Casa de ferreiro, espeto de pau

Para minha geração, tornou-se uma obviedade dizer ter sido alfabetizada “lendo o Estadão”. O grande jornalão paulista, mais do que centenário, faz parte da história deste país, com sua atuação sempre polêmica, controvertida mas respeitada. Lembro-me que, sentado nos joelhos de meu pai, eu o ouvia ler em voz alta, explicando-me o que acontecia. E, mais ainda, lembro-me de uma lição paterna que segui pelo resto da vida: ler jornais de tendências diferentes. Pois meu pai, além do “Estadão”, assinava também o “Diário de São Paulo”, do Chateaubriand. E, em Piracicaba, era assinante do Diário de Piracicaba e do Jornal. “Leio opiniões diferentes para saber como pensar direito.” – dizia-me o sábio Tuffi.

A lição era a de que o mesmo acontecimento poderia ser interpretado diferentemente, conforme a ideologia, pontos de vista e, até mesmo, interesses políticos ou comerciais. Faço isso, ainda hoje, com jornais e revistas, com o olhar, porém, de jornalista veterano e experimentado que já consegue ler nas entrelinhas, que já percebe a tendência a partir das manchetes. Ora, ao longo da vida, assinei e li o possível e imaginável. Cancelo jornais e revistas, como já o fiz com Veja, Folha, outras publicações. Mas ao “Estadão” continuo sendo fiel, pois é o jornal a partir do qual estabeleço referenciais. Explico-me a seguir.

O “Estadão” tem uma definição ideológica pétrea. Não muda, pelo menos desde que o leio, na longa infância. Sabendo disso, preciso ler o “Estadão” para formar minha opinião quase sempre diferentemente daquilo que o jornalão pretende. Assim, se o”Estadão” está a favor de Serra, meus neurônios se movimentam automaticamente para me levarem a raciocinar de maneira contrária: em oposição a Serra. Da mesma maneira, se o “Estadão” está contra Lula, meus neurônios sabem que precisam se organizar para entender que Lula está fazendo coisas boas. É algo esquisito, mas que pode soar assim: “Tudo o que é bom para o Estadão não é bom para o Brasil.”

Ultimamente, ando divertindo-me, quase que um novo esporte: telefonar para o “Estadão”, ao serviço de atendimento aos assinantes, e reclamar contra a entrega. Abro um parêntese: peço que o leitor, em hipótese alguma, acredite estar, eu, usando esta coluna para interesse próprio. Não uso desta prática. Estou, apenas, tratando de fatos para ilustração de raciocínio. Pois, há uns oito meses, reclamo, discuto, protesto pelo fato de “Estadão” nunca chegar à minha casa em horário certo. Ou melhor: sempre após as 9 horas, quando já vi, na internet, tudo o que eu precisava ver. Esse, aliás, outro grande, imenso problema: os jornais impressos parecem não entender que a internet vai mudando tudo, com rapidez estonteante. De qualquer maneira, preciso do “Estadão” para o meu exercício diário de raciocinar ao contrário.

Parece, no entanto, ser uma luta inglória, a minha. A turma do “Estadão” não consegue, por mais eu proteste e discuta, entregar, em horário honesto, o meu exemplar, um só exemplar, um único exemplar, o meu. No entanto, o “Estadão”, diariamente e incansavelmente, dá lições a Lula de como administrar o Brasil, de como se portar no relacionamento internacional, de como resolver os problemas econômicos. O “Estadão”, é isso que estou querendo dizer, resolve, na teoria, todos os problemas do Brasil e do mundo, ousando dar lições até mesmo para Obama, para a China. E, no entanto, não consegue me entregar em horário honesto o meu humilde exemplar. Conserta o mundo e não cuida de um assinante. Confirma-se: casa de ferreiro, espeto de pau.

Quem sai perdendo sou eu. Pois, sem saber o que o “Estadão” pensa, eu fico sem elementos para pensar ao contrário. Bom dia.

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