Aylan

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Alemanha, França, Inglaterra, Itália e várias outras nações européias – Estados Unidos também – à cata de riquezas que sustentasse seu fasto doentio, subjugaram países orientais, africanos, americanos e asiáticos transformando-os em colônias. Saquearam suas riquezas, dominaram seu povo fazendo sofrer crianças, mulheres e idosos; comeram, beberam, farrearam e tripudiaram sua cultura e religião. A Inglaterra deitou e rolou na Índia e n’outros países. Espanha e Portugal rapelaram as Américas e exterminaram nações indígenas. França, Itália, Bélgica, e por aí segue a extensa lista de predadores. Os EUA botaram o pezão de chumbo no milenar e delicado Oriente. Foi como um elefante numa sala de cristal. Pior, além de contaminar sua cultura, botaram povos conta povos a fim de controlar o petróleo – indispensável na manutenção do irresponsável padrão de vida norteamericano.

Fabricaram os mais sanguinários ditadores, e os destruíram tão logo deixaram de atender aos seus interesses. Provocaram guerras fratricidas e venderam armas. Depois vieram com planos de recuperação e injetaram dinheiro visando manter o domínio. A Europa ficou rica. Seu povo acha que tem rei na barriga. Não vê que sua vida de almofadinha vem da desgraça de outros. Os EUA tornaram-se potência mundial. Porém, seu povo obeso, tapado, feio e violento – até crianças têm armas – demonstra que é infeliz, tanto que virou um grande consumidor de drogas lícitas e ilícitas, e deve ter entre a segunda ou terceira maior população carcerária do planeta.

Contudo, as consequências da ganância desenfreada desses países não pararam nisso. Despertaram ódio nas nações oprimidas. Se fossem civilizados e instruídos como se autoproclamam, teriam percebido que sua ação predatória traria resultados funestos, já que nem animal aceita viver pisado. Estão aí os resultados. Terríveis organizações se formaram e estão espalhando pavor, destruição e morte a ponto de não haver mais lugar seguro no planeta. “Terrorismo pós-Bin Laden é mais mortífero. Quatro anos após a morte do líder da Al Qaeda, extremismo descentralizado produz mais terrorismo e vítimas. Mortes em atentados subiram 42% de 2011 a 2013. Em 2013 foram 17.800 mortes”. (Folha 01.05.15). E com isso, mais armas, cercas, exércitos, vigilância e controle. Depois da queda do muro de Berlin, novos outros se erguem. Liberdades individuais são tolhidas, câmeras de vigilância estão por todo lado e nações vivem estresse coletivo.  As bombas que jogam lá explodem aqui.

Como resultado, populações inteiras fogem de seus países para escapar da morte, da fome, de desabrigo e do desemprego. A pé ou de barco hordas imensas rumam para a Europa, onde está a riqueza deles roubada. Milhares já morreram pelo caminho. Exceto a Itália, onde o papa Francisco bateu o pé, os europeus fecharam as portas.

Porém, uma criança mudou o rumo das coisas. A foto de Aylan Kurdi de 3 anos morto na praia abalou o mundo e elevou a pressão sobre líderes da Europa. Portas começaram a se abrir e a população européia passou a acolher os refugiados – ao menos parte deles. “Há muito tempo não via nada tão pungente e devastador como a imagem de Aylan com seu corpinho emborcado na areia, o resto encoberto pelo refluxo da maré. A foto atinge quem olha com a intensidade de um soco no estômago. Dói”. (Vera Guimarães Martins. Folha 06.09.15).

Em Belém ele estava de frente com braços abertos para o mundo. Agora está de costas com o rosto enterrado na areia da praia. Aylan e Jesus são a mesma criança.  Nele Jesus morre novamente para chamar atenção da humanidade. Em vez de mundo de paz, desenvolvimento e fraternidade estamos criando um inferno.

Seu sonho era nos reunir “como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas” (Mt 23, 37). Mas não quisemos.

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