O bom pastor

Foi (em 2005) um final de ano cheio de emoções para o Monsenhor Jorge Simão Miguel que, apesar do alto título eclesiástico, para a população de Piracicaba, especialmente os moradores da Vila Rezende, continua sendo “apenas” Padre Jorge, um amigo. “Acho que me chamando assim o povo demonstra mais carinho”, diz. Boa parte desse carinho ele pôde sentir no dia 8, quando completou 50 anos de sacerdócio. Preocupação talvez só com as mudanças feitas pelo novo bispo da cidade, dom Fernando Mason, que por pouco não o afastaram da sua querida Vila, mas aos 77 anos ele já demonstra tranqüilidade sobre o assunto. “É uma idéia dele de fazer renovação, e tem razão, vassoura nova varre melhor”, contemporiza. No mais, ele continua firme na sua “religião” corintiana, tanto que não gostou muito de ver o time campeão brasileiro e perdendo o último jogo. E se recupera do recente atropelamento que o deixa há mais de um mês com tipóia.

A PROVÍNCIA – Hoje o senhor se considera uma personalidade piracicabana?

Monsenhor Jorge – Fazem-me uma personalidade. Sou mesmo um modesto servidor do Senhor. Estou há 50 anos como sacerdote, tenho o título de monsenhor, mas o povo ainda me chama de padre Jorge, o que denota mais simplicidade e carinho.

E como foi a comemoração dos 50 anos de sacerdócio?

Foi muito bem, mais até do que eu esperava. Na verdade foi uma comemoração da perseverança. Faço uma comparação com um casamento, pois o sacerdote como que se casa com a Igreja. Nos dias de hoje, quando os alicerces do sagrado casamento estão sendo cada vez mais bombardeados, quem chega aos 50 anos de casado é como um herói.

Quando o senhor sentiu que tinha vocação religiosa?

Desde criança, ainda em Capivari, onde nasci. Minha família me favoreceu bastante. Minha mãe não saía da igreja, comungava todos os dias. Meu irmão mais velho já tinha ido para o seminário, ela chorou muito quando ele tomou essa decisão, não queria que ele fosse. Mas bastou fazer a primeira visita no seminário em que ele estava para concordar. Então, quando chegou a minha vez, não houve obstáculos. Eu já era coroinha, já tinha aquele primeiro contato para trabalhar na seara do Senhor.

Onde o senhor estudou?

Fiz o Seminário Menor, em Campinas, durante seis anos, depois fui para São Paulo, onde fiquei mais sete anos, foram 3 anos de Filosofia e 4 de Teologia. Fui ordenado no dia 8 de dezembro de 1955 aqui na Catedral pelo bispo dom Ernesto de Paulo.

Foi coincidência ter sido ordenado no dia da Imaculada Conceição?

O bispo que marca a data, mas gostei de ter sido neste dia porque isso marca ainda mais a minha ligação com a paróquia da Vila Rezende. Minha ligação é muito grande, eu acho que o padre é o pai espiritual dos paroquianos e me sinto com essa responsabilidade.

Essa nova igreja foi inaugurada quando?

A matriz velha foi destruída para construir a nova, que ficou pronta em 1972. Contamos com grande colaboração do industrial Mário Dedini. Ele deu toda a estrutura mas deixou a tarefa de cobrir a igreja para o povo, pois não queriam que dissessem que ele fez tudo ou que a igreja era dele. Só isso já demonstra a generosidade dele.

O senhor se preocupa com a diminuição de fiéis da Igreja Católica?

Na verdade acho que a gente tem de ficar mais preocupado com a qualidade do que com a quantidade. Não importa tanto o número mas sim saber se temos um rebanho que entende e aceita os fundamentos da Igreja. Para isso temos cursos de formação, de batismo, de crisma, e o povo anda se preparando mais para a fé.

E como vê o aumento das novas seitas?

Isso não abala. O que importa é saber se os nossos fiéis, aqueles que professam uma fé verdadeira, estão firmes.

A Igreja Católica não precisa se modernizar mais?

Precisa sim se adaptar aos tempos, não pode ficar parada, mas eu vejo que ela está fazendo isso sem perder a sua verdade.

Qual a sua avaliação até agora do novo papa, Bento 16?

Olho com bons olhos, é um papa que tem uma firmeza muito grande em sua fé.

Mas ele não é bem menos carismático que seu antecessor, João Paulo 2°?

Vamos dar mais tempo para ele, pois está só no começo. Tenho certeza que em breve ele vai dar mais valor ao novo.

O que Piracicaba representa para o senhor?

Representa muito, é meu local de trabalho. E é uma satisfação estar numa cidade que ao meu ver é privilegiada por ser tão acolhedora e reunir os lados positivos de uma cidade grande e de uma cidade pequena.

Para o senhor a Vila Rezende é uma cidade à parte?

É um pedaço de valor de Piracicaba e creio que poderia mesmo ser um município.

O senhor disse que são raros os casamentos que duram. Essa instituição está em crise?

Vejo isso com muita tristeza. Acho que os veículos de comunicação, como a televisão, focalizam muito a deterioração do casamento. Os atores proclamam aos quatro ventos a sua separação. Artistas dizem que estão no quinto ou sexto casamento como se isso fosse uma coisa positiva. Essas separações são preocupantes, antes as pessoas persistiam, hoje desistem logo na primeira dificuldade que enfrentam.

Isso se reflete também na diminuição do número de casamentos na Matriz da Vila?

É que antes a paróquia era mais ampla, então a gente chegava a fazer uns 20 casamentos por final de semana.

O que mais preocupa o senhor em relação à juventude?

A juventude está preocupada com seu futuro, com a falta de emprego. De nossa parte, precisamos orientar os jovens para o bom caminho, para se libertar dos problemas causados pelas drogas. Precisamos apoiar, dar bons exemplos, para que não busquem nas drogas a solução. Eles precisam se convencer que as drogas não trazem nada de bom.

Como o senhor reagiu às mudanças propostas pelo novo bispo, Dom Fernando Mason?

É uma iniciativa dele, ele já veio para a cidade com a idéia de que os padres não devem ficar mais de 10 anos na mesma paróquia. Ele pensa na renovação, e tem suas razões, afinal vassoura nova varre melhor. A gente esperneia um pouco por causa do nosso apego, mas ele tem suas razões em mudar.

Mas o senhor não correu o risco de sair da Vila?

Ele me disse que jamais pensou em me tirar, vou continuar, mas agora com outro padre mais jovem, Orivaldo Casini

 

*Ronaldo Victória é redator do Jornal de Piracicaba. Esta entrevista é de sua autoria, divulgada em dezembro de 2005 em A Província online. Republicamo-la para constar dos arquivos de A Província.com.

(Fotos: Vinicius Tricanico.)

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