Maria Renotte

Na área médica, há alguns anos a figura de Maria Renotte vem sendo reconhecida e homenageada nacional e internacionalmente. Em Piracicaba, embora sua atividade tenha se voltado prioritariamente à educação, somente a partir de 2001, quando o Colégio Piracicabano alcançou seus 120 anos de atividades, a figura e o trabalho pioneiro da belga Jeanne Marie Renotte começaram a ser recuperados.

Como seria uma feminista naqueles anos de 1880? É na trajetória de Maria Renotte que, talvez, se possa melhor expressar uma luta absolutamente distante dos padrões das mulheres brasileiras. Nascida em Liége em 1852, formou-se professora em Paris e, aos 26 anos, chegou a Piracicaba para trabalhar no Colégio Piracicabano. Ousadia era talvez o que melhor definisse seu papel na nova escola que surgira pela mão de missionárias metodistas americanas em 1881: Maria Renotte fora contratada como mestra de matérias científicas para meninas, numa época em que as mulheres sequer tinham acesso garantido à educação formal. Para ela, entretanto, parecia pouco: Maria Renotte queria abrir espaços para as mulheres e, para tanto, servia-se de todos os instrumentos que tinha à mão, inclusive jornais locais e a revista “A Família”, ao lado das principais escritoras do país. É possível supor que sua influência tenha sido muito grande sobre as alunas ensinando-lhes zoologia, mineralogia, física e ciências. Afinal, documentos garantem que a orientação pedagógica do Colégio, que passava a ser reconhecido por suas inovações em toda a Província – com a adoção do sistema de coeducação, a utilização do método intuitivo no ensino da matemática, a introdução do jardim da infância – , não vinha apenas através da fundadora Martha Watts, mas, também, pela influência de Maria Renotte.

A jovem, entretanto, parecia querer muito mais. Foi em companhia de Martha Watts que Maria Renotte se transferiu para os Estados Unidos, formou-se médica, aos 40 anos, especializou-se em Paris e, em 1895, para validar seus estudos no exterior, defendeu, junto à Universidade Nacional, no Rio de Janeiro, tese denominada “Influência da educação da mulher sobre a medicina social”, onde criticava as exigências da moda da época, como o uso de espartilhos, de efeitos prejudiciais à mulher, assim como a responsabilidade dos médicos homens em deixarem as mulheres em completa ignorância sobre sua própria anatomia. “Ignorante da forma natural do corpo humano e das leis de seu desenvolvimento, as mães vestem as entulhadas”, criticava ela.

Teve, então, uma trajetória ascendente. Dirigiu a Maternidade de São Paulo, garantindo novo atendimento às gestantes; foi encarregada pela Sociedade de Medicina e Cirurgia de viajar a Europa e estudar como organizar a Cruz Vermelha no Brasil; trabalhou com Arnaldo Vieira de Carvalho na Santa de Misericórdia de São Paulo, onde viabilizou a primeira escola de formação de enfermeiras no país. Foi professora da primeira turma, formada em 1914, e anos mais tarde, com a I Guerra Mundial, passou a oferecer um curso especial de preparação de voluntárias. Em 1915, fundou a secção brasileira da Cruz Vermelha, tornando- se sua primeira presidente.

Ainda era pouco. E Maria Renotte dispôs-se a trabalhar para fundar um hospital que se voltasse exclusivamente a crianças . Com campanhas feitas através dos grandes jornais e buscando pessoalmente donativos entre a elite paulistana, conseguiu criar o Hospital de Crianças de Heliópolis, que funcionou até 1980.

Apesar desta imensa atividade, Maria Renotte retornou a Piracicaba aos 83 anos, para receber homenagens do Colégio Piracicabano. À Instituição, doou a maior das condecorações recebidas em sua existência, a medalha da Cruz do Mérito, concedida pela Alemanha, ao final da I Guerra Mundial, por seus esforços humanitários durante o conflito. Morreu em 1942, em São Paulo, aos 91 anos cega, sem recursos, dependendo de pensão do governo para se sustentar.

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