O senhor otimismo. Sempre.

Quando Virgílio Lopes Fagundes – ex-empresário e construtor, incentivador do esporte na cidade e membro atuante na sociedade piracicabana desde os anos 30 -, conta que, prestes que completar 90 anos (que fez em março), só sai de casa para ir ao médico porque não consegue mais se locomover sozinho, que ninguém entenda isso como uma lamentação. Ao contrário. O homem que foi um dínamo em várias áreas hoje aceita as limitações da idade sem se revoltar. “Acho que minha palavra-chave é mesmo o otimismo, eu não gosto de reclamar da vida”, conta ele nessa entrevista exclusiva para APROVÍNCIA. Coisa de quem mantém a lucidez ao analisar todos os assuntos, até os avanços da medicina que o fazem sonhar com os 100 anos, embora sem temores. “Só tem medo da morte quem não viveu plenamente”, ensina.

A PROVÍNCIA – O senhor tem saudade de seu tempo de empresário?

Virgílio Lopes Fagundes – Ô se tenho! Sinto falta de ser produtivo, de estar no meio da sociedade, mas não reclamo da vida, graças a Deus.

A empresa do senhor era do ramo de cordas e fios, não é?

Era. O nome era Agave Industrial Limitada, que é o nome botânico do sisal, matéria-prima para fazer cordas e fios. A sede ficava em Santa Terezinha. A Companhia das Docas de Santos era um de nossos maiores clientes. A empresa funcionou de 1942 a 1985, e eu sempre fui o presidente. E por que fechou? Por causa da concorrência dos sintéticos, com as cordas de nylon e polietileno. Mas agora vejo que o sisal vem voltando a ter a preferência. O senhor se aposentou depois de fechar a fábrica? Parei de uma vez. Na verdade eu estou aposentado desde 1981, com 65 anos de idade e 35 de serviço. Eu me aposentei por idade e por atividade. O senhor também foi construtor? Fui mesmo pai de construtores, meus filhos Antonio Carlos e Luiz Antonio. Incentivei a fazer vários prédios em Piracicaba, como o Sisal Center e este em que estou morando, o Canadá. Aliás, o nome fui eu que sugeri mas não tem a ver com o país. Significa “Cana dá”, pelo fato de eu ter sido também plantador de cana.

E por que fechou?

Por causa da concorrência dos sintéticos, com as cordas de nylon e polietileno. Mas agora vejo que o sisal vem voltando a ter a preferência.

O senhor se aposentou depois de fechar a fábrica?

Parei de uma vez. Na verdade eu estou aposentado desde 1981, com 65 anos de idade e 35 de serviço. Eu me aposentei por idade e por atividade.

O senhor também foi construtor?

Fui mesmo pai de construtores, meus filhos Antonio Carlos e Luiz Antonio. Incentivei a fazer vários prédios em Piracicaba, como o Sisal Center e este em que estou morando, o Canadá. Aliás, o nome fui eu que sugeri mas não tem a ver com o país. Significa “Cana dá”, pelo fato de eu ter sido também plantador de cana.

Como plantador, o que achou da rejeição do projeto que previa o fim da queimada de cana?

Utopicamente o projeto seria razoável, mas acontece que iria deixar muito produtor sem condições de fornecer. É que a área rural tem terrenos muito acidentados. O governo federal deveria incentivar a construção de máquinas suscetíveis de trabalhar em terrenos inclinados. Acho que o projeto não era realista por causa da situação social que criaria.

Ainda é plantador de cana?

Tenho um canavial numa fazenda no bairro Limoeiro, a oito quilômetros de Piracicaba, que tem 115 alqueires. Sou fornecedor da Costa Pinto.

É verdade que o senhor foi o criador do Jardim da Cerveja, casa noturna famosa nos anos 60?

Fui o idealizador e era uma sociedade com mais 15 pessoas. Na verdade a cervejaria só deu prejuízo o pouco tempo que funcionou. Não era um empreendimento realista, pois se gastou muito em promoção e não se teve retorno.

