CARTA ABERTA A LULU SANTOS

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Apenas mais uma canção de amoramor-nao-basta1

 

Eu gosto tanto de você

Que até prefiro esconder

Deixo assim ficar

Subentendido

 

Como uma idéia que existe na cabeça

E não tem a menor pretensão de acontecer

 

Eu acho isso tão bonito

De ser abstrato, baby

A beleza é mesmo tão fugaz

 

É uma idéia que existe na cabeça

E não tem a menor pretensão de convencer

 

Pode até parecer fraqueza

Pois que seja fraqueza então

A alegria que me dá

Isso vai sem eu dizer

 

Se amanhã não for nada disso

Caberá só a mim esquecer

O que eu ganho, o que eu perco

Ninguém precisa saber

 

Na última visita que fiz ao Brasil em julho passado ouvi pela primeira vez esta sua musica. Que coisa linda Lulu..

Em um mundo fast food onde o prazer parece ter se tornado nossa estrela guia e a busca por sua satisfação sempre acompanhada de um sentimento imediatista, num mundo onde o instigante mistério teve seus dias contados pela vulgaridade do explicito, num mundo onde  relacionamentos tornaram-se líquidos e onde qualquer ato passou a ser revestido de exacerbada publicidade, num mundo assim Lulu, uma música como a sua chega como uma brisa, um bálsamo. Um verdadeiro refrigério que vem desengessar os embrutecidos e afagar os sensíveis.

Que delícia ouvi-lo cantar sobre a coisa sublinhar, sobre aquilo que não tendo pretensão de acontecer, acaba por existir. Como disse Quintana, “as coisas que não conseguem ser olvidadas continuam acontecendo”.

Que lindo ouvi-lo cantar sobre este amor que de tanto lhe fazer gostar o fragiliza a ponto de fazê-lo preferir escondê-lo! Lindo Lulu, lindo…

Veja, não falo da inquietude e furtividade do amor platônico, por vezes retratado como frágil e titubeante que parece sempre estar na ânsia da busca do acontecer. Falo da quietude e solidez deste amor tranquilo e profundo com o qual há paz a respeito da desnecessidade dele acontecer. Falo da beleza deste amor cantado por você, o amor abstrato.

Falo sobre o amor da amada não ali, ao alcance de seu toque, mas o amor àquela que longe de seu corpo, tão próxima de seu coração permanece.

Faz me lembrar das palavras de Saint Exupery, em Terra dos Homens, o qual na solidão fria da noite no deserto, ao falar sobre uma casa de seus sonhos, um dia assim escreveu: “Pouco importava que ela estivesse distante ou próxima, que não pudesse cercar de calor o meu corpo, nem me abrigar, reduzida apenas a um sonho, bastava ela que existisse para que minha noite fosse cheia de sua presença”.

Falo sobre isto.

Contentamento semelhante descreve você Lulu, ao cantar sobre “esta ideia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer”. A você basta que este sentimento, discreto e abstrato, apenas exista para que a “alegria que isto lhe dá, isto vá sem você dizer”! Mais uma vez, no alvo grande Lulu, no alvo…

Sem querer me delongar, termino dizendo que “Apenas mais uma canção de amor”, assim como uma brisa, vem acompanhada da mesma doçura, leveza e descompromisso do sentimento que  ela parece buscar retratar.

Uma ode a beleza da coisa sublinhar.

Paralelamente as lindas escolhas feitas em nossas vidas, podemos trazer em nossos corações preciosos  presentes a nós“ofertados” e não “abertos”.

A despeito de não serem “desembrulhados”, a singularidade e beleza de sua essência os faz ainda assim florir o seu entorno.

Nem tudo há de acontecer para ser, em completude e virtude.

Boa noite Lulu, e… vida longa a você e aos que nos honram com seu nobre amor as vezes abstrato, as vezes amor real, mas sempre amor amor.

 Thais Helena Guidolin M. Ouzounian

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