A Viagem

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Não adianta fazer de conta que a vida é um feriado prolongado. Um dia retornaremos a pó, pois nada é eterno enquanto estivermos sob o domínio do tempo. Vida e morte são faces da mesma moeda. Se Finados marca novembro, dezembro lembra recomeço. Como morrer velho e voltar novo. Acontece que “Nos meios urbanos ocidentais, a morte foi afastada da vista pública. Não se vela mais em casa o corpo de entes queridos. Há um horror à morte, entre nós. A morte (…) foi isolada em hospitais. (…) A morte incomoda. Basta começar a tocar nela e todos sentem um vago mal-estar. Quase todos preferem mudar de assunto”. (Leandro Karnal. Folha 02.11.15).

Se a vida não se renovasse constantemente como ficaria o planeta?Dá para imaginar Buda ainda vivo; o rei Davi; Platão, Leonardo Da Vinci, Mozart, Gandhi? Jesus estaria entre nós em carne e osso? Por outro lado como seria o mundo ainda com Nero, Cortez, Stalin, Hitler, Mao, Médici, Amin?

“Acho que a morte é que faz a vida ser tão boa. Já imaginou que horror viver eternamente? Para sempre? Não poder morrer, não poder acabar? E é por isso que viver é tão bom, é tão impressionante, é tão prazeroso” (Paulo Autran, ator, 1922 – 2007). Meu pai aos 97 anos pedia para Deus vir buscá-lo, pois se achava só no mundo; todos os seus já tinham partido. Seu mundo não era mais este. Por outro lado, como viver intensamente, ter metas e objetivos se nossa vida durasse milhares de anos? Por mais poder que tenhamos não conseguimos estender um pouco mais que seja os raros momentos de alegria verdadeira que experimentamos. “Permanecer nesse tipo de vida que temos é nunca poder crescer plenamente, nunca poder transmutar-se, nunca poder ressuscitar e jamais mergulhar na Fonte que deu origem a todo o ser” (Leonardo Boff).

Estamos de passagem, e quanto mais livres mais curtiremos a viagem. Muita gente gasta vida com coisas. Outras amargando rancores e competindo com os outros. Privam-se da beleza do caminho. Nunca estão prontas para voar porque não saíram do casulo. Não se entregaram por medo, marcado a ferro pelos pais. Em vez de sábias acabam azedas. Não conseguiram compreender que vida é relação e que quem se protege demais acaba só.

Nessa sociedade materialista a morte é um golpe fatal na autosuficiência.  Pessoas morrem sozinhas em hospitais, longe do calor dos familiares e amigos porque é da medicina a última palavra, que insiste em prolongar o sofrimento de quem está pronto para a plenitude, afinal, doenças são oportunidades de se retomar. A prorrogação artificial da vida só serve à indústria da doença. Para nós, morte lembra violência, doença, sofrimento, separação. Fomos nós que inventamos isso. Filmes, novelas e telejornais exploram muito bem nossa perversa capacidade de matar.

Contudo, está no DNA dos povos que a vida continua. “Deus não fez a morte, nem tem prazer em destruir os viventes. Tudo criou para que subsista” (Sb 1, 13). É seu desejo que tenhamos uma vida longa e venturosa. Então, quando nossas forças se esvaírem e nosso espírito buscar o eterno, Ele nos mandará a morte que nos levará até seu colo, onde poderemos dizer como Santo Antonio: “Finalmente te vejo”. Lá nos reencontraremos todos numa festa sem fim. Quem foi sabe e quem fica é isso que espera. “Não haverá mais luto, nem pranto, nem dor, porque tudo isso já terá passado” (Ap 21,4).

“Fizeste-me para Ti e só em ti meu coração encontrará repouso” (Santo Agostinho).  “Sim, voltei a Deus. Sou o filho pródigo… A nostalgia do céu me dominou. Há, afinal de tudo, uma centelha divina em cada alma humana”. (Heine, poeta alemão, 1797-1856).

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