Deméter, mãe de todos

O que haverá de tão singular no carinho materno de Deméter? Afinal, lá está ela rodeada de crianças, com os bebês agarrados nela como a uma árvore robusta, fazendo e distribuindo pão com manteiga, café com leite e bolo de fubá; sabendo onde estão as fraldas; cuidando dos joelhos esfolados; passando a noite inteira acordada cuidando da febre de um filho; enfim, com reservas aparentemente inesgotáveis de energia.

Na mitologia das deusas, a mulher Deméter é a mãe, mas ela é mais do que uma mãe biológica. Não é ter filhos que faz uma verdadeira mãe, e sim uma atitude, uma maneira instintiva de cuidar de tudo o que é pueril, pequeno, carente e sem defesa. O amor de Deméter é uma forma totalmente dedicada e generosa de doação e acalento que todos nós reconhecemos quando dizemos carinho de mãe.

Embora esteja constantemente doando para os filhos, para o marido e para toda amiga desgarrada que estiver perambulando pela vizinhança, ela nunca parece se cansar ou pensar em si mesma. Diferente das outras deusas, na maneira de sentir-se mãe, deixa-as sem compreender o inacreditável poder do sentimento profundamente instintivo e natural de plenitude que há em tudo o que Deméter faz. Não se trata da plenitude do ego que Atena e Hera talvez compreendessem, nem da satisfação espiritual que Perséfone conhece, mas de algo bastante desconhecido de todas elas.

Afrodite, por exemplo, é uma mãe sensual que adora vestir os filhos, mimá-los com gostosuras e ir com eles ao cinema. As mães Ártemis têm uma meiguice meio selvagem e tratam os filhos como filhotes de fera; Atena mal pode esperar que os seus aprendam a falar e possam se expressar, para conversar com eles e estimular a sua educação e aprimoramento mental. Perséfone também é profundamente envolvida com os filhos, mas de maneira mais psíquica e intuitiva do que em termos do bem-estar físico deles. A mãe Hera é tão cheia de regras, censuras e expectativas que resta pouca ternura na sua maneira de criar os filhos.

Na Grécia antiga, Deméter era a Deusa Mãe proeminente e tinha a função especializada de presidir sobre todas as formas de reprodução e renovação da vida, especialmente da vida vegetal. É a deusa da fecundidade, da fertilidade e da regeneração. O símbolo principal de Deméter era o feixe de trigo. De acordo com a tradição antiga, a Grande Deusa era sempre tríplice, sua triplicidade podia ser vista na lua crescente, cheia e minguante – e no fato de ela reger o mundo superior, a terra e o mundo inferior. Em termos humanos, ela era a Donzela, a Mãe e a Anciã.

Deméter se vê como uma donzela virginal em sua filha Perséfone. Correspondendo a cada fase tradicional do ciclo estão três grandes perdas vividas por toda mulher que tem filhos, e especialmente por toda mulher que tem uma filha.

Primeiro, ao entrar na puberdade, a jovem tem que sofrer a perda de sua inocência infantil; esta é a “morte da donzela” interior que toda mulher vivencia em maior ou menor grau. Esta fase é simbolizada pela flor.

Segundo, existe a perda que a mãe sofre quando a filha é tomada em casamento ou deixa o lar para sempre. A partida de uma filha querida é sempre uma experiência dolorosa cheia de angústia, como toda mãe sabe. Quando todos os filhos deixarem o lar, ela poderá sentir a chamada depressão do “ninho vazio”. Esta fase é simbolizada pelo fruto maduro.

Terceiro, existe uma perda biológica que toda mulher sofre na menopausa, quando não pode mais gerar filhos. A fase fecunda da vida ficou para trás, e uma certa tristeza é pertinente. Todavia, depois de bem atravessada, esta perda pode tornar-se um rito de passagem de iniciação na sabedoria madura da mulher idosa, que os antigos designavam como anciã. Esta fase é simbolizada pela semente.

Algumas mulheres, identificadas que são com os valores patriarcais, acabam, desgraçadamente se alienando de sua verdadeira natureza feminina. As chagas maternas então, provém em parte do fato de ela ter perdido contato com os mistérios de Deméter e Perséfone. Esses mistérios remetiam outrora à Unidade e amor primordiais entre mãe e filha, e a solidariedade entre mulheres que remonta à plenitude atemporalidade da consciência matriarcal.

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