As lições de uma vida

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images (2)A morte, quase sempre, nos apanha de surpresa, embora seja ela, na vida, nossa única e inexorável certeza. O tempo corre veloz para todos e, na maturidade vamos aprendendo( ou pelo menos deveríamos, nos momentos de reflexão tão necessários), a colher os frutos de nossas experiências e observações no próprio livro da vida. Quase sempre, são as pessoas que nos ensinam. Em sua trajetória, pontilhada de altos e baixos, podemos avaliar ou ajuizar os valores que lhe dão sentido e o porquê das conseqüências que poderão ser boas ou más, de acordo com o que semeamos. E talvez a lição mais importante seja sempre a mais simples, aquela que se resume no amor e sua medida que é a do amor sem medida.Quantos de nós poderíamos dizer que vivemos este amor de tão difícil execução?

Todo este preâmbulo me ocorreu quando compareci ao velório de Isaltina( Isa para os íntimos) Silveira Mello, falecida quinta feira, dia 12, a quem aprendi amar e admirar no tempo de mais convivência, em que o substantivo que melhor lhe cabe, seja mesmo o da simplicidade. Dentro de sua própria casa tão querida e rodeada pelos familiares e amigos numerosos, ali estava ela, não mais para recebê-los com a fidalguia e a cordialidade, tão característicos de sua personalidade. Todos eles, de todas as classes sociais, ricos e pobres, pequenos e grandes, jovens e idosos, eram recebidos de igual maneira, num acolhimento natural e expansivo, muito próprio da riqueza interior que trazia consigo. “Faço questão de receber a todos, um por um, no momento da chegada, e esta é uma festa que gosto de oferecer a meus amigos”, dizia ela, e para isso era incansável, circulando pelos espaços dos salões, dos jardins e dos degraus, mesmo quando se recuperava da operação recente. Alegre, descontraída e sem queixas, a todos dispensava atenções e para todos tinha uma palavra de carinho e de apreço nas memoráveis festas em que celebrava sua vida, e participava com entusiasmo das cantorias e das expansões ao lado da família e dos amigos fiéis.

Nem preciso enumerar o grande número desses verdadeiros amigos, muitos deles contemplados pelas ações beneméritas que exercia em silêncio e sem alardes como a que descreveu tão bem aqui nestas páginas a presidente da Mucapp, Ivani Fava Neves, no dia seguinte de seu passamento.Ela não sabia negar sua ação e sua ajuda a quem delas precisasse, e ali residiu sua maior riqueza, com a qual construiu ”Um tesouro inesgotável nos céus, onde ladrão não chega nem a traça corrói, porque onde estiver seu tesouro, aí também estará o seu coração.”(Lc12,33-34).

Querida amiga: em meio a tantos pensamentos contraditórios,em que sobrelevo o mérito das pessoas pelo seu valor intrínseco, portadoras da sensibilidade, da bondade e do calor humano, numa realidade que mais e mais se distancia daquilo que dá sentido à vida, detive-me sobre os “seus jardins, suas plantas e suas jabuticabeiras” que você, com tanto carinho, preparava para a próxima festa de seu aniversário, bem na entrada da estação das flores. Contemplei-os com devoção: intensamente floridos, pujantes, vivos e belos, simétricos e harmoniosos, aqueles antúrios de todas as cores estarão, certamente, esperando-a , para uma grande festa no céu,numa primavera muito nova junto de Deus, onde se experimenta a verdadeira paz, dos verdadeiros justos!

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