Bolão: o gogó de ouro da cidade

Na carteira de identidade ele é Antonio Carlos Fioravante, mas confessa que se alguém o chama assim demora para atender. Ele é Bolão mesmo, como ficou conhecido em qualquer seresta. E seresta em Piracicaba sem o Bolão não tem tanta graça. “Piracicabano com a graça de Deus”, como se define, aposentado aos 64 anos, Bolão diz que teve “a sorte” de se dedicar à música apenas como hobby, pois assim a paixão pelas canções românticas não se misturou com dinheiro. Casado há 37 anos com Tereza, pai de Marcelo, Luciano e Luciana – “só a caçula gosta de seresta”, conta – Bolão diz que aproveita a vida e até acha esquisito pensar em terceira idade. Na Brasserie, restaurante pra lá de tradicional onde sempre se encontra com os amigos, Bolão conversa com A Província On-line, se diz satisfeito porque a cidade valoriza seu estilo musical, mas ao mesmo tempo não é tão otimista. “A seresta tende a morrer pois não há renovação”, afirma.

A PROVÍNCIA – A seresta é eterna?

Bolão – Gostaríamos que fosse, mas infelizmente a tendência é acabar. Quando esses músicos que estão levando a seresta em frente se forem, quem vai ficar no lugar?

A PROVÍNCIA – Não há renovação?

Bolão – Não é que os jovens não gostem, mas falta conhecimento. Não é culpa deles, pois como eles podem conhecer se as rádios não tocam e as TVs não mostram? Em meio a isso ainda tenho umas boas surpresas como na última Noite da Seresta, quando quatro rapazes me chamaram e disseram: “nós somos do rock mas também curtimos a seresta”. Acho que os jovens podiam pensar mais assim, que uma coisa não impede a outra.

A PROVÍNCIA – Mas essa reação não mostra que há jovens interessados? Bolão – Sim, mas é um caso isolado, no geral os jovens não se interessam. E eles ainda estão muito na posição de espectador. Para haver uma renovação deveria aparecer mais jovens se dedicando. Há um rapaz novo aqui em Piracicaba, o Roberto Mahn, que canta bem, mas também é um caso isolado.

A PROVÍNCIA – A Noite da Seresta não é importante para essa preservação?

Bolão – Claro que sim, pode colaborar muito, mas você percebe que os músicos que se apresentam são quase sempre os mesmos.

A PROVÍNCIA – O que é preciso para ser um seresteiro?Bolão – Em primeiro lugar, e não é para me gabar, tem de ter uma voz poderosa. Seresteiro tem de cantar pra fora, tem de ter dó de peito. E precisa mostrar sensibilidade, é preciso interpretar a letra da canção, ser um poeta, um ator mesmo, viver aquela letra, aquele poema, como se tivesse acontecido com ele mesmo.

A PROVÍNCIA – E o que o senhor acha da crítica que a seresta é uma coisa antiga?

Bolão – Ué, é antiga mesmo, e por isso mesmo é que é bom! Mas é preciso não confundir seresta com serenata, que essa acabou mesmo.

A PROVÍNCIA – Como era o tempo da serenata?

Bolão – Ah, era uma maravilha! Aconteceu até meados dos anos 60, por aí, e a cidade era outra, era mais romântica, mais provinciana. A gente se reunia no Líder Bar, que ficava na esquina da Governador com a São José, e lá pelas 10 e meia, que naquele tempo era muito tarde, ia fazer a serenata, que era para acordar a nossa amada ou a amada de um amigo.

A PROVÍNCIA – E como vocês eram recebidos?

Bolão – Sempre com muita elegância. A homenageada acendia a luz do quarto par amostrar que estava ouvindo e depois das músicas a gente era recebido na casa pela família com um café. Para você ver como é algo que desapareceu mesmo! Hoje em dia as pessoas vão dormir mais tarde e há a questão da segurança.

A PROVÍNCIA – O senhor tem muita saudade daquela época?

Bolão – Demais, demais! Eram outros tempos. Podem me chamar de quadrado, mas hoje em dia acho que falta mais cavalheirismo, mais elegância, mais romantismo.

A PROVÍNCIA – Como o senhor começou a cantar?

Bolão – Desde menino. Sou o filho caçula e meus dois irmãos mais velhos sempre tiveram muitos discos e eu desde pequeno me interessava.

A PROVÍNCIA – Quem é seu cantor favorito?

Bolão – Para mim nunca houve nenhum melhor que o Orlando Silva, ele era completo. O Orlando foi um dos maiores intérpretes do mundo, ele fazia o que queria da voz, atrasava ou adiantava o andamento. Um maestro da época, o Gabriel Migliori, dizia que o Orlando era um cantor chopiniano. Até hoje procuro ouvi-lo todo dia, para um cantor o Orlando é como um remédio: ouça Orlando 3 ou 4 vezes por dia e se inspire.

A PROVÍNCIA – E por que o senhor nunca quis seguir carreira profissionalmente?

Bolão – Não sei, talvez eu tenha ficado muito preso por essa admiração. Pensava: como eu vou chegar a cantar como esse homem? Mas foi bom porque eu sempre acabei vendo a música como um hobby, uma paixão mesmo.

A PROVÍNCIA – E nunca lançou disco?

Bolão – Gravei umas coisinhas, mas foi mais para distribuir para os amigos. Mas procurei gravar de uma maneira legal, num dos discos todos os instrumentos foram tocados pelo Alessandro Penezzi, que é um grande talento.

A PROVÍNCIA – E que profissão o senhor seguiu mesmo?

Bolão – Fui Guarda Civil durante muito tempo. Comecei em São Paulo, onde nasceu a Guarda, mas sorte que precisei ficar lá pouco tempo, só um ano. Logo vim para Piracicaba, a terra que sempre amei, pois a cidade foi uma das primeiras do interior de São Paulo a ter guarda civil. Ajudei muita criança a atravessar a rua na saída da escola. Hoje sou aposentado por uma empresa privada, o que foi uma grande sorte. Trabalhei 20 anos na Itelpa.

A PROVÍNCIA – O que senhor acha de Piracicaba hoje?

Bolão – Continuo amando minha cidade, costumo dizer que sou piracicabano com a graça de Deus. Mas hoje fico preocupado ao ver que a cidade está ficando muito violenta.

A PROVÍNCIA – O que o senhor ainda espera da vida?

Bolão – Olha, estou com 64 anos mas ainda não senti o peso do que chamam de terceira idade. Eu me cuido, faço minhas caminhadas, corto alguns excessos mas o que conta é viver com paixão.

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