Maria do Ceo, a organista das missas da vila

Existem personagens que passam pela história de uma cidade sem que, à época, se diga algo especial ou sobre elas ou mesmo se faça a correlação de sua pessoa com fatos ou aqueles que com ela se relacionam.

Foi o que ocorreu com relação à mestra da capela de Vila Constituição, Maria Inocência do Céo. Por doze anos, como provam documentos encontrados em cartório por Jair de ToledoVeiga, a ela coube “exercer a arte da música, gratuitamente, tocando órgão em todos os domingos, dias santos e horas de missa conventual e nas missas aos sábados”.

As músicas “se constituíam em hinos consagratórios ao Deus Onipotente, abençoando sempre a dadivosa terra piracicabana”. Mas, em 1829, Dona Maria Inocência resolve encaminhar, à Ouvidoria de Itu, solicitação de pagamento pelos serviços prestados, inclusive solicitando que fossem arbitrados os valores que, à época, eram comumente estabelecidos em 30 mil réis anuais em outras paróquias. O processo recebeu parecer favorável do vigário de Constituição, Manoel Joaquim do Amaral Gurgel, em fevereiro de 1830, que confirma a participação de Maria Inocência nas missas. Com a confirmação da paróquia, naquele ano é autorizado que a quantia seja devidamente entregue à música.

Maria Inocência falece, entretanto, em 1834, e o benefício só será entregue às seis filhas que se constituem como herdeiras. No inventário, também localizado por Jair de Toledo Veiga, permanece um quadro da vida de Maria Inocência, que na verdade deixa vários bens: uma morada na Rua Santo Antonio, um terreno na praça principal, jóias as mais variadas, salva de prata, peças de pedras preciosas, colcha de Damasco, roda de fiar, vinte e uma formas de fazer velas e um pequeno órgão, certamente seu objeto de trabalho e prazer.

Para Veiga, “vê-se pelos bens materiais, quão cuidada, fina, impecável a sua educação doméstica e, a se refletir pelos apetrechos de feitura de velas, fortalecido o seu sentimento religioso, cuidando do suprimento necessário aos ofícios da Igreja, onde certamente era mais que mestra da capela”.

Ela deixara nove filhos, embora silenciando no texto do testamente sobre quem seria o pai. Segundo ela, sem que o nomeasse, “todo o seu patrimônio viera pelo pai das seis filhas”. A outro varão, pai de outros filhos, ficara a recriminação de tê-la “lançado num eterno esquecimento, sem lembrar-se de ajudá-la em coisa alguma”.

Mas o que existe de tão especial em Maria Inocência do Céo? Nascida em Santa Rita, Minas Gerais, seus documentos indicam ser ela divorciada judicialmente de Manoel José Gomes, de quem não teve filhos, dele tendo se separado por incompatibilidade de gênios, expressão já adotada àquela época. Manoel José Gomes era ninguém menos que um consagrado

músico de Campinas, que lecionava piano, órgão, canto e violino naquela cidade. E que seria mais tarde o pai do compositor Carlos Gomes, o célebre autor de “O Guarani.

Foto: Manoel José Gomes, pai de CArlos Gomes, em reprodução do livro “Retalhos da Vellha Campinas”, de Geraldo Sesso Júnior.

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