Miguelzinho Dutra, o grande esquecido

Como se isso fosse um destino — “ninguém é profeta em sua própria terra” — as cidades nunca fazem justiça a seus filhos mais talentosos. Piracicaba não foge a essa regra. Por isso, o maior de nossos artistas, o Miguelzinho – Miguel Arcanjo Benício d’Assunção Dutra – é o nosso grande esquecido. Nem a Avenida Beira Rio – que leva o seu nome – faz com que ele seja lembrado. É, apenas, a Avenida Beira Rio, quando seria uma lembrança permanente se nós a chamássemos de “Avenida Miguelzinho”.

É impossível referir-se a Miguelzinho fazendo-lhe justiça, pois sua dimensão de homem e de artista extrapola o que a imaginação supõe e o que sua obra deixou. . Nascido em Itu, em 15 de agosto de 1810, Miguelzinho viveu grande parte de sua vida em Piracicaba, aqui morrendo em 22 de setembro de 1875, sepultado na Igreja da Boa Morte. Foi ele o criador da primitiva Igreja da Boa Morte, da de São Benedito, da antiga Matriz de Santo Antonio, da primeira Santa Casa e do antigo Teatro. Criou, também, um Museu Ornitológico.

O jornal “O Piracicabano” – conforme referência no livro “Miguel Dutra”, editado pelo MASP, apresentação de Pietro Maria Bardi – dá um perfil de Miguelzinho, em sua edição de 22 de setembro de 1896, recordando a memória do artista: “Está anda na memória de todos o que foi Miguelzinho, e os relelvantes serviços que durante 30 anos prestou a esta terra. Ativo, inteligente, tab lahdor, era versado em quase tudo: bom ourives, pintor, escultor, arquiteto, bom músico, exceltne organista; bom latinista, versado em teologia, reunindo a todos estes dotes a mais fina educação. O seu culto, porém, mais fervoroo, o seu fanatismo, era a caridade. Que o digam os pobres, cujas lágrimas vivia a enxugar!” (Ilustração: Em Piracicaba, aquarela sobre papel, 17×11.5cm, ´Cego com criança´, 1845.)

O historiador Affonso de Taunay disse dele: “Pintor de raça, foi, talvez, o homem que mais pintou no Estado de São Paulo.(…) Ativo, inteligente, trabalhador, bom músico, excelente jornalista, escultor, pintor, arquiteto, bom latinista, versado em teologia, reunindo a esses dotes a mais fina educação, não é de admirar que sua intuição artística se manifestasse irrequietamene curiosa.”

No Masp, uma plaqueta em sua homenagem, traz os versos do jornalista Osório de Souza, flautista, um dos fundadores do Diário de Piracicaba, nascido em Capivari mas atuante em Piracicaba:

“Viver sonhando foi a tua sorte/ morrer sorrindo foi a tua morte!/Se morte pode haver a quem na vida/ primaveras semeou de luz e de Arte/ estas eternamente irão levar-te/ a palheta de auroras guarnecidas.”

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