Paraíso perdido

No início era o Caos e, uma nova ordem haveria de ser estabelecida. Um amigo escreveu que a Trindade é importante, uma vez que seria preciso mais de um para dialogar, para não ficar muito chato um “eterno falar sozinho, de si para si”, referindo-se a Deus diante do nada.

Tentando seguir a idéia do paraíso criado, não agüentei e cá estou eu, morrendo de vontade de divagar diante do paraíso de Deus. O Deus que eu imagino tenha criado o paraíso estava sentado no trono diante do caos e reinava absoluto naquele Nada caótico. Sentindo-se um tanto inútil ali sozinho e, principalmente, porque o tédio do trono e da coroa sem súditos dava uma sensação nosense, resolveu transformar caos em arte.

Gaia – a Terra – foi a primeira arte de um Deus entediado. Não acho, como meu amigo, que a Trindade tivesse surgido antes da Terra, mesmo porque creio que a criação deva ter sido extremamente solitária.

A arte de Deus em sua solidão fez surgir o Paraíso: Inventou a água, que inundou a terra de rios e mares; as matas; os bichos; as flores e todas as cores. Maravilhado diante da beleza da criação, percebeu-se contemplativo. Ele deve ter ficado muito tempo contemplando o belo que fora capaz de criar. A harmonia reinava e ele já não estava mais diante do caos. Mas logo foi ficando de novo entediado e deve ter sido dele a frase mais tarde plagiada por Goethe: “nada mais entediante do que uma sucessão de dias belos”.Aquele imenso jardim, que chamou de Éden era lindo, perfeito, mas ele começava a se mexer no trono novamente, incomodado com aquela pasmaceira perfeita que é um jardim e todo seu esplendor.

E ele pensava, eu acho: “Ué, isso tudo é tão maravilhoso e ainda assim sinto que falta algo. Já sei: carne e alma, capazes de, juntas, formar algo que possa pulsar e espalhar mais energia de vida!” Então, da terra e da água, e, tomado novamente pelo frenesi do artista, começou a esculpir. E eis que daí viu surgir pelas suas mãos de Deus a mais bela arte da criação, algo que mais tarde se chamaria humanidade. Fez o homem, e como tudo que é tocado por Deus é perfeição, nada no homem criado estava fora do lugar. Ele estava pronto para enxergar o paraíso e, ainda mais sentir o calor do sol na pele, ouvir o canto dos pássaros e o bater das ondas na rocha, caminhar pelas praias, sentir todos os gostos, enfim, a imagem e a semelhança do próprio Pai, que o havia criado com as próprias mãos.

E o homem viveu assim, e Deus sentia-se mais Deus através das sensações que criara para o seu filho único. Passaram-se anos e, de novo, o trono de Deus não o cabia mais, tornara-se pequeno, cutucava para que ele fosse dar outra voltinha pelo paraíso, pois o homem criado, que tudo podia, estava triste. Interrogado pelo Pai ele falou: É tudo muito lindo mas sinto falta de algo e não sei o que é. Então, como Deus é Deus e sabe tudo, percebeu imediatamente aquele “não-sei-o-que-é” dito pelo filho. Imediata e euforicamente começou outra escultura. Esculpiu um corpo delicado – que chamou mulher – tendo cuidado que ela pudesse receber em seu corpo e com a sua alma, o homem a quem Ele, o Pai, a entregaria.

Deus sorriu diante de sua última arte. Acho que ele sabia que a partir de então não haveria mais tédio, pois aquela figura chamada mulher haveria de dar tanto trabalho para esse seu homem que o manteria ocupado por muito tempo. E foi então que Deus pôde, realmente, assumir seu papel de Deus, pois era alimentado pelo amor e pelo gozo que, homem e mulher, juntos, puderam experimentar.

Acho mesmo ter sido a maior de todas as obras divinas. Por isso, homem e mulher apaixonados têm o olhar – um para o outro, e ambos para o mundo – divinizado. Quando um homem ama uma mulher ele a vê em sua essência de Deusa, filha do Criador, e a mulher quando ama o homem também o vê em sua essência de Deus, filho do Pai. O amor colocado ao alcance de homem e mulher, abençoado pelas mãos do artífice maior, faz com o paraíso seja vivenciado. Toda criação anterior foi dada de presente ao homem e à mulher, mas havia uma condição: Para poder sentir toda a beleza, seria necessário amar.

De nada valeu o jardim – o Éden – nem para Deus, nem para o homem, sem a presença da mulher, que veio para ser amada, e veio com útero para germinar o amor, para povoar o mundo e ser feliz.

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