Ângelus

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Há um momento profundamente misterioso no tempo, uma hora de transição, em que o dia encontra a noite. Ainda não é noite, mas já não é mais dia. O lusco-fusco das coisas que parecem diluir-se na paisagem transitória confere ao momento uma singularidade que não escapa à alma e ao corpo mortal.

Nesta troca de guarda entre sol e lua, uma revelação parece brotar das perplexidades, e é como se todos os grandes enigmas da vida se elucidassem aos nossos olhos e àquele olho interior que nos habita.

Estou sempre atenta e de vigia. Monto guarda para não perder o pio sofrido e arrepiante de alguma ave que encerra seu vôo e sua faina diária, para se aninhar nas árvores próximas.

Há também um apito distante, que ouvimos curiosos, encerrando algo como um trabalho digno, laborioso. Não sabemos do que se trata, mas concordamos inteiramente que tudo seja como é.

Às 6 horas do entardecer, hora da Ave-Maria, hora da Anunciação do Anjo, um ser alado vem e faz a sua saudação. De joelhos, que o Anjo se aproxima. Quem ouvir o ruflar de suas asas, não se enganou. Quem puder ver o brilho de sua presença, ganhou o mais belo dos presentes. São as delicadezas de Deus para os que O amam e O buscam sem cessar. “É a Vossa face que eu busco, Senhor”.

No crespúsculo, entre o dia e a noite, muitos corações estão de joelhos, oferecendo o seu “sim”, devotadamente. São as almas pequeninas, orantes, ornadas de virtudes. Ninguém as vê. Trata-se de uma entrega da própria vida, um morrer para si mesmo e para o mundo, a fim de que floresça algo de importante e que transforme para sempre a face da Terra.

Há tanta coisa que não vemos. Ou não enxergamos. Contudo, vivemos num mundo visível, concreto, de ruas e esquinas, casarios e pessoas. Carros trafegando sem parar e sons de todos os decibéis. Existe uma interação constante entre os elementos, uma tensão permanente no ar.

Talvez percamos um instante precioso, se o coração não despertar. Há tanto a ser visto na abundância da vida. Às vezes, num frêmito, o espírito capta a plenitude de um céu azul e diáfano, o desabrochar de uma rosa indefesa, a marcha da formiguinha apressada, carregando sua partícula vegetal num universo repleto de dons.

O céu parece o mesmo há tanto tempo. Não, já não é o mesmo céu. Há algo que se deixou seduzir pelo canto da ave recolhida no Ângelus, cio de uma natureza cíclica e aberta à vida, trabalho de parto e de fé.

Em suas lonjuras, alturas e profundezas, a Terra imprime em nós a sensação da cósmica comunhão com o infinito. Há botões de flores em toda parte, a grama verde cresce, o sol brilha e não podemos permitir que nossos corações desistam dos sonhos.

É permitido sonhar. Reacender a velha chama e desabrochar. Desabrochemos como flores de uma primavera que nos entregará ao verão que se aproxima. Da mesma forma que o dia entrega sua luz às estrelas profundas da noite. Participemos deste milagre das estações e das transições, que também acontece toda vez que renascemos para nós mesmos.

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