A festa do nosso coração

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CORAÇÃ~1Não há pessoa que, por momentos, não se ponha a pensar no “antigamente”, embora esse tempo passado não esteja tão distante assim. É que as mudanças, hoje, ocorrem numa velocidade vertiginosa, deixando a todos com saudades precoces.

Sinto saudade da escola primária, de descer a rua Governador, com a lancheira de alças cruzadas no peito, rumo ao Grupo Escolar “Barão do Rio Branco”. Saudade da minha primeira professora, dona Júlia. Saudades das férias escolares.

Julho nos presenteava com um frio que nunca mais vi. Eram dias de pura magia, tempo livre para brincar e jogar dama, palito, ludo real e forca. E uma semana na casa da madrinha adorada, que morava na Capital.

Bela a liberdade que se tinha de ir e voltar da escola a pé, aos bandos, com colegas, primos e amiguinhos. Brincar na rua de noite, jogar queimada, pular corda, os pais sentados nas cadeiras em frente da nossa casa.

Era dente partido, joelho arranhado, jogava-se descalço na areia, rasgando a sola do pé. Ninguém morria disso.

O papel do pão, branquinho, não era jogado fora. Guardava-se, para estudar nele, fazer as contas da prova de Matemática. Para fazer mil vezes a tabuada e decorar quanto era 7 X 9, 7 X 8, 9 X 8, 6 X 9: os mais difíceis. Já a tabuada do 5 tirávamos de letra.

Na nossa casa, havia um pé de manga frondoso no quintal. Somente quem se sentou no galho mais alto para ver o brilho da primeira estrela no céu, entende a beleza desta dor. Era um incêndio na minha alma, a sensação plena da existência de Deus, Seus anjos e santos.

No alto da mangueira, aconteceria um milagre. Esperava por ele todos os dias. Nem sabia o que era, mas a expectativa de algo iminente fazia o coração dar cambalhotas.

Dia destes, li um poema chamado “No tempo da minha infância”, onde o autor evoca essa fase inesquecível da vida. Um amigo comentou lembrando do pão com goiabada enrolado no guardanapo xadrez. Outro, de como era bom tomar banho de cachoeira. Ficava no corpo um cheiro bom de sabonete perfumado. Pão com manteiga, queijo, ovo frito, polenta com frango, leite tirado da vaca, as férias no sítio.

E o Natal de antigamente? A data significava o que havia de mais belo e mais sagrado. Esperar pela noite do Natal, a Missa do Galo e depois o presente. Um ritual de aperto no coração. E os presépios? O sonho morava neles, no cajado de cada pastor e sua ovelha branquinha. Jesus Menino na caminha de palhas, os bracinhos infantes abertos para o mundo.

Não era o apelo natalino eletrônico em 10 vezes, sem juros no cartão. Era a época das Cestas de Natal Amaral, que meu pai comprava do caminhão que passava anunciando com som na rua. Ah, o primeiro dia do Ano Novo! Os parentes cumprimentavam-se, visitando-se com abraços, um copo de vinho, uma guloseima, um convite para almoçar.

O “antigamente” de ontem funde-se à trepidação de hoje e nossa alma, como que num vazio, tateia em busca de um tempo especialmente doce e venturoso. Não percamos, jamais, a beleza das coisas simples e que fazem a festa do nosso coração.

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