Mário Neme

Mário Neme é um nome que soa quase familiar àqueles que, de algum forma e em algum tempo do século passado, buscaram pesquisar a história de Piracicaba. Mas o historiador, que se voltou realmente à análise de sua terra, fez muito mais do que isso. Jornalista, cronista que chegou a ser comparado, em qualidade, a Mário de Andrade, Mário Neme ainda foi um dos responsáveis, durante anos, pela Revista do Arquivo Municipal de São Paulo e diretor do Museu Paulista, até 1977.

Uma das melhores sínteses biográficas de Neme foi publicada no livro “Piracicaba de outros tempos”, de Samuel Pfromm Netto. São dele as informações que se seguem e que desenham a personalidade deste piracicabano ainda pouco reconhecido pelos acadêmicos e pelas gerações mais novas.

Mário Neme nasceu em Piracicaba, em 2 de maio de 1912, descendente de libaneses de origem modesta. Sem recursos, passou por várias escolas, foi bedel da Escola Agrícola, obteve aprovação como guarda-livros prático em Limeira. Mas desde adolescente, gostava mesmo era de escrever em jornais: primeiro na Gazeta de Piracicaba, depois, já na capital, no Correio de São Paulo, Revista São Paulo, Última Hora, Jornal da Manhã, para fixar-se, então, por mais de 30 anos em “O Estado de São Paulo”, assinando artigos polêmicos, participando de debates, trazendo opiniões, ao lado de vários outros intelectuais piracicabanos que atuavam no jornal. Nos anos 30, tendo sido aprovado em concurso municipal, passou a responder pela Revista do Arquivo Municipal e fez parte dos fundadores de duas outras publicações, Planalto e Clima, esta última, revista que tinha entre seus redatores Antonio Cândido, Alfredo Mesquita, Clóvis Graciano, Walter Levy, entre outros.

À época do movimento modernista, ainda muito jovem, Mário Neme chegou a escrever uma peça teatral, “Pequenos serviços em casa de casal”, mas foi como cronista que ganhou o reconhecimento e a fama. Dois de seus livros, editados em 1941, “Mulher que sabe latim…”e “Donana sofredora”, receberam críticas lisonjeiras como as de Sérgio Milliet, apontando-o “como um dos melhores de sua geração”. Em seu “Diário Crítico”, como recupera Samuel Pfromm Netto, Milliet coloca Mário Neme ao lado de Mário de Andrade, Antonio Alcântara Machado, José Lins do Rego, Jorge Amado, Osvald de Andrade, Graciliano Ramos, destacando-o entre os melhores de literatura brasileira por “seu papel ousado e decisivo na elaboração e promoção de uma língua literária legitimamente brasileira”.

Já como historiador, Neme deixou várias obras, muitas delas voltadas à sua terra natal, como “Piracicaba, documentário” (1936), “Piracicaba no século XVII” (1938), “Um município agrícola- aspectos sociais e econômicos da organização agrária de Piracicaba” (1939), “Fundação de Piracicaba” (1940), “História da fundação de Piracicaba” (1943). Publicou, ainda, “Notas de revisão à história de São Paulo”( 1959), “Fórmulas políticas do Brasil holandês”(1971). Após sua morte, embora ainda inacabado, foi publicado o ensaio “Apossamento do solo e evolução da propriedade rural da zona de Piracicaba” (1974).

Como diretor do Museu Paulista, Mário Neme buscou novas concepções de museologia: “adquiriu acervos e coleções, fez microfilmagens de documentos preciosos encontrados em arquivos portugueses, dinamizou pesquisas, realizou promoções culturais, trabalhou para preservar fontes primárias de nossa história”. Reiniciou, ainda, a publicação dos Anais do Museu Paulista e iniciou uma nova série, Coleção Museu Paulista. Sob sua administração, o Museu Paulista foi transferido da Secretaria da Educação do governo de São Paulo, para a Universidade de São Paulo, em 1963.

Mário Neme faleceu em 1973, aos 61 anos, em plena atividade. Praticamente todas as suas obras encontram-se esgotadas.

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