Arquitetos Comunitários

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habitacao-indiana2Quando em muitos bairros da periferia vejo o poder publico presente através de seu pessoal – Saúde, Assistência, Educação – estadual e municipal; Habitação, Lazer, etc. mais a iniciativa privada – Associação de Moradores, ONGs, Igrejas, etc. todos trabalhando bastante, mas cada um na sua acho um desperdício. Trabalham o mesmo território, mesmos problemas, famílias e casos; a mesma escassez de recursos e limites. Porém, pouco se conhecem. A creche dificilmente fala com a escola, que está nem aí com o CRAS, que ignora o PSF, que não sabe o que é CAOF, EMDHAP ou CASE etc. E por aí vão como linhas de trem para a mesma direção sem nunca se encontrar.

Quando deparam com casos difíceis ficam perdidos. Faltam-lhes outros olhares. Trabalhando em conjunto obteriam resultados mais positivos. Ou melhor, poderiam se antecipar aos fatos mapeando famílias sob risco social eminente, e fazer com elas trabalhos preventivos em rede antes de acabarem nas pilhas de casos nos CREAS ou Judiciário. Não raro, a mesma família é atendida por diversas organizações ao mesmo tempo sem saber uma o que outra fez ou faz. A situação de crianças que faltam às aulas, por exemplo, poderiam ser discutidas in loco ouvindo e atendendo a família em suas necessidades. Muito melhor que encaminhá-las ao Conselho Tutelar. Mesmo porque o Conselho não tem muito a fazer.  E, muitas vezes, a escola é a maior responsável pelo desinteresse dos alunos.

Trabalhando de modo integrado, agentes públicos e privados teriam uma equipe muldisciplinar em ação. Poderiam se reunir periodicamente para externar angústias já que trabalhar com gente não é fácil; discutir problemas comuns e pensar estratégias conjuntas. Mais que isso, poderiam pesquisar junto à população atendida quais seus sonhos, desejos, problemas, valores, medos, preconceitos, crenças, preocupações; o que pensa dos serviços prestados, sugestões de políticas públicas preventivas e curativas. A partir de então teriam dados para elaboração de diagnóstico que subsidiasse um planejamento estratégico envolvendo as organizações e a população do território.  Recursos materiais e humanos seriam socializados poupando gastos e agilizando os serviços. Saberes populares poderiam ser resgatados, e criados mecanismos de incentivo ao desenvolvimento de talentos e geração de renda.

Adianta um Estado presente, porém fragmentado, desorganizado, benemerente e enxugador de gelo? Precisamos urgentemente de gestores e técnicos que sistematizem conhecimentos. Carecemos de “arquitetos comunitários” com visão horizontal crítica e acurada para integrar recursos, engenhar logística, analisar conjunturas, disponibilizar espaços, criar pontes de diálogo e que principalmente saibam costurar redes. Relações positivas e afeto vão mais longe que dispendiosos projetos. Pessoas envolvidas, motivadas e valorizadas conseguem mais que mestres, doutores e gerentes.

“É consenso que a fragmentação de dinheiro público é sinônima de baixa eficiência e de desperdício, tamanha é a superposição de ações e a falta de foco”. (Gilberto Dimenstein. Folha De São Paulo 02.03.08). Piracicaba está nessa. Cada um na sua. Coisa de governo que sabe gerir recursos, mas não pessoas. Alguns secretários estão no comando há dez anos; não por competência, mas por conveniência política. Já deram o que tinham de dar. Cuidam do óbvio.

Aqui não se discute causas. Prega-se remendos. Muitos carros? Mais avenidas. Trânsito violento? Mais radares. Assaltos? Mais muros e trancas. Muitos crimes? Mais policia, câmeras e presídios. Poluição? Reza pra chover. Muita doença? Mais unidades de saúde. Moradores de rua? Mais comida e cobertor. Muitos idosos e crianças largadas? Mais abrigos. Delinquência? Fundação CASA – já vamos indo para duas.

E, se nada disso adiantar a culpa é da Dilma.

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