A cidade de Rocha Netto

Delphin Ferreira da Rocha Netto nasceu em Itu em 9 de junho de 1913, mudando-se para Piracicaba em 1918. Aos 89 anos, mantém vivas suas lembranças de fatos, datas e “causos”. Conhecido nacionalmente pelo seu arquivo sobre o futebol, principalmente sobre o XV, Rocha Netto foi uma das memórias vivas do dia a dia de Piracicaba.(Essa entrevista data de 2003.)

“Minha Piracicaba preferida era a da década de 20 e 30. Nós morávamos na rua Carlos Botelho, mas não onde hoje existe a atual avenida com esse nome. A Carlos Botelho original era a rua que passava em frente a Igreja dos Frades e que, depois, a pedido dos religiosos, teve seu nome trocado para rua São Francisco, que permanece até hoje. Os bairros Paulista e Paulicéia eram mato. Muito mato. E a nossa diversão era ir ao cinema, ao circo e a jogos de futebol.”

Rocha Netto recorda-se que a grande atração dos circos eram os animais, muitos animais. E, para mostrar como a cidade mudou, o local onde os circos se instalavam ficava na rua Governador Pedro de Toledo em frente à Igreja Metodista. Portanto, ao lado do Mercado Municipal. Aposentado como fiscal de rendas, Rocha Netto lembra com saudade da sua Piracicaba preferida:

“Era uma cidade simples com um cotidiano também simples, como muitas do interior. Nós íamos muito ao cinema. Havia, primeiro, o Cine Íris (ao lado do atual Bingo Broadway, onde hoje é o edíficio Bandeirantes, na rua São José), o Polyteama, o Broadway (no local onde está o Bingo com o mesmo nome) e o Teatro Santo Estevão, que também projetava películas. Antes da matinê, era comum tomar um refrigerante na Praça e comprar pipoca. Nós íamos ao cinema aos domingos e mantínhamos uma rotina: acordávamos cedo para ir à missa, depois almoçávamos e tínhamos, como obrigação, ir ao catecismo após o almoço. Apenas depois disso, estávamos liberados para ir ao cinema, na matinê”, lembra Rocha Netto.

Todos os grandes filmes eram projetados em Piracicaba, porém as recordações mais vivas de Rocha Neto são da exibição dos seriados dominicais. “Ir ao cinema era uma acontecimento social. As pessoas, para assistir a um filme, iam com quase a mesma roupa com que participavam da missa. As mulheres iam bem vestidas e os homens de terno e gravata.”.

Após o filme, a maioria dos jovens participava do “footing” na praça central ou, então, “quadrando jardim”. No “footing”, na “Calçadinha de Ouro” (em frente ao antigo Cine Politeama, onde atualmente funciona o Banco Bradesco) as moças iam e vinham, os rapazes ficavam olhando, dando sinais.

“Para ‘quadrar jardim’, nós, rapazes, andávamos em um sentido e as mulheres em sentido contrário. Essa era a dinâmica. E foi a partir da ‘Calçadinha’ que muitos casamentos se deram e muitas famílias foram formadas. Não dá para contar os casais que se conheceram durante os passeios na praça e viveram toda umavida juntos”, relembra Rocha Neto.

Na área gastronômica, já a partir dos anos 50, o mais importante local era o Restaurante do Mirante, onde famílias se reuniam para saborear um peixe. “Não havia tantos restaurantes como hoje. O Mirante era um ponto de referência na cidade. Era um passeio ir até o Rio Piracicaba e almoçar ou apenas contemplar o salto com toda a sua beleza”.

É a Piracicaba que ficou nas lembranças de Rocha Netto.

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