Ártemis: o coração da deusa solitária

Surpreendi-me, dias destes, a evocar deusas. Injustas, egoístas e tremendamente vingativas, cada qual à própria maneira protege seus aliados com garras e dentes.

Pois é, numa dessas deparo-me com Ártemis: uma das três divindades na Roda das Deusas com as quais o patriarcado teve dificuldades. As outras foram Afrodite e Perséfone. Afrodite por seu Eros incontido, Perséfone por seu gênio visionário, e Ártemis por sua energia indomável. As três, transformadas em bode expiatório pela fantasia paranóica masculina da bruxa, foram perseguidas na Idade Média.

Ártemis sobreviveu razoavelmente bem nas sociedades rurais, onde podia guardar para si seus segredos. Andrógina, ou seja, ao mesmo tempo feminina e masculina, possui em sua constituição aquelas qualidades masculinas que todas as outras deusas, exceto Atenas, projetam sobre os homens e concedem a eles.

Seu verdadeiro relacionamento é consigo mesma; ela deve encontrar seu próprio equilíbrio interior de masculinidade e feminilidade. Por isso é que, numa de suas formas, a mulher Ártemis pode facilmente viver sozinha, como mística contemplativa, ou artista reclusa. Quando “o mundo está demais conosco”, nas palavras de Wordsworth, um poeta com muito de Ártemis, o espírito contemplativo da deusa clama por renovar-se na solidão e no discurso interior, não exterior. A mulher Ártemis sabe disso instintivamente, mesmo que seu destino contemporâneo a tenha colocado numa cidade, obrigando-a a desenvolver algumas habilidades extrovertidas. Mais cedo ou mais tarde, ela encontrará um meio de retirar-se para alguma cabana, alguma fazenda ou ilha – onde quer que o espírito agreste a chame. Em solidão, ela recupera a profunda e inexprimível dimensão da sua alma, que se reflete na atividade silenciosa dos animais, no vôo dos pássaros, no ir e vir do mar, no drama baldio do sertão, na majestade do cume das montanhas.

Para o homem, o relacionamento com uma mulher Ártemis pode ser grande desafio. Para começar, ela pode rejeitar bruscamente qualquer intimidade (mas não sexo), deixando-o sem saber o que pensar. Ou, mais perturbador ainda, sua auto-suficiência e dureza podem provocar nele vislumbres pálidos da Caçadora da antigüidade. Guerreira tímida e recatada só se dá àqueles que têm olhos de ver e ouvidos de escutar. Solitária, não perdoa ver sua intimidade banalizada. O homem que desejar conhecer a verdade nua da mulher Ártemis tem que estar preparado para conhecer a vida e a morte, a beleza e a crueldade. Quando a encontra no mundo civilizado de Apolo, símbolo da luz, da razão e da moderação, ela mostra o lado belo e enlevado da sua natureza; mas se ele busca no âmago da floresta, acha-a como “natureza, rubra em dentes e garras”.

Se um homem penetrasse completamente nos mistérios de Ártemis, adquiriria o que só pode ser chamado de consciência dionisíaca, exigindo, dele, tornar-se andrógino e superar seu terror diante da Mãe da Morte. Igualmente, a mulher que penetrar fundo nesse lado da sua natureza artemisiana precisará reconhecer o poder primitivo da sua sanguinolência e o efeito que pode ter sobre um homem.

*Elaine de Lemos é psicanalista

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