Piracicabanos brilharam na Academia Paulista de Letras

Fundada em 1909, a Academia Paulista de Letras,ao longo de sua história, abrigou entre seus membros vários intelectuais de Piracicaba ou ligados a esta região. Raimundo Menezes, em obra denominada “História pitoresca de 40 cadeiras” ( Hucitec, 1976) registrou de forma curiosa dados biográficos de alguns dos primeiros ocupantes da Academia, assim como de seus sucessores.

Entre os fundadores da Academia encontra-se Brasílio Machado (autor do poema “Piracicaba”), que chegou também a presidi-la, entre 1909 e 1919. Ocupandoa cadeira 1, cujo patrono é o Brigadeiro Machado de Oliveira, teve, entre seus sucessores, o próprio filho, Alcântara Machado, este, piracicabano. ( A biografia da família está relatada no caderno Gente Nossa, de A Província.com)

Outros piracicabanos também mencionados no trabalho são o jornalista Léo Vaz, que ocupou a cadeira 14, cujo patrono é Martim Francisco; o educador Sud Menucci, que ocupou a cadeira 15, cujo patrono é Luís Gama; o folclorista Alceu Maynard de Araújo, que ocupou a cadeira 30, que tem Diogo Feijó como patrono. Há menção, ainda, ao poeta de São Pedro, Gustavo Teixeira, ocupante da cadeira 10, que teve como patrono Cesário Motta Jr.

Reproduzimos abaixo, alguns dos trechos do livro de Raimundo Teixeira, sobre os acadêmicos da região:

 “Caso do monóculo

Léo Vaz, quando estudante em Piracicaba, fazia questão de manter uma elegância bem parisiense. Usava polainas de feltro, mantinha o friso da calça impecável, o jaquetão irrepreensível, os sapatos muito bem polidos. Nesse ponto, na elegância, Léo tinha um companheiro em Sud Menucci, então seu colega na mesma escola.(Que se tornou a Escola Sud Mennucci, em Piracicaba.) Ambos eram autênticos dandies. Todas as tardes, viam as moças piracicabanas os dois passearem pelo jardim do Largo da Matriz, muito pausadamente.

Certa vez, alguém lembrou – conta-nos Silveira Peixoto – que a moda em Portugal era usar monóculo. Eça Ramalho e tantos outros, que na ocasião faziam furor, não dispensavam esse apetrecho. Sud Menucci propôs a que ambos usassem uma rodinha de vidro em um dos olhos. Aquilo escandalizaria Piracicaba inteira… Léo replicou que Sud não teria coragem para isso. Este embarcou no mesmo dia para São Paulo só para comprar um monóculo. No dia seguinte, Sud apareceu em Piracicaba com o monóculo no bolso. Léo encontrou-o:

– Como é? Que é do monóculo?

E Sud, meio sem jeito, exibiu o tão discutido apetrecho.

– Eu não disse que você não tinha coragem para usá-lo? Passe para cá. Perdeu a aposta…

Nessa tarde, Léo Vaz deixou Piracicaba inteira boquiaberta, ante o monóculo que reluzia no seu olho esquerdo… Abusou tanto disso que, dizem, foi obrigado a usar óculos.”

“Aves agoireiras

No tribunal de júri de São Paulo, Brasílio Machado defendia um réu. Os debates haviam atravessado a noite. Amanhecia, quando o juiz deu a palavra à defesa para a tréplica. Brasílio se levantou. Acintosamente, o advogado de acusação, que era seu inimigo pessoal, ergueu-se também e se retirou do recinto a passos largos e compassados. Mal havia ele transposto os umbrais da porta, o defensor iniciou a tréplica:

– Vai raiando a madrugada. É tempo em que as aves agoireiras se recolhem a seus antros…

Houve sorrisos no auditório.”

“Zarolho como Camões

Alcântara Machado encontrou- se na rua com Humberto de Campos, que saía de consultório médico, quando ouvira a sentença dolorosa de que, em breve, ficaria cego da vista esquerda. Consolava-se com o pensamento voltado à desdita idêntica que afligira Camões, que, apesar de tudo, lograra produzir sua obra poética. Contou ao confrade a sua angústia, ao que o autor de Vida e Morte do Bandeirante revelou- lhe este segredo pouco conhecido:

– Dois olhos para o Brasil são muita coisa, meu velho.

E baixando a voz:

– Eu só tenho sadio o direito. O esquerdo serve-me apenas de companhia. Se me privassem do olho direito, estaria cego!”

“Pinche um cigarro

Amadeu Amaral impôs-se o encargo de reeguer a Academia Paulista de Letras. Isso aconteceu quando assumiu a presidência da entidade. Convidou, então, alguns intelectuais de São Paulo a ingressarem no cenáculo. Entre os convidados, incluiu Léo Vaz, que, só depois de muita relutância,aceitou.

Dias depois, realizou-se uma sessão na Academia. A instâncias de Amadeu, Léo compareceu. Os trabalhos revestiam-se de solenidade. A dado momento, um dos presentes consultou a presidência se poderia fumar. A discussão generalizou- se: uns a favor, outros contra. Foi o bastante para que Léo se levantasse. Tinha achado aquilo muito solene, avesso ao seu modo de ser.

– Senhor presidente, peço a palavra…

– Com a palavra o confrade.

– Senhor presidente, pinche um cigarro aqui para mim….”

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