centros Acadêmicos (CCA), entidade que substituía o clandestino Diretório Central dos Estudantes (DCE), para representar o corpo discente no Conselho Universitário da USP. Bons tempos aqueles, quando as frestas do regime autoritário começaram a rachar o sistema de poder, trazendo oxigênio à democracia.

Participei assim, com orgulho de um jovem idealista, da história da USP. Uma história que, em meio ao caminho, enlaça a ESALQ, adotando suas glórias e tradições. Crescem juntas, construindo uma história única de sucesso no ensino superior brasileiro.

Naquela época, nos anos 1970, falar em ecologia era descabido. O crescimento econômico se buscava sem limites, e a poluição era vista como o preço a pagar pelo progresso. Vinhaça, das usinas de açúcar, se atirava no rio. Pragas e doenças agrícolas morriam no BHC, terrível inseticida clorados, ou no fungicida cúprico, contaminante da natureza. O poderoso correntão, puxado pela parelha de tratores, desmatava pela frente sem dó.

Os agrônomos progressistas se mobilizaram contra o modelo predatório de agricultura que se implantava no país. Lutamos pelo uso adequado de agrotóxicos, até que os inseticidas clorados acabassem proibidos. Batemos de frente com os devastadores. Alguns subiram em árvores, outros nelas se amarraram. Coisa de maluco, mas valeu a pena. Na evolução do conhecimento científico e tecnológico, sem os desmiolados da inteligência nada anda.

Demorou, até que as idéias ambientalistas ganhassem força na Academia, modificando os paradigmas conservadores da ciência. Mas a USP foi capaz de romper seu tradicionalismo, liderando um processo de revisão de conceitos, empurrando a teoria prá frente. A conservação ambiental do país encontrou nas suas Faculdades, em várias disciplinas, o germe do novo. A cultivá-lo, sempre, estiveram os alunos, politizados, engajados, influentes, não mais reprimidos como no passado. Esse passou a ser um traço fundamental do perfil político da USP, passado o trauma do período militar: a valorização de seu quadro discente.

Nada melhor, ao comemorar 75 anos da grande Universidade brasileira, que ter sido seu aluno e, brevemente, de sua bela história ter participado. Hoje tenho o privilégio de comandar, em São Paulo, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Para enfrentar as durezas de meu ofício, valho-me dos ensinamentos que, muitos, aprendi na USP e na ESALQ. A começar da arte da política. Foi nesse berço, modestamente, que descobri suas artimanhas básicas, nos debates do Conselho Universitário e nas assembléias do Centro Acadêmico Luiz de Queiroz (CALQ).

O mais importante, todavia, reside no fundamento técnico. Sem a base de conhecimento da agronomia e da economia rural, adquiridos na ESALQ/USP, a vida profissional seria bem mais difícil. A grande diferença da Universidade de São Paulo está aqui, na qualidade do ensino e da pesquisa, na formação acadêmica séria, no respeito ao princípio ético da Ciência. Por isso pegou fama. Quem já passou pelos seus bancos garante o respeito da sociedade.

Obrigado querida USP. Parabéns. Vida longa à educação.

Xico Graziano

Engenheiro Agrônomo – Turma 1974 e Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

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