Do que sente falta da vida noturna de Piracicaba?

Desde 2001 não sei como é, porque por causa do problema de locomoção só saio de casa para ir ao médico. Antes de ficar viúvo eu ia muito nas promoções do Mauro Vianna no Coronel Barbosa e no Clube de Campo. Aliás, fui sócio fundador, lavrei a ata e me considero parteiro do Clube de Campo. De 1954 a 1977 fiz parte do Conselho Deliberativo.

O senhor também foi um grande esportista, não é?

Eu fiz parte do Clube de Regatas de Piracicaba de 1929 até 1975, quando ele fechou. Joguei muito basquete e tomei parte dos primeiros Jogos Abertos do Interior, como jogador de basquete, em Monte Alto e Uberlândia, em 1936 e 1937. Era um tempo de amadorismo, aliás no Regatas a gente tinha de pagar mensalidade para conseguir jogar. Lembro que a taxa era de 5 mil réis.

O esporte foi que ajudou a manter a saúde?

Não tenha dúvida. Devo ao esporte toda essa possibilidade de chegar aos 90 anos e ainda querendo mais. Nunca fumei e nem bebi. Só uma vez tomei uma sova da minha mãe ao ser flagrado fumando. Comprei dois maços de Castelões, que custava 300 réis cada maço, e fui fumando um atrás do outro, foram nove, mas nem sabia tragar. Quando minha mãe viu, me bateu, mas na verdade eu tinha odiado o gosto. E acho que não existe cheiro pior que cheiro de cigarro.

Por falar nisso, como era a educação naquela época?

Minha mãe, Maria Guilhermina Lopes Fagundes, chamada Mimi, a quem homenageei com nome do prédio que fica na esquina da São José com a Governador, era muito rígida. Ela foi professora durante 33 anos. Lecionava sempre no primeiro grau, pois adorava ensinar as primeiras letras. Foi minha primeira professora, no Moraes Barros, e puxava mais as minhas orelhas que as dos outros alunos. Meu pai, Virgílio Silva Fagundes, era advogado.

O senhor ficou casado quantos anos?

Casei com uma rioclarense, Diva. Foram 42 anos de casados e 3 de namoro. Tivemos 4 filhos, dois homens e duas mulheres. Ela morreu nova, com 66 anos, em 1986, e nunca pensei em me casar de novo.

O casal se conheceu quadrando jardim?

Não, eu a conheci durante uma viagem de trem de Campinas para Rio Claro. Mas naquele tempo a maioria dos casais se conhecia passeando pela praça José Bonifácio. O curioso é que os homens faziam a roda interna e as mulheres a externa. A juventude também era muito fiscalizada. Havia muito controle em tudo. No cinema as fitas mais impróprias só passavam no Cine Politeama depois das 10 da noite.

Qual a sua distração hoje em dia?

Torcer pelo XV. Fui presidente do XV durante quatro meses, em 1964, quando o Rípoli levou o time para uma viagem pela Europa e pela Ásia. Hoje acho que a situação do clube está ruim, depende de dinheiro. Precisa investir mais, conseguir bons jogadores.

O senhor confia nos avanços da medicina?

Totalmente. Eu idolatro a medicina atual porque sou dependente dos médicos. Sinto que está tudo muito melhor e dá mais esperança para a gente. Acho que é cada vez mais possível a gente chegar aos 100 anos.

Então o senhor é um otimista?

Graças a Deus não reclamo da vida. Enfrento a morte de peito aberto a qualquer momento porque acredito em reencarnação. Sou kardecista e acredito que a gente dará conta no futuro do que fez no passado. A base da minha religião é não fazer para os outros o que não quer que façam para você. Se durante a vida você agiu assim, vai temer o quê? E só tem medo da morte quem não viveu plenamente.

*Ronaldo Victoria é redator do Jornal de Piracicaba. Essa entrevista foi publicada na A Província online, da qual ele foi editor, republicada, agora, para constar dos arquivos de A Província.com.

(Fotos: Henrique Figueiredo Nunes)

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